Project Gutenberg's Cartas de Inglaterra, by Jos Maria Ea de Queirs

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Title: Cartas de Inglaterra

Author: Jos Maria Ea de Queirs

Release Date: May 29, 2008 [EBook #25641]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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Cartas de Inglaterra




Ea de Queirs


Cartas de Inglaterra


Porto
LIVRARIA CHARDRON
de Lello & Irmo--Editores
1905




  Obras de EA de QUEIROZ

  *O crime do padre amaro.* Quarta edio inteiramente refundida,
  recomposta, e differente na frma e na aco da edio primitiva.
  1 grosso volume..................................................  1$200
  *Os Maias.* Segunda edio. 2 grossos volumes....................  2$000
  *A cidade e as Serras.*..........................................    800
  *O Mandarim.* Quarta edio. 1 volume............................    500
  *O primo Basilio.* Quarta edio. 1 grosso volume................  1$000
  *A Reliquia.* Terceira edio. 1 grosso volume...................  1$000
  *Contos.* 1 volume...............................................    600
  *As minas de salomo.* 1 volume..................................    600
  *Correspondencia de Fradique Mendes.* 1 volume...................    600
  *Revista de Portugal.* 4 grossos volumes......................... 12$000
  *A Illustre Casa de Ramires.* 1 volume...........................  1$000
  *Prosas Barbaras.* 1 volume......................................    600

  _No prlo:_

  *Echos de Paris*
  *S. Christovam* (inedito)


Porto--IMPRENSA MODERNA




I

Afghanistan e Irlanda


Os inglezes esto experimentando, no seu atribulado imperio da India, a
verdade d'esse humoristico logar-commum do seculo XVIII: A Historia 
uma velhota que se repete sem cessar.

O Fado ou a Providencia, ou a Entidade qualquer que l de cima dirigiu
os episodios da campanha do Afghanistan em 1847, est fazendo
simplesmente uma copia servil, revelando assim uma imaginao exhausta.

Em 1847 os inglezes, por uma razo d'Estado, uma necessidade de
fronteiras scientificas, a segurana do imperio, uma barreira ao dominio
russo da Asia... e outras coisas vagas que os politicos da India rosnam
sombriamente, retorcendo os bigodes--invadem o Afghanistan, e ahi vo
aniquilando tribus seculares, desmantelando villas, assolando searas e
vinhas: apossam-se, por fim, da santa cidade de Cabul; sacodem do
serralho um velho emir apavorado; collocam l outro de raa mais
submissa, que j trazem preparado nas bagagens, com escravas e tapetes;
e, logo que os correspondentes dos jornaes tm telegraphado a victoria,
o exercito, acampado  beira dos arroios e nos vergeis de Cabul,
desaperta o correame e fuma o cachimbo da paz... Assim  exactamente em
1880.

No nosso tempo, precisamente como em 1847, chefes energicos, Messias
indigenas, vo percorrendo o territorio, e com grandes nomes de _Patria_
e de _Religio_, prgam a guerra santa: as tribus reunem-se, as familias
feudaes correm com os seus troos de cavallaria, principes rivaes
juntam-se no odio hereditario contra o estrangeiro, o _homem vermelho_,
e em pouco tempo  todo um rebrilhar de fogos de acampamento nos altos
das serranias, dominando os desfiladeiros que so o caminho, a entrada
da India... E quando por alli apparecer, emfim, o grosso do exercito
inglez,  volta de Cabul, atravancado de artilharia, escoando-se
espessamente, por entre as gargantas das serras, no leito secco das
torrentes, com as suas longas caravanas de camelos, aquella massa
barbara rola-lhe em cima e aniquila-o.

Foi assim em 1847,  assim em 1880. Ento os restos debandados do
exercito refugiam-se n'alguma das cidades da fronteira, que ora 
Ghasnat ora Candahar: os afghans correm, pem o cerco, cerco lento,
cerco de vagares orientaes: o general sitiado, que n'essas guerras
asiaticas pde sempre communicar, telegrapha para o viso-rei da India,
reclamando com furor _reforos, ch e assucar_! (Isto  textual; foi o
general Roberts que soltou ha dias este grito de gulodice britannica; o
inglez, sem ch, bate-se frouxamente.) Ento o governo da India,
gastando milhes de libras, como quem gasta agua, manda a toda a pressa
fardos disformes de ch reparador, brancas collinas de assucar, e dez ou
quinze mil homens. De Inglaterra partem esses negros e monstruosos
transportes de guerra, arcas de No a vapor, levando acampamentos,
rebanhos de cavallos, parques de artilharia, toda uma invaso
temerosa... Foi assim em 1847, assim  em 1880.

Esta hoste desembarca no Industo, junta-se a outras columnas de tropa
india, e  dirigida dia e noite sobre a fronteira em expressos a
quarenta milhas por hora; d'ahi comea uma marcha assoladora, com
cincoenta mil camelos de bagagens, telegraphos, machinas hydraulicas, e
uma cavalgada eloquente de correspondentes de jornaes. Uma manh
avista-se Candahar ou Ghasnat;--e n'um momento,  aniquilado, disperso
no p da planicie, o pobre exercito afghan com as suas cimitarras de
melodrama e as suas veneraveis colubrinas do modelo das que outr'ora
fizeram fogo em Diu. Ghasnat est livre! Candahar est livre!
Hurrah!--Faz-se immediatamente d'isto uma cano patriotica; e a faanha
 por toda a Inglaterra popularisada n'uma estampa, em que se v o
general libertador e o general sitiado apertando-se a mo com
vehemencia, no primeiro plano, entre cavallos empinados e granadeiros
bellos como Apollos, que expiram em attitude nobre! Foi assim em 1847;
ha-de ser assim em 1880.

No emtanto, em desfiladeiro e monte, milhares de homens que, ou
defendiam a patria ou morriam pela _fronteira scientifica_, l ficam,
pasto de corvos--o que, no , no Afghanistan, uma respeitavel imagem de
rhetorica: ahi, so os corvos que nas cidades fazem a limpeza das ruas,
comendo as immundicies, e em campos de batalha purificam o ar, devorando
os restos das derrotas.

E de tanto sangue, tanta agonia, tanto luto, que resta por fim? Uma
cano patriotica, uma estampa idiota nas salas de jantar, mais tarde
uma linha de prosa n'uma pagina de chronica...

Consoladora philosophia das guerras!

No emtanto a Inglaterra goza por algum tempo a grande victoria do
Afghanistan--com a certeza de ter de recomear d'aqui a dez annos ou
quinze annos; porque nem pde conquistar e annexar um vasto reino, que 
grande como a Frana, nem pde consentir, collados  sua ilharga, uns
poucos de milhes de homens fanaticos, batalhadores e hostis. A
politica por tanto,  debilital-os periodicamente, com uma invaso
arruinadora. So as fortes necessidades d'um grande imperio. Antes
possuir apenas um quintalejo, com uma vacca para o leite e dois ps
d'alface para as merendas de Vero...

Outra historia melancholica  a da Irlanda. Quem no conhece as queixas
seculares da Irlanda, da _Verde Erin_, terra de bardos e terra de
santos, onde uma plebe conquistada, resto nobre de raa celtica,
esmagada por um feudalismo agrario, vivendo em buracos como os servos
gothicos, vae desesperadamente disputando  urze,  rocha, ao pantano,
magras tiras de terra, onde cultiva, em lagrimas a batata? Todo o mundo
sabe isto--e, desgraadamente, esta Irlanda de poema e de novella , em
parte, verdadeira: alm dos poucos districtos onde a agricultura  rica
como em qualquer dos uberrimos condados inglezes, alm de Cork ou
Belfast, que tm uma industria forte--a Irlanda permanece o _paiz da
miseria_, bem representada n'essa estampa romantica em que ella est, em
andrajos,  beira de um charco, com o filhinho nos braos morrendo-lhe
da falta de leite, e o co ao lado, to magro como ella, ladrando em vo
por soccorro...

Os males da Irlanda, muito antigos, muito complexos, provm, sobretudo,
do systema semi-feudal da propriedade.

O povo irlandez  numeroso, exageradamente prolifico (nem a emigrao,
nem a morte, nem as epidemias, alliviam esta ilha muito cheia) e vive
n'uma terra pobre, de cultura estreita, apenas no seu tero trabalhada:
os proprietarios, lords inglezes ou escocezes, sempre ausentes das
terras, no admittindo a despeza d'um schelling para as melhorar, esto
em Paris, esto em Londres, comendo pecegos em janeiro, e jogando pelos
clubs o _whist_ a libra o tento: os seus procuradores e agentes,
creaturas vorazes, sem ligao com o solo nem com a raa, forados a
remetter incessantemente dinheiro a SS. SS., interessados em conservar a
procuradoria, cem sobre o rendeiro, levantam-lhe a renda, foram-n'o a
vendas desastrosas, enlaam-n'o na uzura, tributam-n'o feudalmente,
apertam-n'o com desespero como a um limo meio secco, at que elle verta
n'um gemido o ultimo penny. Se o miseravel este anno, fatigando o
torro, sustentando-se de hervas seccas, economisando o lume quando ha
seis palmos de neve, consegue arrancar de si a somma que S. S., o Lord,
reclama para offerecer uma esmeralda  loura Fanny ou  pallida
Clementine, para o anno l est enleado na divida, sem meios de comprar
a semente, com uma terra exhausta a seus ps...

Ento o procurador, de lei em punho, vem, corre, penhora-o, vende-lhe o
catre, expulsa-o do casebre, atira-lhe mulher, creancinhas e avs
entrevados para as pedras do caminho... E ahi vae mais um bando de
desgraados engrossar o lamentavel proletariado que pova a _verde ilha
dos bardos_. So milhares, so milhes! Esta populao, com o ventre
vazio, os ps ns sobre a geada, volta-se ento para a Inglaterra, a me
Inglaterra, que tem a Lei, que tem a Fora, que tem a Responsabilidade:
a Inglaterra, commovida na sua fibra christ, volta-se para os seus
economistas, os seus politicos: estes individuos pousam as suas vastas
frontes nas suas vastas mos, e arrancam das concavidades da sua
sabedoria pharisaica esta resposta, a tenebrosa resposta da meia edade
s reclamaes do soffrimento humano:

--Paciencia! o remedio est no ceu...

A Inglaterra, valendo-se capciosamente do clero catholico da Irlanda, e
da religiosidade da plebe, para a manter na resignao da miseria,
acenando-lhe com as promessas cr de ouro da bemaventurana-- um
salutar espectaculo!

Sejamos, porm, justos: a Inglaterra manda tambem, aos milhes de
esfomeados, farinha e dois ou tres schellings: e o _Punch_ faz-lhes a
honra de lhes dedicar pilherias.

De tudo isto que resulta? Que o irlandez, vendo a fome no seu lar, a
Inglaterra occupada com o dr. Tanner, o _Punch_ muito divertido, e o ceu
muito longe--faz uma trouxa dos seus andrajos, vae  villa mais proxima,
apresenta-se ao comit dos _Fenians_ ou  seco de _Mollie Maguire_ e
diz simplesmente:--_Aqui estou!..._

Estas duas associaes secretas so terriveis e completam-se uma pela
outra. Os _Fenians_, que estiveram um momento desorganizados, mas que
tm hoje a prosperidade de uma instituio publica, so uma seita
politica, com o fim claro de conquistar a independencia da Irlanda: o
seu meio  uma futura insurreio, batalhas  luz do dia, um esforo
heroico de raa que sacode o estrangeiro.

 evidente, portanto, que a Inglaterra no tem nada a temer d'esta
associao: uma esquadra no canal de S. Jorge, dez mil homens
desembarcados, e os _Fenians_ sero, no estylo da cano, _como a herva
dos campos depois que passou o ceifador_, um estendal de cousas sem
vida. Mas no  assim com _Mollie Maguire_; esta constitue puramente uma
conspirao: os seus estatutos, os seus fins, a sua organizao, os seus
chefes, tudo est envolvido n'um mysterio, que  o terror na Irlanda; s
so claros os seus crimes. Ha um proprietario duro que levantou a renda?
Uma noite, ou elle ou o seu procurador apparecem  beira de um caminho,
com duas balas na cabea. Quem foi? Foi _Mollie Maguire_: foi ninguem,
foi a Miseria, foi a Irlanda. Ha um senhorio, um agente, que fez uma
penhora?  meia noite, a sua casa comea a arder, e  n'um momento uma
ruina fumegante. Quem foi? _Mollie Maguire_. Houve um burguez
especulador que comprou o casebre de um proprietario penhorado? No outro
dia l est no fundo de uma laga, com um pedregulho ao pescoo. Quem
foi, coitado? _Mollie Maguire_. Todos os dias, n'estes ultimos mezes,
so assim, dois, tres d'estes crimes--que tm em Inglaterra o nome de
_agrarios_. Os tribunaes, a policia, j se no fatigam em devassas e em
autos: para qu? _Mollie Maguire_  intangivel, _Mollie Maguire_ 
impessoal.

E se houvesse um magistrado to desgostoso da vida que quizesse
descobrir d'onde viera a bala, o pedregulho ou o fogo--teria certamente,
horas depois, o que tanto parecia desejar: um punhal atravez do peito.
So verdadeiramente os processos do Nihilismo militante: nem falta a
esta seita aquella vaga exaltao mystica que complica o Nihilismo. Se
_Mollie_ (Mollie  o diminutivo de Maria) no  uma divindade,  pelo
menos uma degenerao fetichista da divindade:  a tenebrosa padroeira
das desforras da plebe, aquella em quem os desgraados abandonados de
Deus, do Deus official, do Deus da Missa, encontram soccorro, amizade,
fora--uma sorte de encarnao feminina do diabo do Sabbath, confidente
dos servos e dos feiticeiros da meia-noite.

A estas duas associaes deve juntar-se uma terceira, legal essa,
fallando alto nas praas, com jornaes, com taboleta, vivendo sob a
proteco da Constituio, respeitada da policia, e que se chama a _Liga
da Terra_. O seu fim  promover, por meio de _meetings_ e
representaes, uma vasta agitao, um impulsivo movimento da opinio,
que force o parlamento inglez a reformar o systema agrario. Mas 
realmente uma associao legal? So os seus fins to honestamente
moderados, to estreitamente constitucionaes como se diz? Todo o mundo
duvida. Na Irlanda, sempre que dois homens se reunem, conspiram: quando
se sentem quatro, apedrejam logo a policia:--que ser ento quando
reconhecerem que so duzentos mil? Alm d'isso, as reclamaes d'esta
associao so de um vago singular: nada de pratico, nada de realisavel:
apenas os velhos gritos sentimentaes da aspirao humanitaria. E, ao
mesmo tempo, os homens, que a dirigem, so espiritos positivos e
experimentados. Ha aqui uma contradico assustadora. Sente-se que os
chefes d'este movimento, sabendo bem que da Inglaterra nada tm a
esperar, esto simplesmente, sob as apparencias da legalidade,
organisando a insurreio. Formular um programma pratico para o
parlamento votar, seria, na opinio d'elles, ocioso e pueril: as
declamaes verbosas em que se falle muito de _legalidade_, _ordem_,
_parlamentarismo_ bastam--para illudir a policia... E no  duvidoso
que, n'um certo momento, _Fenians_, _Mollie Maguire_ e _Liga da Terra_
formaro um s movimento--o da revolta desesperada.

Este era o estado da Irlanda ha dois mezes, quando se deu o caso
inesperado do _bill de compensao_. Este projecto de lei apresentado
pelo ministro Gladstone (parte por um sentimento liberal de justia,
parte para agradecer os fortes servios dos irlandezes nas ultimas
eleies) no trazia certamente um remate aos males da Irlanda; mas,
coarctando os abusos dos senhores, difficultando a arbitrariedade das
expulses, modificando a legislao barbara das penhoras, alliviava o
trabalhador irlandez do ferreo calcanhar feudal que o esmaga. O _bill_
passou entre os applausos da camara dos communs: mas escuso de
acrescentar que a camara dos lords, essa augusta e gothica assembla de
senhores semi-feudaes, o regeitou com horror, como obra execravel do
liberalismo satanico!

Veem d'ahi o resultado: os agitadores da Irlanda, os seus prophetas, os
seus chefes apossaram-se com enthusiasmo d'esta regeio da camara dos
lords--e utilisaram-n'a to habilmente, como Antonio utilisou a tunica
ensanguentada de Cesar. Foram-n'a mostrando  plebe indignada, por
campos e aldeias, gritando bem alto: Aqui est o que fizeram os lords,
os vossos amos, os vossos exploradores! A primeira proposta justa, em
bem da Irlanda, que se lhes apresenta, repellem-na! Querem manter-vos na
servido, na fome, no opprobrio das velhas edades, no estado da raa
vendida! s armas!

E desde ento a Irlanda prepara-se ardentemente para a insurreio:
apesar dos cruzeiros que vigiam a costa, todos os dias ha desembarques
de armas; o dinheiro, os voluntarios affluem da America; pelos campos
vm-se grupos de duzentos, trezentos homens, de espingardas ao hombro,
fazendo exercicios como regimentos em vesperas de campanha; ainda que
seja agora a epoca das colheitas, a populao no est nos campos, est
nos _meetings_, nos clubs; e os tribunos, os agitadores, prodigalizam-se
sem repouso. No falta, decerto, a estes homens nem coragem, nem aquella
eloquencia pathetica que faz passar nas multides o _arrepio sagrado_.
Um d'elles, Redathd, exclamava ha dias:

--Dizem-nos a cada momento: sde justos, pagae ao lord, pagae ao
senhorio! E citam-nos a palavra divina d'aquelle que disse: _Dae a Cesar
o que  de Cesar!_ Houve s um homem, Brutus, que deu a Cesar o que a
Cesar era devido, um punhal atravez do corao!

Esta brutalidade tem grandeza. Agora imagine-se isto lanado a uma
multido opprimida, com os gestos theatraes d'esta raa violenta, de
noite, n'um d'estes sinistros descampados da Irlanda, que so todos
rocha e urze, ao claro d'archotes, dando aquella intermittencia de
treva e brilho que  como a alma mesma da Irlanda--e veja-se o effeito!

Em Inglaterra, mesmo, os optimistas consideram a insurreio quasi
inevitavel para os frios do outomno. E o honesto John Bull prepara-se:
j o ministro do interior est em Dublin, e  eminente a declarao da
_lei marcial_... N'este ponto, radicaes e conservadores so unanimes: se
a Irlanda se levanta, que se esmague a Irlanda! Smente John Bull
declara que o seu corao ha-de chorar emquanto a sua mo castigar...
Excellente pae!

O jornal o _Standard_, o veneravel _Standard_, tinha ha dias uma phrase
adoravel. Se, como  de temer, a Irlanda vier a esquecer-se do que deve
a si e  Inglaterra--exclamava o solemne _Standard_,-- doloroso
pensar que no proximo inverno, para manter a integridade do imperio, a
santidade da lei e a inviolabilidade da propriedade, ns teremos de ir,
com o corao negro de dr, mas a espada firme na mo, levar  Irlanda,
 ilha irm,  ilha bem amada, uma necessaria exterminao.

_Exterminao_  muito: e quero crr, que est alli, para rematar com
uma nota grave, uma nota d'orgo, a harmonia do periodo. Mas o
sentimento  curioso e raro: e seria um espectaculo maravilhoso vr, no
proximo inverno, John Bull percorrendo a Irlanda, cheio de ferocidade e
afogado em ternura, com os olhos a escorrer de lagrimas e a sua bayoneta
a pingar de sangue...--Ainda as fataes necessidades de um grande
imperio! Volto ao meu desejo: um quintalejo, uma vacca, dois ps
d'alface... E um cachimbo--o cachimbo da paz!




II

cerca de livros


Outubro chegou, e com este mez, em que as folhas cem, comeam aqui a
apparecer os livros, folhas s vezes to ephemeras como as das arvores,
e no tendo como ellas o encanto do verde, do murmurio e da sombra.

Estamos, com effeito, em plena _Book-Season_, a estao dos livros.

Estes dous mezes, setembro e outubro (e elles merecem-no porque como
cr, luz, repouso, so os mais simpathicos do anno) tm accumulado em si
as mais interessantes _seasons_, as _estaes_ mais fecundas da vida
ingleza.

A _London-Season_, a celebre estao de Londres, quando a Aristocracia,
maior e menor, os _dez mil de cima_, como se dizia antigamente, o
_folhado_, como se diz agora, recolhe dos parques e palacios do campo
aos seus palacetes e jardinetes de Londres--passa-se em abril, junho e
julho, verdade seja. Mas essa  uma v e ca estao de trapos, de luvas
de vinte botes, de lacaios, de champagne, de batota e de _cotillon_.
Emquanto que as outras!...

Olhem-me para estas sabias, uteis, viris, solemnes _seasons_, que
abundam n'estes dourados mezes de setembro e outubro. Isto sim! Aqui
temos, por exemplo, a _Congress-Season_, a estao dos congressos.

Que espectaculo! Toda a verde superficie da Inglaterra est ento, de
norte a sul, salpicada de manchas negras. So congressos em deliberao.
Ha-os de metaphysicos e ha-os de cosinheiros.

Aqui, duzentos individuos carrancudos e descontentes elaboram uma nova
ordem social; alm, uma multido de sabios, acocorados, semanas
inteiras, em torno de um objecto escuro, no pdem chegar  concluso se
 um tijolo vilmente recente ou uma laje da camara nupcial da rainha
Ginevra; e adiante cavalheiros anafados e luzidios assentam a doutrina
definitiva da engorda do leito--esse amor!

Os congressos mais notaveis este anno fram--o de medicina em Londres, a
que assistiram _mil e tresentos_ congressistas medicos e cirurgies dos
dois mundos e dos dois sexos, e onde se prometteu  humanidade, para
d'aqui a annos, a suppresso das epidemias pelas vaccinas; o da _British
Association_, a grande Sociedade das Sciencias (congresso annual
celebrado este anno em York) em que o presidente, sir John Lubbock, esse
amavel sabio que tem passado a existencia a estudar as civilizaes
inferiores dos insectos, laboriosas democracias de formigas, deploraveis
oligarchias de abelhas--occupou-se d'esta vez, dando um balano 
sciencia durante os ultimos cincoenta annos, a mostrar algumas das
estupendas habilidades d'esse outro ephemero insecto, o Homem: e emfim o
congresso annual da Egreja, celebrado em Newcastle, composto de bispos,
dignitarios ecclesiasticos, theologos, doutores em divindade, este largo
clero anglicano, o mais douto e litterario da Europa. N'este, entre
outros assumptos discutiu-se a _Influencia da Arte na vida e no pensar
religioso_: mas, quanto a mim, o resultado mais nitido foi o revelar
incidentalmente que a frequentao dos templos, em Inglaterra, diminue
de um tero todos os dez annos, ao passo que o espirito de religiosidade
cresce nas massas, tornando-se assim o sentimento religioso cada dia
mais desprendido das frmas caducas e pereciveis das religies.

N'este momento ha outros congressos--o dos Metallurgistas, o das
Sciencias Sociaes, o dos Telegraphistas, o Archeologico, o dos
Gravadores, o dos... emfim, centenares. At o dos _Browninguistas_. No
sabem o que so os _Browninguistas_? Uma vasta associao, tendo por fim
estudar, commentar, interpretar, venerar, propagar, illustrar, divinisar
as obras do poeta Browning. Isto, mesmo n'este paiz de arrebatados
enthusiasmos intellectuais, me parece um pouco forte. Browning  sem
duvida, com Shelley, Shakspeare e Milton, um dos quatro principes da
poesia ingleza: mas tem o inconveniente de estar vivo. Elle proprio
assiste, materialmente, com o seu paletot e o seu guarda chuva, ao
congresso de que  objecto espiritual e assumpto: e fatalmente, pelo
effeito mesmo da sua presena, a admirao litteraria tende a tornar-se
idolatria pessoal, e os _shake hands_ que elle distribue comeam
naturalmente a ser mais apreciados no congresso que os poemas que elle
escreveu. Por isso mesmo que o divinisam, o amesquinham: no  ento o
grande poeta de Inglaterra,  o idolo particular dos _Browninguistas_,
deixa assim de ser um espirito fallando a espiritos--para ser apenas um
manipanso aterrorizando supersticiosos.

Mas, continuando com as _estaes_, temos ainda a _Yachting-Season_, a
estao nautica, das regatas, das viagens em _yacht_. Hoje em Inglaterra
ter um _yacht_ , como entre ns montar carruagens, o primeiro dever
social do rico ou do enriquecido, uma das frmas mais triviaes do
conforto luxuoso. Um _yacht_ no  s um frgil e airoso barco de
cincoenta toneladas e vela branca; pde ser tambem um negro e poderoso
vapor de duas mil toneladas e sessenta homens de tripulao. N'este
ultimo caso, em logar de bordejar gentilmente em redor das flres e das
relvas da ilha de Wight, ou de ir mergulhar n'essas prodigiosas
paisagens marinhas do alto Norte da Escossia, vae dar a volta ao mundo,
carregado de biblias para os pequenos patagonios e de champagne e d'amor
para as lindas missionarias, vestidas de marinheiras. A vida de _yacht_
tem os seus costumes especiaes, a sua etiqueta, a sua phraseologia, a
sua moral propria, e sobretudo a sua litteratura. A litteratura de
_yacht_  vasta--William Black, o autor das _Azas Brancas_, do _Nascer
do Sol_, da _Princeza de Thude_, o seu romancista official: um
paisagista maravilhoso, de resto, tendo na sua penna todo o vigor do
pincel d'um Jules Breton.

Temos igualmente n'este mez a _Shooting-Season_, a estao da caa ao
tiro, que abre no 1. de setembro com uma solemnidade tal, e no meio de
um interesse publico to intenso, to fremente--que me d sempre ideia
do que devia ter sido nas vesperas da Grande Revoluo a abertura dos
Estados Gerais. Peo perdo d'esta abominavel comparao--mas a carne 
fraca, e eu considero esta estao sublime.  n'ella que se caa o
_grouse_, e  durante ella que se come o _grouse_. No sabem o que  o
_grouse_?  um passaro do tamanho da perdiz, que vive (Deus o abene!)
nos _moors_, ou descampados da Escossia... Agora deixem-me repousar um
momento, e ficar aqui, n'um extasi manso, pensando no _grouse_, com as
mos cruzadas sobre o estomago, o olho enternecido, lambendo o labio...
No imaginem que eu sou um guloso. Mas nunca se deve fallar nas coisas
boas sem venerao. Lord Beaconsfield, esse mestre do bom gosto, deu-nos
o exemplo quando, tendo mencionado n'um dos seus livros o _ortolan_,
esse outro delicioso passaro, acrescentou--que o peitinho gordo do
_ortolan_  mais delicioso que o seio da mulher, o seu aroma mais
perturbador que os lilazes, e o sabor da sua febra melhor que o sabor da
verdade. Pde-se dizer o mesmo do _grouse_.

Continuando, temos a _Burglary-Season_, a estao dos assaltos e roubos
s casas. Esta comea tambem em setembro, quando a gente rica sai de
Londres e deixa os seus palacetes, ou fechados, ou ao cuidado de um
velho e somnolento guarda-porto. Os salteadores de Londres, corpo
social to bem organisado como a propria policia, procede ento
systematicamente, por quadrilhas disciplinadas, usando os mais perfeitos
meios scientificos no arrombamento e no saque d'essas propriedades
abarrotadas de cousas ricas...

Temos a _Lecture-Season_, ou estao das conferencias. O seu nome
explica-a e seria longo detalhar-lhe a organisao. Basta dizer que
n'esta estao no ha talvez um bairro em Londres (quasi podia dizer uma
rua), nem uma aldeia no resto do paiz, em que se no veja, cada noite,
um sujeito, com um copo d'agua, dissertando sobre um assumpto, deante
d'uma audiencia compacta, attenta, interessada e que toma notas. Os
assumptos so _tudo_--desde a ideia de Deus at  melhor maneira de
fabricar graxa. E os conferentes so _todo o mundo_--desde o professor
Huxley at um qualquer cavalheiro, o senhor Fulano de Tal, que sbe 
plataforma a contar as suas impresses de viagem s ilhas Fidji, ou as
aptides curiosas que observou no seu co...

Ha ainda outras estaes que basta enunciar: a _Hunting-Season_, a
estao da caa  raposa (isto  todo um mundo); a _Cricket-Season_, a
estao em que se joga o cricket,--e em que se vm d'estes edificantes
espectaculos: doze cavalheiros, vindos do fundo da Australia, outros
doze partindo dos altos da Escossia, e encontrando-se em Londres a jogar
ao desafio uma tremenda partida que dura tres dias, na presena
arrebatada de um povo em delirio!

Temos tambem a _Angling-Season_, a estao da pesca  linha, instituio
nobilissima a que a humanidade deve o salmo e a truta.  o _sport_
favorito da alta burguezia culta, da magistratura, dos homens de
sapiencia, d'aquela parte da velha aristocracia sobre que mais pesam as
responsabilidades do Estado. Todo este mundo, de solemne
respeitabilidade e de alto ceremonial--pesca  linha. Talvez por isso,
de todos os _sports_ inglezes, a pesca  linha  um dos que tm
produzido uma litteratura mais consideravel--to consideravel que a sua
bibliografia, a simples enumerao dos seus tratados, occupa um livro de
duzentas paginas! Ahi observo com respeito a noticia de um ponderoso
estudo sobre a _Pesca  linha entre os Assyrios_...

S esta semana a litteratura da pesca  linha nos deu j dois livros,
segundo as listas: _A carteira de um pescador  linha_, _Pela beira dos
rios_.

Temos ainda a _Traveling-Season_, a estao das viagens, quando o famoso
_touriste_ inglez faz a sua appario no continente. N'esta epoca
(setembro e outubro) todo o inglez que se respeita (ou que, no podendo
em sua consciencia respeitar-se, pretende ao menos que o seu visinho o
respeite) prepara umas dez ou doze malas e parte para os paizes do sol,
do vinho e da alegria. Os anjos (se o no sonharam, como diz Joo de
Deus) devem assistir ento, do seu terrao azul, a um espectaculo bem
divertido: toda a Inglaterra fervilhando no porto de Dover--e d'ahi
successivamente partirem longos formigueiros de _touriste_, riscando de
linhas escuras o continente, indo alastrar os valles do Rheno,
negrejando pela neve dos Alpes acima, serpenteando pelos vergeis da
Andaluzia, atulhando as cidades da Italia, inundando a Frana! Tudo isto
so inglezes. Tudo isto traz um _Guia do Viajante_ debaixo do brao.
Tudo isto toma notas. Isto s vezes viaja com a esposa, a cunhada, uma
amiga da cunhada, uma conhecida d'esta amiga, sete filhos, seis creados,
dez ces, e outros ces conhecidos d'estes ces; e isto paga por tudo
isto sem resmungar! No: no digo bem, resmungando sempre. Esta viagem
de prazer passa-a quasi sempre o inglez a praguejar (mentalmente--porque
nem a Biblia nem a respeitabilidade lhe permitem praguejar alto).

A verdade  que o inglez no se diverte no continente; no comprehende
as linguas; estranha as comidas; tudo o que  estrangeiro, maneiras,
_toilettes_, modos de pensar, o choca; desconfia que o querem roubar;
tem a vaga crena de que os lenes nas camas d'hotel nunca so limpos;
o vr os theatros abertos ao domingo e a multido divertindo-se amargura
a sua alma christ e puritana; no ousa abrir um livro estrangeiro
porque suspeita que ha dentro cousas obscenas; se o seu _Guia_ lhe
affirma que na cathedral de tal ha seis columnas e se elle encontra s
cinco, fica infeliz toda uma semana e furioso com o paiz que percorre,
como um homem a quem roubaram uma columna; e se perde uma bengala, se
no chega a horas ao comboio, fecha-se no hotel um dia inteiro a compr
uma carta para o _Times_, em que accusa os paises continentaes de se
acharem inteiramente n'um estado selvagem e atolados n'uma putrida
desmoralisao. Emfim o inglez em viagem,  um ser desgraado. 
evidente que eu no alludo aqui  numerosa gente de luxo, de gosto, de
litteratura, de arte: fallo da vasta massa burgueza e commercial. Mas
mesmo esta encontra uma compensao a todos os seus trabalhos de
touriste quando, ao recolher a Inglaterra, conta aos seus amigos como
esteve aqui e alm, e trepou ao Monte Branco, e jantou n'uma
_table-d'-hote_ em Roma e, por Jupiter! fez uma sensao dos diabos,
elle e as meninas!...

Que mais estaes temos ainda? A _Speech-season_, a estao dos
discursos, quando, nas ferias do parlamento, todos os homens publicos se
espalham pelo paiz discursando, perante enormes _meetings_, sobre os
negocios publicos.  uma das feies mais curiosas da vida politica em
Inglaterra...

Ha outras muitas _estaes_ em setembro e outubro, mas no me lembram
agora. E emfim, para no ser injusto, devo mencionar tambem o Outomno.


De todas estas, para mim, naturalmente, a mais interessante  a
_Book-Season_, a estao dos livros.

Isto no quer dizer que fra d'esta estao (outubro a maro) se no
publiquem livros em Inglaterra--longe d'isso, Santo Deus! Como no quer
dizer que fra da _London-Season_ se no dance, ou fra da
_Travelling-Season_ se no viaje. Significa simplesmente que as grandes
casas editoras de Londres e d'Edimburgo reservam, para as lanar n'esta
epocha as suas _grandes novidades_. Um livro de Darwin, um estudo de
Matthew Arnold, um poema de Tennyson, um romance de Georges Meredith
sero evidentemente guardados para a _estao_. De resto, durante todo o
anno no s'interrompe, no cessa essa publicidade phenomenal, essa
vasta, ruidosa, inundante torrente de livros, alastrando-se, fazendo
pouco a pouco sobre a crosta da terra vegetal do globo, uma outra crosta
de papel impresso em inglez.

No sei se  possivel calcular o numero de volumes publicados
annualmente em Inglaterra. No me espantaria que se pudessem contar por
dezenas de milhares. Aqui tenho eu deante de mim, no numero de ontem do
_Spectator_, a lista dos livros lanados esta semana: NOVENTA E TRES
OBRAS! E isto  apenas a lista do _Spectator_. Apenas o que se chama
aqui _Litteratura Geral_. No se contam as reimpresses; nem as edies
dos classicos, em todos os formatos, desde o in-folio, que s um
Hercules pde erguer, at ao volume miniatura, cujo typo reclama
microscopio, e em todos os preos desde a edio que custa 50 libras,
at  que custa 50 ris: no se contam as traduces de livros
estrangeiros, sobretudo as litteraturas da antiguidade: no se conta,
emfim, essa incessante produco das Universidades, essa outra levada de
gregos e latinos, de commentarios, de glossarios, de in-folios, que
lanam de si, aos caixes, as imprensas de Clarendon.

Ha n'esta litteratura geral uma especie de que o inglez no se farta--a
litteratura de viagens. J no fallo nos romances: isso no constitue
hoje uma produco litteraria,  uma fabricao industrial.

Na vida domestica ingleza, a novela tornou-se um objecto de primeira
necessidade como a flanella ou as fazendas de algodo; e, portanto, toda
uma populao de romancistas se emprega em manufacturar este artigo, por
grosso, e to depressa quanto a penna pde escrever, arremessando para o
mercado as paginas mal seccas no ancioso conflicto da concorrencia.

Mas a gula, a gulodice de livros de viagem  tambem consideravel, e de
resto bem explicavel n'uma raa expansiva e peregrinante, com esquadras
em todos os mares, colonias em todos os continentes, feitorias em todas
as praias, missionarios entre todos os barbaros, e no fundo d'alma o
sonho eterno, o sonho amado de refazer o Imperio Romano. Isto produziu
um outro typo de industrial das lettras--o prosador viajante.

Antigamente contava-se a viagem quando casualmente se tinha viajado: o
homem que visitava paizes longinquos, se achava em aventuras
pittorescas,  volta, repousando ao canto do seu lume, tomava a penna e
ia revivendo esses dias n'uma agradavel rememorao de impresses e
paisagens. Hoje no. Hoje emprehende-se a viagem unicamente para se
escrever o livro. Abre-se o mappa, escolhe-se um ponto do Universo bem
selvagem, bem exotico, e parte-se para l com uma resma de papel e um
diccionario. E toda a questo est (como a concorrencia  grande) em
saber qual  o recanto da terra sobre que ainda se no publicou livro!
Ou, quando o paiz  j toleravelmente conhecido, se no ter ainda
alguma aldeola, algum afastado riacho sobre que se possam produzir
trezentas paginas de prosa...

Quem hoje encontrar em algum intrincado ponto do Globo um sujeito de
capacete de cortia, lapis na mo, binoculo a tiracollo, no pense que 
um explorador, um missionario, um sabio colligindo floras raras-- um
prosador inglez preparando o seu volume.

Nada elucida como um exemplo. Aqui est a lista dos livros de viagens
publicados em Londres n'estas _duas ultimas semanas_.

 claro que eu no os li, nem sequer os enxerguei. Copio os titulos,
smente, da lista de dous jornaes de critica: o _Atheneum_ e a
_Academy_. Note-se que estes livros so quasi sempre bem estudados: do
o trao e a linha que pinta, a paysagem com a sua cr e luz, a cidade
com o seu movimento e feies; so graphicos e so criticos; tm a
geographia e tm a observao; e mais ou menos fazem reviver com o
detalhe caracteristico, o povo visitado, na sua vida domestica, a sua
religio, a sua agricultura, o seu _sport_, os seus vicios, a sua arte
se a tem. Calcule-se, pois, a importancia d'esta litteratura, que se
torna assim um inquerito sagaz, paciente, correcto, feito ao Universo
inteiro.

Aqui est, com os titulos traduzidos, o que se publicou n'estes quinze
dias: _A minha jornada a Medina_--_Entre os filhos de Han_--_Nas aguas
salgadas_--_Longe, nos Pampas_--_Sanctuarios de Piemonte_--_O novo
Japo_--_Uma visita  Abyssinia_--_Vida no oeste da India_--_Pelo
Mahakam acima, e pelo Barita abaixo_--_A cavallo pela Asia
Menor_--_Scenas de Ceylo_--_Atravez de cidades e prados_--_No meu
Bungal_--_As terras dos Matabeles_--_Fugindo para o sul_--_Terras do
sol da meia-noite_--_Peregrinaes na Patagonia_--_O Soudan
egypcio_--_Terra dos Maggiyres_--_Atravez da Siberia_--_Notas do mundo
do Oeste_--_Caminhos da Palestina_--_Norsk, Lapp e Finn_ (onde ser isto
Santo Deus?!)--_Guerras, peregrinaes e ondas_ (que titulo, Deus
piedoso!)--_A linda Athenas_--_A peninsula do Mar Branco_--_Homens e
casos da India_--_A bordo do Rapoza_--_Sport na Crima e
Caucaso_--_Nove annos de caadas na Africa_--_Diario de uma preguiosa
na Sicilia_--_A leste do Jordo_...

Ainda ha outros, ainda ha muitos--e em quinze dias!

Seria curioso dar parallelamente a lista de poemas, livros de poesias,
odes, balladas, tragedias, annunciados ou j publicados na primeira
quinzena da estao; mas no tenho paciencia em revolver todo esse
lyrismo. Ha uma grande sensao: o livro de Dante Rosseti, um dos
mestres modernos: o resto  apenas um bando amoroso e triste de rouxines.

No menos espessas, nem menos compactas so as listas dos livros de
Theologia, Controversia, Exegese, etc.,--exhalando de si uma melancholia
de cemiterio. Em metaphysica ha o costumado sortimento--macisso e vago,
como diria Herbert Spencer. Em historia, biographia, critica, as listas
bibliographicas vm riquissimas... Emfim, ao que parece,  uma
formidavel e grandiosa _estao de livros_. Aos romances, nem alludo:
montes, montanhas--e monturos!

Uma pastora meio-selvagem das Ardennes, que nunca vira outro espectaculo
mais grato ao seu corao do que as cabras que guardava, foi um dia
trazida das suas serranias a Pariz, quando no boulevard passava, com a
tricolor ao vento, um regimento em marcha. A pobre donzella fez-se
branca como a cra, e s poude murmurar n'uma beatitude suprema:

--Jesus! tanto homem!

Eu sei que estou aqui fazendo o papel ridiculo d'esta pastora, e
balbuciando, com a bocca aberta, como se chegasse tambem das Ardennes:

--Jesus! tanto livro!

Mas no  este grito, como o da pastora, natural?

O beduino do deserto d'Oeste, que, passando a Serrania Lybica, avista
pela primeira vez, immenso, lento, enchendo um valle, o rio Nilo,
exclama espantado:

--Allah! tanta agua!

A agua  a sua preoccupao: todas as tristezas das areias que habita
vm da falta da agua: mais que ninguem sente as maravilhas que a agua
produz; e no seu grito ha uma timida reprehenso a Allah! Tanta agua
aqui, e to pouca l d'onde eu venho!...

Assim eu venho... Mas o resto da comparao complete-a, antes, o leitor
astuto.




III

O INVERNO EM LONDRES


Eis ahi o inverno. J todos os dias o encontro, e, agora mesmo, lhe ouo
fra, na rua, sob a nevoa tristonha d'esse fim d'outubro, a voz dolente
e vaga: no  o velho semi-deus de attributos mythologicos, com a barba
em flocos de neve sobre o manto branco de neve, soprando nos dedos, e o
classico feixe de lenha a tiracollo:  um rapago enfarruscado, de
casquete e chicote em punho, que vae conduzindo uma carroa negra com um
forte _percheron_ aos varaes, pelo macadam j endurecido da geada, e
soltando de porta em porta, o seu prego melancholico: _Coals! coals!_
(carvo! carvo!)

Esto, pois, findos os dias purpureados do lindo outomno inglez! Nada
iguala o encanto suavizador e meigo dos meados d'outubro nestes condados
do Sul. Um passeio, ao meio da tarde, nas pittorescas margens do Severn,
ou ainda ao longo do Avon, riba que a memoria de Shakspeare torna quasi
sagrada, ou pelas collinas amaveis de Surrey,  o mais belo, o mais util
repouso que pde ter o espirito sobresaltado, canado dos livros, ou do
duro movimento da vida.

Tem-se aqui alguma coisa d'aquella paz etherea, que os poetas pagos
sonhavam nas perspectivas ineffaveis dos Elysios: smente a natureza
particular do Norte, as linhas da architectura saxonia, o arranjo das
culturas, do a feio romantica e elegiaca que falta  paysagem latina.

Caminha-se n'uma luz ligeira, de um dourado triste, de um enternecimento
quasi magoado: o verde das relvas sem fim que se pisam, verde repousado
e adormecido sob as grandes ramagens das arvores seculares e
aristocraticas, solemnes, isoladas, immoveis n'um recolhimento
religioso, leva a alma insensivelmente para alguma cousa de muito alto e
de muito puro: ha um silencio de uma extraordinaria limpidez, como o que
deve haver por sobre as nuvens, um silencio que no existe na paysagem
dos climas quentes, onde o labor incessante das seivas muito forte
parece fazer um vago rumorido, um silencio que pousa no espirito com a
influencia de uma caricia. E a cada momento so fundos encantadores de
paysagem, de um vaporisado azul, com alguma torre d'Abbadia coberta de
heras, que surge d'entre robles, ou uma rica avenida de parques, onde se
entreveem vestidos claros correndo sobre as relvas, ou a historica
architectura de um castello, de bandeira feudal na torre, que de repente
apparece n'uma elevao, com os seus terraos de marmore escuro, os
grandes prados onde pastam ou repousam os animaes de luxo, os faiscantes
meandros do rio entre a verdura e sons tristes de trompa, vindos da
profundidade dos arvoredos...

D'aqui a dias, porm, por collina e valle, s haver a triste nevoa
humida que dura mezes, ou a neve redemoinhando ao vento...

Esta monotonia, que comea escurecendo os campos desde novembro, vae
causar este anno uma innovao excellente nos costumes sociaes da
Inglaterra. Vae haver, de dezembro a maio, uma _estao d'inverno_ em
Londres.

Como sabem, Londres s  habitado desde os comeos de maio at aos
primeiros dias quentes de agosto. O resto do anno, Londres  a cahida
Palmyra ou a tenebrosa planicie do deserto da Petra. Ficam l, 
verdade, entre tres a quatro milhes de humanidade: mas  uma humanidade
subalterna, feita de barro villo, sem valor social em Inglaterra:  a
humanidade que no tem castellos, nem parques de tres legoas, nem o seu
nome no _Livro d'Ouro_, nem _yachts_ de luxo para bordejar nas costas da
Escossia;  a humanidade que no tem nas arterias o famoso _sangue
normando_, esse sangue invejado, mais precioso que o de Christo, cantado
por todos os poetas da crte, e que foi importado pelos brutamontes
cobertos de ferro, e pelludos como fras, que acompanhavam a estas ilhas
Guilherme da Normandia;  emfim a humanidade que Carlos Stuart, o
Bem-amado, chamava a _canalha_, e que o grande sacerdote da _Bella
Helena_, o pobre Offenbac, designava, com tanto criterio, pelo nome de
_vil multido_:-- o trabalhador, o artifice, o artista, o professor, o
philosopho, o operario, o romancista, tudo o que pensa, cria e produz.

 esta fresca ral que fica em Londres: de modo que apenas a humanidade
superior, os _dez mil de cima_, como aqui to pittorescamente se diz,
partem para os seus castellos, as suas _villas_  beira mar, ou os seus
_yachts_.--Londres, apenas habitado pela turba abjecta, torna-se sobre a
face da terra, como a lamentavel Cacilhas. Nenhum _gentleman_ que se
respeite e queira manter o seu bom nome social ousaria confessar que
esteve em Londres em janeiro: correria o risco de ser tomado por um
tendeiro, ou, peior, por um philosopho, um poeta, um d'esses seres
rastejantes, vis como o lixo, sem castello e sem matilha de ces, que
nenhuma _Lady_ quereria ter no seu rol de visitas.

Se um _gentleman_, tendo negcios instantes em Londres,  forado a vir
a este deserto de plebeus, guarda um _incognito_ severo; no chegar
talvez a pr barbas postias; mas s se arrisca pelas ruas no fundo
escuro de um cup com os _stores_ descidos, e o paletot rebuando-lhe a
face. Todavia uma aventura to poderosa poucos a ousam!

Pois bem, tudo isto se vae reformar! E este anno ser moda passeiar em
Piccadilly, ou florear de rosa ao peito em Pall-Mall, em pleno janeiro,
na espessura dos nevoeiros. Esta revoluo consideravel foi, como todas
as fecundas revolues, tramada, prgada, popularisada pelas mulheres.

Havia longos annos que estes anjos soffriam com impaciencia a
melancholia da vida do campo, durante o longo inverno saxonio. Ainda,
nos primeiros tempos, depois de deixar as glorias de Londres e os
esplendores da _season_, a existencia era toleravel. Havia as regatas
elegantes de Cowes; ia-se estar uma semana na ilha de Wight; depois
vinham as festas da abertura da caa; seguia-se a epocha dos _yachts_,
as viagens s costas da Noruega, s Hebbidas, s praias elegantes da
Normandia; depois, quando a crte est na Escossia, vinha a caa do
veado, os bailes de _gellies_ das montanhas... Emfim, vivia-se.

Mas, com a chegada de dezembro, da neve, uma formidavel lei social, a
_fashion_, obrigava os _dez mil de cima_ a recolherem-se aos seus
castellos,  solido do campo. E ahi comeava para as damas o tedio
memoravel!

Quando se no tem um _chateau_ e parque como os de Inglaterra, pde
parecer um sonho de paraizo o viver n'essas faustosas residencias, entre
maravilhas d'arte, accumuladas por geraes, com mobilias de duzentos
contos, um servio de sessenta criados, vinte cavallos na cocheira e um
parque de trez legoas, um parque de romance, para passeiar sobre a neve
dura quando o ceu brilha claro. Mas a desgraada dama, desde o seu
primeiro dente acostumada a tantos explendores, j lhes no encontra
encanto; uma simples corrida, n'um velho fiacre de Londres, de loja em
loja, -lhe cem vezes mais doce.

Depois, a vida do castello  de um vasio pardo e tristonho. Os homens,
esses, de manh, teem a caa, os galopes furiosos, devorando prados,
saltando sebes atraz de uma raposa espavorida, ao grito barbaro de
_hally-h!_ Depois  noite, tomado o banho e vestida a casaca, tem o
grog forte no _fumoir_. Mas as desgraadas damas? Todas bebem grog--mas
raras so as que caam. O dia -lhes lugubre. Uma burgueza, em
Inglaterra, tem sempre uma occupao, mesmo nas existencias ricas:
borda, pinta em porcellana, faz camisas para os pequenos Patagonios,
ensina a ler os filhos dos caseiros, escreve as suas memorias ou
corresponde-se com um Theologo sobre pontos difficeis de doutrina. Mas
um dama das _dez mil_ no faz nada; os seus grandes talentos, a
_toilette_, a graa de receber, a intriga politica, o brilho da
conversao, o _chic_ esthetico, cousas em que prima, no lhe servem no
isolamento relativo do castello, sob as torrentes da chuva. O seu palco
natural  o salo de Londres. Alli no campo, nas longas galerias onde
pendem as bandeiras que os seus antepassados tomaram em Azincourt ou
Poitiers, ou, se os avsinhos nunca invadiram a Frana, as bandeiras
compradas no antiquario da esquina, _Mylady_ boceja; ou estendida n'um
sof, na sua _robe-de-chambre_ de brocado branco de Genova, com uma
novella cahida no regao, olha os flocos de neve empoando os grandes
carvalhos do parque...

Depois vem a noite.  o peior. Os homens que fizeram talvez cinco legoas
de galope atraz das rapozas, ou que se estiveram adestrando em jogos
athleticos, tm somno. De gardenia na casaca e perola negra na camisa,
estendidos para o fundo do sof, derreados, meio adormentados pelo
_Nocturno_ de Chopin que um anjo louro preludia ao fundo da sala, so
to inuteis para a _flirtation_, o espirito, a intriga, o amor, como se
fossem empalhados.

Debalde as pobres damas fizeram uma _toilette_ de duzentas libras:
debalde resplandecem, s mil luzes de cra, os seus hombros de deusas.
De nada valle. O _gentleman_ anceia por deixar a sala, ir reconfortar-se
com o seu _brandy and soda_, estirar aquelles membros que a raposa
canou, em lenes bem perfumados e bem _bassins_, e ressonar forte.

Esta situao era intoleravel.

E os homens mesmo soffriam. Galopar n'um cavallo de preo sobre a terra
dura da neve, ao ladrar da matilha, por uma manh de brisa fria--tem
encanto. Mas pde-se isso comparar  delicia de ir tagarelar para o
_club_, ter todas as noites trez ou quatro bailes, fazer phrases sobre a
questo do Oriente, e ceiar com Miss Fanny, n'um quente _boudoir_ de
veludo, emquanto fra a plebe patinha na lama de Londres?! No, no se
pde comparar.

E por isso veio o momento psychologico, como diz esse illustre homem de
prosa, o snr. De Bismarck, em que _ladies_ e _lords_ concordaram que o
inverno no campo era bom para os lobos; e que para pares de Inglaterra,
Londres era preferivel. E ahi est como se vae ter esta cousa inesperada
na vida ingleza--_o inverno em Londres_.

E, todavia, Deus sabe que elle no  agradavel, esse inverno de Londres!
De manh, ao acordar, tem-se deante da janella uma sombra opaca,
espessa, parda, arripiadora e sinistra:  necessario fazer a barba, com
o gaz flammejando; almoa-se com todas as velas do candelabro accesas, e
a carruagem que nos conduz  precedida de um archote. Ao meio dia esta
decorao de inverno muda; a sombra perde o tom pardo e, por gradaes
odiosas, ganha um amarello de ca e comea a exalar um vapor fetido.
Respira-se mal, a roupa toma um pegajoso humido sobre a pelle, os
edificios que nos cercam apparecem com as linhas vagas e chimericas das
cidades malditas do Apocalypse, e o estrondo de Londres, este rude,
tremendo estrepito, que deve l em cima incommodar a corte do ceu,
adquire uma tonalidade surda e roncante como um fragor n'um subterraneo.

Depois,  noite, outra mudana: toda esta sombra, este nevoeiro grosso,
molle gorduroso, desfaz-se em chuva... Em chuva, digo eu? Em lama, em
lama mal liquida, que escorre, pinga, vem babada de um ceu negro.

O gaz parece cr de sangue; como todo o mundo, para combater esta nevoa
gelante e mortal, bebe forte e bebe seguido, ha nas ruas um vago vapor
de alcool, que passa nos halitos: isto excita, irrita, impelle a turba
ao vicio. O ruido intoleravel das ruas, a pressa da multido violenta, o
rude flammejar das vitrinas do uma accelerao brutal ao sangue, uma
vibrao quasi dolorosa aos nervos; pensa-se com intensidade, caminha-se
com impeto, deseja-se com furor; a besta humana inflamma-se: quer-se
alguma coisa de forte e de animal, a lucta, o excesso, a gula, o
abrasado do _cognac_, a paixo. Londres n'uma noite de inverno, exhala
violencia e crime. E pde-se affirmar que em cada uma das tipoias, que,
aos milhares e aos milhares, passam como flechas, n'um relampejar rubro
de lanternas, vae um cidado ou uma cidad commettendo ou preparando-se
para commetter, com excepo da preguia, um dos sete peccados mortaes.

De uma coisa se pde ter a certeza:  que no ha de faltar, aos que vo
fazer o seu inverno a Londres, _assumpto de cavaco_. Alm dos livros que
se annunciam, dos escandalos que no ho-de faltar, das modas que sempre
se inventam, a politica, s por si,  todo um ramalhete; revolta certa
na Irlanda; processo por alta traio dos chefes da _Liga da Terra_,
deputados da Irlanda; nova guerra no Afghanistan, onde Cabul se
insurreccionou; toda a Africa do Sul em rebellio; complicaes
sinistras do lado do Oriente; desintelligencias estridentes entre os
radicaes no poder... Emfim, um encanto.

Era em circumstancias identicas que o famoso Granville, o homem das
_Memorias_, olhando n'um comeo de primavera para todos os lados do
horizonte politico e social, e no vendo (em 1830) seno presagios
negros de revolta, guerra, crises e perigos para a patria, dizia,
banhado em jubilo, quasi em extasi:

--Meu Deus, que deliciosas noites se vo passar no Club!




IV

O NATAL


O Natal, a grande festa domestica da Inglaterra, foi este anno
triste--d'essa tristeza particular que offerece, por um dia de calma
ardente, a praa deserta de uma villa pobre, ou d'essa melancholia que
infundem umas poucas de cadeiras vazias em torno de um fogo apagado,
n'uma sala a que se no voltar mais...

O que nos estragou o Natal, no fram decerto as preoccupaes
politicas, apesar da sua negrura de borrasca. Nem a rebellio do
Transvaal em que os Boeres debutaram por exterminar o 94 de linha, um
dos mais experimentados e gloriosos regimentos da Inglaterra e que
ameaa ensanguentar toda a Africa do Sul n'uma guerra de raas; nem a
situao da Irlanda, que j no  governada pela Inglaterra, mas pelo
comit revolucionario da _Liga Agraria_--seriam inquietaes
sufficientes para tirar o sabor tradicional ao _plum-pudding_ do Natal.
As desgraas publicas nunca impedem que os cidados jantem com appetite:
e miserias da patria, emquanto no so tangiveis e se no apresentam sob
a frma flammejante de obuzes rebentando n'uma cidade sitiada, no
tiraro jmais o somno ao patriota.

No; o que estragou o Natal foi simplesmente a falta de neve. Um Natal
como este que passamos, com um sol de uma pallidez de convalescente,
deslizando timidamente sobre uma immensa pea de seda azul desbotada, um
Natal sem neve, um Natal sem casacos de pelles, parece to insipido e
to desconsolado como seria em Portugal a noite de S. Joo, noite de
fogueiras e descantes, se houvesse no cho tres palmos de neve e cahisse
por cima o granizo at de madrugada! Um desapontamento nacional!

Para comprehender bem o encanto da neve d'este famoso Natal inglez,
basta examinar alguma das pinturas, gravuras ou oleografias que o tm
popularizado.

O assumpto no varia na paysagem repetida:  sempre a mesma entrada d'um
parque, de apparencia feudal, por vesperas do Natal, antes da
meia-noite; o ceu pesado de neve suspensa parece uma gaze suja: e a
perder de vista tudo est coberto da neve cahida, uma neve branca, ffa,
alta, que faz nos campos um grande silencio. Junto  grade do parque,
uma mulher e duas creanas, atabafadas nos seus farrapos, com lampees
na mo, vo cantando as las; e ao fundo, entre as ramagens despidas,
ergue-se o massio castello, com as janellas flammejando, abrasadas da
grande luz de dentro e da alegria que as habita.

E toda a poesia do Natal est justamente n'essas janellas resplandecendo
na noite nevada.

Felizes aquelles para quem essas portas difficeis se abrem. Logo ao
entrar na ante-camara os tectos, as humbreiras, os espaldares das
cadeiras, os tropheus de caa, apparecem adornados das verduras do
Natal, das ramagens sagradas do carvalho celtico; e pelas paredes, em
lettras douradas ondeiam os disticos tradicionaes--_Merry Christmas!
Merry Christmas! alegre Natal! alegre Natal!_ E o mesmo grito se repete
nos _shakehands_ que se do ao hospede.

Sob a chamin estala e dana a grande fogueira do Natal: a sua luz rica
faz parecer de ouro os cabellos louros, e de prata as barbas brancas.

Tudo est enfeitado como n'uma paschoa sagrada: dos retratos dos avs
pendem ramos de flres de inverno, as flres da neve, e todas as pratas
da casa scintillam sobre os aparadores, n'uma solemnidade patriarchal.
Dos grandes lustres balana-se o ramo symbolico do _mistletoe_, o ramo
do amor domestico: e ai das senhoras que um momento pararem sob a sua
ramagem! Quem assim as surprehender tem direito a beija-las n'um grande
abrao! Tambem, que voltas sabias, que estrategia complicada, para
evitar o ramo fatidico! Mas, pobres anjos! ou se enganam ou se assustam,
e a cada momento  sob o _mistletoe_ um grito, um beijo, dois braos que
prendem uma cinta fugitiva...

E o piano no se cala n'estas noites!  alguma velha cano ingleza, em
que se falla de torneios e cavalleiros, ou uma dana da Escossia, que se
baila com o gentil ceremonial do passado.

E por corredores e salas, as creanas, os bbs, com os cabellos ao
vento, vestidos de branco e cr de rosa, correm, cantam, riem, vo a
cada momento espreitar os ponteiros do relogio monumental, porque 
meia-noite chega Santo Claus, o veneravel Santo Claus, que tem trez mil
annos de edade e um corao de pomba, e que j a essa hora vem
caminhando pela neve da estrada, rindo com os seus velhos botes,
apoiado ao seu cajado, e com os alforges cheios de bonecos. Amavel Santo
Claus! por um tempo to frio, n'aquella edade, deixar a cabana de
algodo que elle habita no paiz da Legenda, e vir por sobre ondas do mar
e ramagens de florestas trazer a estes bbs o seu Natal!

Tambem, como elles o adoram, o bom Claus! E apenas elle chegar, como
correro todos, em triumpho, a puxal-o para o p do lume, a esfregar-lhe
as decrepitas mos regeladas, a offerecer-lhe uma taa de prata cheia de
hidromel quente--que elle bebe d'um trago, o gluto! Depois abrem-se-lhe
os alforges. Quantas maravilhas!...

Mas d'estes personagens que apparecem pelas consoadas, o meu predilecto
 _Father Christmas--o pap Natal_.

Esse, porm, s pde ser admirado em toda a sua gloria, quando se abre a
sala da ceia: ento l est sobre o seu pedestal, ao centro da meza--que
lhe pe em torno, com os crystaes e os pratos, um amavel brilho
d'aureola caseira. Bem vindo, pap Natal! Boas noites, pap Natal!

O respeitavel ancio, com o seu capuz at aos olhos, todo salpicado de
neve, as mos escondidas nas largas mangas de frade, o olho magano e
jovial, esgara a bocca n'um riso de felicidade sem fim, e as suas
enormes barbas de algodo pendem-lhe at aos ps. Todas as creanas o
querem abraar, e elle no se recusa, porque  indulgente.

E quanto mais a ceia se anima, mais o seu patriarchal riso se escancara;
as bochechas reluzem-lhe de escarlates, as barbas parecem crescer-lhe, e
alli est, bonacheiro e veneravel, com a importancia de um deus tutelar
e amado, como a encarnao sacramental da alegria domestica.

E no emtanto fra, na neve, as pobres creanas cantam as las: e com que
vigor as cantam!  que ellas sabem que no sero esquecidas: e que
d'aqui a pouco a grade se abrir, e vir um criado, vergando ao peso de
toda a sorte de cousas bas, peas de carne, empadas, vinho, queijos--e
mesmo bonecas para os pequenos; porque Santo Claus  um democrata, e, se
enche os seus alforges para os ricos, gosta sobretudo de os vr
esvaziados no regao dos pobres.

Tudo isto  encantador. Mas tire-se-lhe a neve, e fica estragado. O
Natal com uma lua cr de manteiga a bater n'uma terra tepida de
Primavera torna-se apenas uma data no calendario. O lume no tem poesia
intima; no ha las; Santo Claus no vem; o pap Natal parece um boneco
insipido; no se colhe o _mistletoe_. No ha mesmo a alegria de abrir a
janella e pr no rebordo, dentro d'uma malga, a ceia de migalhas do
Natal para os pardaes e para os outros passarinhos que tanta fome
soffrem pelas neves. Emfim, no ha Natal! Foi o que succedeu este anno...

Resta a consolao de que os pobres tiveram menos frio. E isto  o
essencial; pensando bem, se nas cabanas houve mais algum conforto e se
se no tiritou toda a noite entre quatro farrapos,  perfeitamente
indifferente que nos castellos as damas bocejassem.

Nem eu sei realmente como a ceia faustosa possa saber bem, como o lume
do salo chegue a aquecer--quando se considere que l fra ha quem
regele, e quem rilhe, a um canto triste, uma codea de dois dias. 
justamente n'estas horas de festa intima, quando pra por um momento o
furioso galope do nosso egoismo--que a alma se abre a sentimentos
melhores de fraternidade e de sympathia universal, e que a consciencia
da miseria em que se debatem tantos milhares de creaturas, volta com uma
amargura maior. Basta ento vr uma pobre creana, pasmada deante da
_vitrine_ de uma loja, e com os olhos em lagrimas para uma boneca de
pataco, que ella nunca poder apertar nos seus miseraveis braos--para
que se chegue  facil concluso que isto  um mundo abominavel. D'este
sentimento nascem algumas caridades de Natal; mas, findas as consoadas,
o egoismo parte  desfilada, ninguem torna a pensar mais nos pobres, a
no ser alguns revolucionarios endurecidos, dignos do carcere--e a
miseria contina a gemer ao seu canto!

Os philosophos affirmam que isto ha-de ser sempre assim: o mais nobre de
entre elles, Jesus, cujo nascimento estamos exactamente celebrando,
ameaou-n'os, n'uma palavra immortal, _que teriamos sempre pobres entre
ns_. Tem-se procurado com revolues successivas fazer falhar esta
sinistra profecia--mas as revolues passam e os pobres ficam.

N'este momento, por exemplo, na Irlanda, os trabalhadores, ou antes os
servos do ducado de Leicester esto morrendo de fome, e o duque de
Leicester est retirando annualmente, do trabalho duro que elles fazem,
_quatrocentos contos de reis de renda_!  verdade que a Irlanda est em
revolta;  verdade que, se o duque de Leicester se arriscava a visitar o
seu ducado da Irlanda, receberia, sem tardar, quatro lindas balas no
craneo.

E o resultado? D'aqui a vinte annos os trabalhadores de Leicester
estaro de novo a soffrer a fome e o frio--e o filho do duque de
Leicester, duque elle mesmo ento, voltar a arrecadar os seus
quatrocentos contos por anno.

No  possivel mudar. O esforo humano consegue, quando muito, converter
um proletariado faminto n'uma burguezia farta; mas surge logo das
entranhas da sociedade um proletariado peior. Jesus tinha razo: haver
sempre pobres entre ns. D'onde se prova que esta humanidade  o maior
erro que jmais Deus cometeu.

Aqui estamos sobre este globo ha doze mil annos a girar fastidiosamente
em torno do Sol e sem adiantar um metro na famosa _estrada do progresso
e da perfectibilidade_: porque s algum ingenuo de provincia  que ainda
considera _progresso_ a inveno ociosa d'esses bonecos pueris que se
chamam machinas, engenhos, locomotivas, etc., e essas prosas laboriosas
e difusas que se denominam _systemas sociaes_.

Nos dois ou trez primeiros mil annos de existencia trepmos a uma certa
altura de civilizao; mas depois temos vindo rolando para baixo n'uma
cambalhota secular.

O typo secular e domestico de uma aldeia Arya do Himalaia, tal como uma
vetusta tradio o tem trazido at nos,  infinitamente mais perfeito
que o nosso organismo domestico e social. J no fallo de gregos e
romanos: ninguem hoje tem bastante genio para compr um cro d'schylo
ou uma pagina de Virgilio; como escultura e architectura, somos
grotescos; nenhum millionario  capaz de jantar como Lucullus;
agitavam-se em Athenas ou Roma mais ideias superiores n'um s dia do que
ns inventamos n'um seculo; os nossos exercitos fazem rir, comparados s
legies de Germanicus; no ha nada equiparavel  administrao romana; o
_boulevard_  uma viella suja ao lado da Via ppia; nem uma Aspasia
temos; nunca ninguem tornou a fallar como Demosthenes--e o servo, o
escravo, essa miseria da Antiguidade, no era mais desgraado que o
proletario moderno.

De facto, pde-se dizer que o homem nem sequer  superior ao seu
veneravel pae--o macaco: excepto em duas coisas temerosas--o soffrimento
moral e o soffrimento social.

Deus tem s uma medida a tomar com esta humanidade inutil: afogal-a n'um
diluvio. Mas afogal-a toda, sem repetir a fatal indulgencia que o levou
a poupar No; se no fsse o egoismo senil d'esse patriarcha borracho,
que queria continuar a viver, para continuar a beber, ns hoje
gosariamos a felicidade ineffavel de _no sermos_...




V

Litteratura de Natal


Uma das cousas encantadoras que nos traz o Natal, so esses lindos
livros para creanas, que constituem a _litteratura de Natal_.

No falo desses extraordinarios volumes dourados publicados pelos
editores francezes, em encadernaes decorativas como fachadas de
cathedraes, que custam uma fortuna; contm um texto que nunca ninguem l
e so offerecidos s creanas, mas realmente servem para obsequiar os
paps. Os pobres pequenos nada gosam com esses monumentos typographicos;
apenas se lhes permite vr de longe as gravuras a ao, sob a
fiscalizao da mam, que tem medo que se deteriore a encadernao; e o
resplandecente volume orna d'ahi por deante a jardineira da sala, ao
lado do candieiro vistoso.

Em Inglaterra existe uma verdadeira litteratura para creanas, que tem
os seus classicos e os seus inovadores, um movimento e um mercado,
editores e genios--em nada inferior  nossa litteratura de homens
sisudos. Aqui, apenas o bb comea a soletrar, possue logo os seus
livros especiaes: so obras adoraveis, que no contm mais de dez ou
doze paginas, intercaladas de estampas, impressas em typo enorme, e de
um raro gosto de edio. Ordinariamente o assumpto  uma historia, em
seis ou sete phrases, e decerto menos complicada e dramatica que _O
Conde de Monte-Christo_ ou _Nana_; mas emfim tem os seus personagens, o
seu enredo, a sua moral e a sua catastrophe.

Tal , para dar um exemplo, a lamentavel tragedia dos _Tres velhos
sabios de Chester_: eram muitos velhos e muito sabios; e para discutirem
cousas da sua sabedoria, metteram-se dentro de uma barrica, mas um
pastor que vinha a correr atrz de uma ovelha, deu um encontro ao
tonel, e ficaram de pernas ao ar os tres velhos sabios de Chester!

Como estas ha milhares: a _Cavallgada de Joo Gilpin_  uma obra de genio.

Depois, quando o bb chega aos seus oito ou nove annos,
proporciona-se-lhe outra litteratura. Os sabios, a barrica, os
trambulhes, j o no interessariam; vm ento as historias de viagens,
de caadas, de naufragios, de destinos fortes, a salutar chronica do
triumpho, do esforo humano sobre a resistencia da natureza.

Tudo isto  contado n'uma linguagem simples, pura, clara--e provando
sempre que na vida o exito pertence queles que tm energia, disciplina,
sangue-frio e bondade. Raras vezes se leva o espirito da creana para o
paiz do maravilhoso:--no ha n'estas litteraturas nem fantasmas, nem
milagres, nem cavernas com drages de escamas de ouro: isso reserva-se
para a gente grande. E quando se falla de anjos ou de fadas  de modo
que a creana, naturalmente, venha a rir-se d'esse lindo sobrenatural, e
a consideral-o do genero _boneco_, como os seus proprios carneirinhos de
algodo.

O que se faz s vezes  animar de uma vida ficticia os companheiros
inanimados da infancia: as bonecas, os polichinellos, os soldados de
chumbo. Conta-se-lhes, por exemplo, a tormentosa existencia d'uma boneca
honesta e infeliz: ou os soffrimentos por que passou em campanha, n'uma
guerra longinqua, uma caixa de soldados de chumbo. Esta litteratura 
profunda. As privaes de soldados vivos no impressionariam talvez a
creana--mas todo o seu corao se confrange quando l que padecimentos
e miserias atravessaram aquelles seus amigos, os guerreiros de chumbo,
cujas bayonetas torcidas ella todos os dias endireita com os dedos: e
assim pde ficar depositado n'um espirito de creana um justo horror da
guerra.

As lies moraes que se do d'este modo so innumeraveis, e tanto mais
fecundas quanto sahem da aco e da existencia dos sres que ella melhor
conhece--os seus bonecos.

Depois vm ainda outros livros para os leitores de doze a quinze annos:
popularisaes de sciencias; descripes dramaticas do universo; estudos
captivantes do mundo das plantas, do mar, das aves; viagens e
descobertas; a historia; e, emfim, em livros de imaginao, a vida
social apresentada de modo que nem uma realidade muito cra ponha no
espirito tenro securas de misanthropia, nem uma falsa idealisao
produza uma sentimentalidade morbida.

 no Natal, principalmente, que esta litteratura floresce. As lojas dos
livreiros so ento um paraizo. No ha nada mais pittoresco, mais
original, mais decorativo, que as encadernaes inglezas; e as estampas,
as cres leves e aguadas, offerecem quasi sempre verdadeiras obras
d'arte, de graa e d'_humour_.

No sei se no Brazil existe isto. Em Portugal, nem em tal jmais se
ouviu fallar. Apparece uma ou outra d'essas edies de luxo, de Pariz,
de que fallei, e que constituem ornatos de sala. A Frana possue tambem
uma litteratura infantil to rica e util como a de Inglaterra: mas essa
Portugal no a importa: livros para completar a mobilia, sim; para
educar o espirito, no.

A Belgica, a Hollanda, a Allemanha, prodigalisam estes livros para
creanas; na Dinamarca, na Suecia, elles so uma gloria da litteratura e
uma das riquezas do mercado.

Em Portugal, nada.

Eu s vezes pergunto a mim mesmo o que  que em Portugal lem as pobres
creanas. Creio que se lhes d Filinto Elysio, Garo, ou outro qualquer
desses mazorros sensabores, quando os infelizes mostram inclinao pela
leitura.

Isto  tanto mais atroz quanto a creana portuguesa  excessivamente
viva, intelligente e imaginativa. Em geral, ns outros, os portuguezes,
s comeamos a ser idiotas--quando chegamos  edade da razo. Em
pequenos, temos todos uma pontinha de genio: e estou certo que se
existisse uma litteratura infantil como a da Suecia ou da Hollanda, para
citar s paises to pequenos como o nosso, erguer-se-hia
consideravelmente entre ns o nivel intellectual.

Em logar d'isso, apenas a luz do entendimento se abre aos nossos filhos,
sepultamol-a sob grossas camadas de latim! Depois do latim accumulamos a
rhetorica! Depois da rhetorica atulhamol-a de logica (de logica, Deus
piedoso!). E assim vamos erguendo at aos cus o monumento da camelice!

Pois bem; eu tenho a certeza que uma tal litteratura infantil penetraria
facilmente nos nossos costumes domesticos e teria uma venda proveitosa.
Muitas senhoras, intelligentes e pobres, se poderiam empregar em
escrever essas faceis historias: no  necessario o genio de Zola ou de
Thackeray para inventar o caso dos _tres velhos sabios de Chester_. Ha
entre ns artistas, de lapis facil e engraado, que commentariam bem
essas aventuras n'um desenho de simples contorno, sem sombras e sem
relevo, lavado a cres transparentes... E quantos milhares de creanas
se fariam felizes, com esses bonitos livros--que, para serem populares e
se poderem despedaar sem prejuizo, devem custar menos de um tosto!

Eu bem sei que esta ideia de compr livros para creanas faria rir
Lisboa inteira. Tambem, no  a Lisboa que eu a offereo. Lisboa no se
occupa d'estes detalhes.

Lisboa quer cousa superior; quer a bella estrophe lyrica, o rico drama
em que se morre de paixo ao luar, o _fadinho_ ao piano, o saboroso
namoro de escada, a endeixa plangente, a ba facadinha  meia noite, o
discurso em que se cita o Golgotha, a andaluza de cuia--emfim, tudo o
que o romantismo portuguez inventou de mais nobre. Educar os seus filhos
intelligentemente, est decerto abaixo da sua dignidade.

Mas, emfim, se estas linhas animassem ahi no Brazil, ou entre a colonia
portugueza, um escriptor, um desenhista e um editor, a prepararem alguns
bons livros, bem engraados, bem alegres, para os bbs--eu teria feito
ao imperio um servio colossal, que no sei como me poderia ser
recompensado.

Uma ba fazenda, de rendimento certo, n'uma provincia rica, com casa j
mobilada e alguns cavallos na cavallaria, no seria talvez de mais. Se
a gratido do governo imperial quizesse juntar a isto, para alfinetes,
um ou dois milhes em ouro, eu no os recusaria. E se me no quizessem
dar nada, bastar-me-hia ento que um s bb se risse e fsse alguns
minutos feliz. Pensando bem-- esta a recompensa que prefiro.




VI

Israelismo


As duas grandes sensaes do mez so incontestavelmente a publicao
do novo romance de Lord Beaconsfield, _Endymion_, e a agitao na
Allemanha contra os Judeus. Litterariamente, pois, e socialmente o mez
pertence aos israelitas. Este extraordinario movimento anti-judaico,
esta inacreditavel ressurreio das coleras piedosas do seculo XVI 
vigiada com tanto mais interesse em Inglaterra quanto aqui, como na
Allemanha, os judeus abundam, influindo na opinio pelos jornaes que
possuem (entre outros o _Daily Telegraph_, um dos mais importantes do
reino), dominando o commercio pelas suas casas bancarias e em certos
momentos mesmo governando o Estado pelo grande homem da sua raa, o seu
propheta maior, o proprio Lord Beaconsfield. Aqui, decerto, estamos
longe de vr desencadear um odio nacional, uma perseguio social contra
os judeus; mas ha sufficientes symptomas de que o desenvolvimento firme
d'este Estado israelita dentro do Estado christo comea a impacientar o
inglez. No vejo, por exemplo, que o que se est passando na Allemanha,
apesar de exhalar um odioso cheiro d'auto-de-f, provoque uma grande
indignao da imprensa liberal de Londres: e j mesmo um jornal da
auctoridade do _Spectator_ se v forado a attenuar, perante os graves
protestos da colonia israelita, artigos em que descrevera os judeus como
uma corporao isolada e egoista,  semelhana das communidades
catholicas, trabalhando s no mesmo interesse, encerrando-se na fora da
sua tradio e conservando sympathias e tendencias manifestamente hostis
s do estado que os tolera. Tudo isto  j desagradavel.

Mas que diremos do movimento na Allemanha? Que em 1880, na sabia e
tolerante Allemanha, depois de Hegel, de Kant e de Schopenhauer, com os
professores Strauss e Hartmann, vivos e trabalhando, se recomece uma
campanha contra o judeu, o matador de Jesus, como se o imperador
Maximiliano estivesse ainda, do seu acampamento de Padua, decretando a
destruio da lei Rabbinica e ainda prgasse em Colonia o furioso
_Gro-de-Pimenta_, geral dos dominicanos-- facto para ficar de bocca
aberta todo um longo dia de Vero. Porque emfim, sob frmas civilizadas
e constitucionaes (peties, _meetings_, artigos de revista, pamphletos,
interpellaes)  realmente a uma perseguio de judeus que vamos
assistir, das boas, das antigas, das Manuelinas, quando se deitavam 
mesma fogueira os livros do Rabbino e o proprio Rabbino, exterminando
assim economicamente, com o mesmo feixe de lenha, a doutrina e o doutor.

E  curioso e edificante espectaculo vr o veneravel professor Virchow,
erguendo-se no parlamento allemo, a defender os judeus, a sabedoria dos
livros hebraicos, as synagogas, asylo do pensamento durante os tempos
barbaros--exactamente como o illustre legista Roenchlin os defendia nas
perseguies que fecharam o seculo XV!

Mas o mais extraordinario ainda  a attitude do Governo allemo:
interpellado, forado a dar a opinio official, a opinio d'estado sobre
este rancr obsoleto e repentino da Allemanha contra o judeu, o governo
declara apenas, com labio escasso e secco, _que no tenciona por ora
alterar a legislao relativamente aos israelitas_! No faltaria com
effeito mais que vr os ministros do imperio, philosophos e professores,
decretando,  D. Manuel, a expulso dos judeus, ou restringindo-lhes a
liberdade civil at os isolar em viellas escuras, fechadas por correntes
de ferro, como nas judiarias do _Ghuetto_. Mas uma tal declarao no 
menos ameaadora. O estado d a entender apenas que a perseguio no
ha-de partir da sua iniciativa: no tem, porm, uma palavra para
condemnar este estranho movimento anti-semitico, que em muitos pontos 
presentemente organisado pelas suas proprias auctoridades.

Deixa a colonia judaica em presena da irritao da grossa populao
germanica--e lava simplesmente as suas mos ministeriaes na bacia de
Poncio Pilatos.

No affirma sequer que ha-de fazer respeitar as leis que protegem o
judeu, cidado do imperio; tem apenas a vaga teno, vaga como a nuvem
da manh, de as no alterar _por ora_!

O resultado d'isto  que n'uma nao em que a sociedade conservadora
frma como um largo batalho, pensando o que lhe manda a ordem do dia
e marchando em disciplina,  voz do coronel,--cada bom allemo, cada
patriota, vae immediatamente concluir d'esta linguagem ambigua do
governo que, se a crte, o estado-maior, os feld-marechaes, o senhor de
Bismarck, todo esse mundo venerado e obedecido no vem o odio ao judeu
com enthusiasmo, no deixam, todavia, de o approvar em seus coraes
christos... E o novo movimento vae certamente receber, d'aqui, um
impulso inesperado.

Que digo eu? J recebeu. Apenas se soube a resposta do ministerio, um
bando de mancebos, em Leipzig, que se poderiam tomar por frades
dominicanos mas que eram apenas philosophos estudantes, andaram
expulsando os judeus das cervejarias, arrancando-lhes assim o direito
individual mais caro e mais sagrado ao allemo: o direito  cerveja!

Mas d'onde provem este odio ao judeu? A Allemanha no quer, de certo,
comear de novo a vingar o sangue precioso de Jesus. Ha j tanto tempo
que essas cousas dolorosas se passaram!... A humanidade christ est
velha e, portanto, indulgente: em desoito seculos esquece a affronta
mais funda. E infelizmente hoje j ninguem, ao lr os episodios da
Paixo, arranca furiosamente da espada, como Clovis, gritando, com a
face em pranto:

--Ah, infames! No estar eu l com os meus Francos!

Alm d'isso, este movimento  organizado pela burguezia, e as classes
conservadoras da Allemanha so muito juridicas, para no approvarem, no
segredo do seu pensamento, o supplicio de Jesus. Dada uma sociedade
antiga e prospera, com a sua religio official, a sua moral official, a
sua litteratura official, o seu sacerdocio, o seu regimen de
propriedade, a sua aristocracia e o seu commercio--que se ha-de fazer a
um inspirado, a um revolucionario, que apparece seguido d'uma plbe
tumultuosa, prgando a destruio d'essas instituies consagradas 
fundao de uma nova ordem social sobre a ruina d'elas e, segundo a
expresso legal, _excitando o odio dos cidados contra o Governo_?
Evidentemente puni-lo.

Pede-o a lei, a ordem, a razo de Estado, a salvao publica e os
interesses conservadores.  justamente o que a Allemanha, com muita
razo, faz aos seus socialistas, a Karl Marx e a Bebel. Ora, estes maus
homens no querem fazer na Allemanha contemporanea uma revoluo, de
certo, mais radical que a que Jesus emprehendeu no mundo semitico. 
verdade que o Nazareno era um Deus: para ns, certamente, humanidade
privilegiada, que o soubemos amar e comprehender:--mas em Jerusalem,
para o doutor do templo, para o escriba da lei, para o mercador do
bairro de David, para o proprietario das cearas que ondulavam at
Bethlem, para o centurio severo encarregado da ordem--Jesus era apenas
um insurrecto.

E se Bismarck estivesse de toga, no pretorio, sobre a cadeira curul de
Caiphs, teria assignado a sentena fatal to serenamente como o dito
Caiphs, certo que n'esse momento salvava a sua patria da anarchia. Os
conservadores de Jerusalem foram logicos e legaes, como so hoje os de
Berlim, de S. Petersburgo ou de Vienna: no mundo antigo, como agora,
havia os mesmos interesses santos a guardar. Que diabo!  indispensavel
que a sociedade se conserve nas suas largas bases tradicionaes: e
outr'ora, como hoje, a salvao da ordem  a justificao dos supplicios.

 possivel que este goso, que ns, conservadores, temos hoje, de
triturar os Messias socialistas, encarcerar os Proudhon, mandar para a
Siberia os Bakounine, e crivar de multas os Felix Pyat--venha a custar
caro a nosso netos. Com o andar dos tempos, todo o grande reformador
social se transforma pouco a pouco em Deus: Zoroastro, Confucio,
Mahomet, Jesus, so exemplos recentes! As frmas superiores do
pensamento tm uma tendencia fatal a tornar-se na futura lei revelada: e
toda a philosophia termina, nos seus velhos dias, por ser religio.
Augusto Comte j tem altares em Londres; j se lhe reza. E assim como
hoje exigimos capellas aos Santos Padres, aos que foram os auctores
divinos, os nobres criadores do catholicismo, talvez um dia, quando o
socialismo fr religio do Estado, se vejam em nichos de templo, com uma
lamparina na frente, as imagens dos Santos Padres da revoluo: Proudhon
de oculos, Bakounine parecendo um urso sob as suas pelles russas, Karl
Marx apoiado ao cajado symbolico do pastor d'almas.

Como a civilizao caminha para o oeste, isto passar-se-ha ai para o
seculo XXVIII, na Nova Zelandia ou na Australia, quando ns, por nosso
turno, frmos as velhas raas do Oriente, as nossas linguas idiomas
mortos, e Pariz e Londres montes de columnas truncadas como hoje
Palmyra e Babylonia, que o zelandez e o australiano viro visitar, em
balo, com bilhete de ida e volta... Logicamente, ento, como so
detestados hoje na Allemanha os herdeiros dos que mataram Jesus--s
haver repulso e odio pelos descendentes de ns outros, que estamos
encarcerando Bakounine ou multando Pyat. E como toda a religio tem um
periodo de furor e exterminio, esses nossos pobres netos sero
perseguidos, passaro ao estado de raa maldita e morrero nos
supplicios... _C'est raide!_


Mas voltemos  Allemanha.

Ainda que o Pedro Ermita d'esta nova crusada constitucional seja um
sacerdote, o Revd. Streker, capello e prgador da crte,  evidente que
ella no tira a sua fora da paixo religiosa. As cinco chagas de Jesus
nada tm que vr com estas peties que por toda a parte se assignam,
pedindo ao governo que no permitta aos judeus adquirirem propriedades,
que no sejam admittidos aos cargos publicos, e outras extravagancias
gothicas! O motivo do furor anti-semitico  simplesmente a crescente
prosperidade da colonia judaica, colonia relativamente pequena, apenas
composta de 400.000 judeus; mas que pela sua actividade, a sua
pertinacia, a sua disciplina, est fazendo uma concorrencia triumphante
 burguezia allem.

A alta finana e o pequeno commercio esto-lhe igualmente nas mos:  o
judeu que empresta aos Estados e aos principes, e  a elle que o pequeno
proprietario hypoteca as terras. Nas profisses liberais absorve tudo: 
elle o advogado com mais causas e o medico com mais clientella: se na
mesma rua ha dois tendeiros, um allemo e outro judeu--o filho da
Germania ao fim do anno est fallido, o filho d'Israel tem carruagem!
Isto tornou-se mais frizante depois da guerra: e o bom allemo no pde
tolerar este espectaculo do judeu engordando, enriquecendo, reluzindo,
emquanto elle, carregado de louros, tem de emigrar para a America 
busca de po.

Mas se a riqueza do judeu o irrita, a ostentao que o judeu faz da sua
riqueza enlouquece-o de furor. E, n'este ponto, devo dizer que o allemo
tem razo. A antiga legenda do israelita, magro, esguio, adunco,
caminhando cosido com a parede, e coando por entre as palpebras um olhar
turvo e desconfiado--pertence ao passado. O judeu hoje  um gordo. Traz
a cabea alta, tem a pana ostentosa e enche a rua.  necessario vl-os
em Londres, em Berlim, ou em Vienna: nas menores cousas, entrando em um
caf ou occupando uma cadeira no theatro, tm um ar arrogante e ricao,
que escandalisa. A sua pompa espectaculosa de Salomes _parvens_
offende o nosso gosto contemporaneo, que  sobrio. Fallam sempre alto,
como em paiz vencido, e em um restaurante de Londres ou de Berlim nada
ha mais intoleravel que a gralhada semitica. Cobrem-se de joias, todos
os arreios das carruagens so de oiro, e amam o luxo grosseiro e
vistoso. Tudo isto irrita.

Mas o peior ainda, na Allemanha,  o habil plano com que fortificam a
sua prosperidade e garantem a sua influencia--plano to habil que tem um
sabor de conspirao: na Allemanha, o judeu, lentamente, surdamente,
tem-se apoderado das duas grandes foras sociaes--a Bolsa e Imprensa.
Quasi todas as grandes casas bancarias da Allemanha, quasi todos os
grandes jornaes, esto na posse do semita. Assim, torna-se inatacavel.
De modo que no s expulsa o allemo das profisses liberais, o humilha
com a sua opulencia rutilante, e o traz dependente pelo capital; mas,
injuria suprema, pela voz dos seus jornaes, ordena-lhe o que ha-de
fazer, o que ha-de pensar, como se ha-de governar e com que se ha-de bater!

Tudo isto ainda seria supportavel se o judeu se fundisse com a raa
indigena. Mas no. O mundo judeu conserva-se isolado, compacto,
inacessivel e impenetravel. As muralhas formidaveis do templo de
Salomo, que fram arrasadas, continuam a pr em torno d'elle um
obstaculo de cidadelas. Dentro de Berlim ha uma verdadeira Jerusalem
inexpugnavel: ahi se refugiam com o seu Deus, o seu livro, os seus
costumes, o seu Sabbath, a sua lingua, o seu orgulho, a sua seccura,
gosando o ouro e desprezando o christo. Invadem a sociedade allem,
querem l brilhar e dominar, mas no permittem que o allemo meta sequer
o bico do sapato dentro da sociedade judaica. S casam entre si; entre
si, ajudam-se regiamente, dando-se uns aos outros milhes--mas no
favoreceriam com um troco um allemo esfomeado; e pem um orgulho, um
coquetismo insolente em se differenar do resto da nao em tudo, desde
a maneira de pensar at  maneira de vestir. Naturalmente, um
exclusivismo to accentuado  interpretado como hostilidade--e pago com
odio.

Tudo isto, no emtanto,  a _lucta pela existencia_. O judeu  o mais
forte, o judeu triumpha. O dever do allemo seria exercer o musculo,
aguar o intellecto, esforar-se, puxar-se para a frente para ser, por
seu turno, o mais forte. No o faz: em logar d'isso, volta-se
miseravelmente, covardemente, para o governo e peticiona, em grandes
rolos de papel, que seja expulso o judeu dos direitos civis, porque o
judeu  rico, e porque o judeu  forte.


O Governo, esse esfrega as mos, radiante. Os jornaes inglezes no
comprehendem a attitude do sr. de Bismarck, approvando tacitamente o
movimento anti-judaico.  facil de perceber;  um rasgo de genio do
chanceller. Ou pelo menos uma prova de que l com proveito a Historia da
Allemanha.

Na meia idade, todas as vezes que o excesso dos males publicos, a peste
ou a fome, desesperava as populaes; todas as vezes que o homem
escravisado, esmagado e explorado, mostrava signaes de revolta, a egreja
e o principe apressavam-se a dizer-lhe: Bem vemos, tu soffres! Mas a
culpa  tua.  que o judeu matou Nosso Senhor e tu ainda no castigaste
sufficientemente o judeu. A populaa ento atirava-se aos judeus:
degolava, assava, esquartejava, fazia-se uma grande orgia de supplicios;
depois, saciada, a turba reentrava na trva da sua miseria a esperar a
recompensa do Senhor.

Isto nunca falhava. Sempre que a egreja, que a feudalidade, se sentia
ameaada por uma plbe desesperada de canga dolorosa--desviava o golpe
de si e dirigia-o contra o judeu.

Quando a besta popular mostrava sde de sangue--servia-se  canalha
sangue israelita.

 justamente o que faz, em propores civilizadas, o sr. de Bismarck. A
Allemanha soffre e murmura: a prolongada crise commercial, as ms
colheitas, o excesso de impostos, o pesado servio militar, a decadencia
industrial, tudo isto traz a classe media irritada. O povo, que soffre
mais, tem ao menos a esperana socialista; mas os conservadores comeam
a vr que os seus males vm dos seus idolos.

Para o calmar e occupar, o que mais serviria ao chanceller seria uma
guerra, mas nem sempre se pde inventar uma guerra, e comea a ser grave
encontrar em campo a Frana preparada, mais forte que nunca, com os seus
dois milhes de bons soldados, a sua fabulosa riqueza, riqueza
inconcebivel, que, como dizia ha dias a _Saturday Review_,  um
phenomeno inquietador e difficil d'explicar.

Portanto,  falta d'uma guerra, o principe de Bismarck distrahe a
atteno do allemo esfomeado--apontando-lhe para o judeu enriquecido.
No allude naturalmente  morte de Nosso Senhor Jesus Christo. Mas falla
nos milhes do judeu e no poder da Synagoga. E assim se explica a
estranha e desastrosa declarao do governo.


Da outra sensao, o romance de Lord Beaconsfield, _Endymion_, no me
resta, n'esta carta, espao para rir. Figuram n'elle, sob nomes
transparentes, Beaconsfield, elle proprio, Napoleo III, o principe de
Bismarck, o cardeal Manning, os Rothchilds, a imperatriz Eugenia,
duquezas, lords, marechaes... emfim um ramalhete de flres, pelo qual o
editor Longman pagou _cincoenta e quatro contos de reis_ fortes.

Jovens de lettras, meus amigos, ponde vossos olhos n'este exemplo de
ouro! S prudente, mancebo; nunca, ao entrar na carreira litteraria,
publiques poema ou novella sem a antecipada precauo de ter sido
durante alguns annos--primeiro ministro de Inglaterra!




VII

A Irlanda e a Liga Agraria


 necessario fallar da Irlanda, fallar da _Liga Agraria_, fallar de
Parnell...

Ha seis mezes que este homem, esta associao, essa ilha inquieta, so o
cuidado supremo, a preoccupao pungente da Inglaterra e de tudo o que
em Inglaterra pensa, desde os homens de Estado at aos caricaturistas. E
dentro em breve o sentimento europeu, o sentimento universal, vae-se
exaltar pela _questo da Irlanda_, como outr'ora pela _questo da Polonia_.

A questo da Polonia! oh saudosos dias passados! Foi esse um dos meus
primeiros enthusiasmos! N'esse tempo, ser polaco era synonimo de ser
heroe: e a frma mais usual da paixo, n'uma alma de vinte annos, no
consistia no desejo de se subir ao balco de Julieta, mas de partir e ir
tomar as armas pela Polonia. Em Coimbra, sempre que nos reuniamos mais
de quatro amigos, faziamos logo esse projecto, gritando:--_Viva a
Polonia!_ Os jornaes transbordavam de poemas  Polonia e de injurias ao
Urso do Norte! Empenhavam-se batinas e compendios para soccorrer a
Polonia, em subscripes enthusiasticas. Em beneficio da Polonia eu
representei muito melodrama em que ora, virgem trahida e vestida de
branco, soluava com as minhas tranas soltas--ora, traidor, soltando
gargalhadas cynicas, cravava um ferro no peito de Cond!

Por fim no eramos mais insensatos do que o povo de Paris em 1848,
marchando em procisso a reclamar do governo provisorio a libertao da
Polonia. Mas  uma guerra com a Russia,  um conflicto europeu! diziam
os prudentes. E os enthusiastas respondiam: No tem duvida; a Frana 
o Messias,  a salvadora dos opprimidos: a Frana  o Christo das
naes; sendo necessario, deve morrer por ellas.

Mas desde 1848 muita agua tem passado sob as pontes, como dizem em
Paris: e mesmo muito sangue.

Por estes tempos de _opportunismo_ e de _naturalismo_, a pobre Irlanda
no inspirar jmais o culto piedoso que votamos outr'ora  Polonia.

De resto a Polonia e a Irlanda constituem dois casos differentes. 
certo, porm, que vistos de longe, atravz da nevoa lacrimosa da
sentimentalidade, offerecem similitudes. A Irlanda pde talvez
considerar-se uma Polonia constitucional: ha aqui como na Polonia uma
raa opprimida, cujo solo foi dividido entre os grandes vassalos, as
familias historicas da nao conquistadora, e que desde ento tem
permanecido em servido agraria. Smente na Irlanda o arbitrario e os
abusos, que esta situao origina, so recobertos pelo regimen
parlamentar de um bello verniz de legalidade: e a Irlanda soffre as
miserias de um paiz vencido e explorado--mas dentro das frmas
constitucionaes.

O irlandez parece-se com o polaco em certos pontos: so ambos
arrebatados, imprudentes, espirituosos, generosos e poetas. Como o
Polaco, o irlandez catholico odeia o conquistador, sobretudo por elle
ser heretico de nacionalidade, misturando com o odio politico o
conflicto de religio. Como na Polonia, ha na Irlanda a legenda
patriotica da independencia, das revoltas suffocadas, dos agitadores
heroicos, legenda que falla  imaginao popular tanto como a mesma
religio, inspirando eguaes fanatismos, de tal sorte que o irlandez 
to devoto dos seus santos como dos seus patriotas; como o polaco
despreza o russo, assim o irlandez olha o anglo-saxonio como um barbaro
e um estupido e tem por elle toda a antipatia desdenhosa que uma raa de
improvisadores pde ter por uma raa de criticos e de analistas. Na
ordem social, como na ordem domestica, ha entre a Polonia e a Irlanda
outras curiosas afinidades. A ultima tctica da Irlanda, mesmo, 
imitada da Polonia: a Irlanda vae apelar para a Europa e  Victor Hugo
quem fallar em nome dela, n'um manifesto com o titulo de Opressor e
Oprimido.

Mas a Inglaterra realmente no se parece com a Russia: nem mesmo atravz
da nevoa da sensibilidade, atravez da paixo pela causa da Irlanda, o
mais esclarecido dos liberalismos pde ser confundido com o mais boal
dos despotismos. E todavia a Inglaterra, para no perturbar os
interesses tyrannicos d'um milhar de ricos proprietarios, deixa na
miseria quatro milhes de homens. Tem todo o territorio irlandez
occupado militarmente. Apenas um patriota comea a ter influencia na
Irlanda, prende o patriota. Quando a eloquencia dos deputados irlandezes
se torna inquietadora, abafa-a, quebrando sem escrupulos uma tradio
parlamentar de seculos. Vae governar a Irlanda pela _Lei marcial_, como
qualquer czar. E, para suspender os planos da _Liga Agraria_, viola os
segredos das cartas.

Esta questo da Irlanda apresenta-se to complexa, to confusa como o
proprio chaos antes da grande faanha de Jehovah. Na Irlanda comea por
haver tres naes distinctas com interesses contradictorios: os
irlandezes catholicos, os irlandezes protestantes ou _orangistas_, os
inglezes e proprietarios escocezes. A questo da propriedade  sem
duvida a essencial: mas existem outras, a questo religiosa, a questo
policial, a questo judicial, a questo municipal, etc., etc. E sobre
cada uma d'estas questes  difficil achar dois irlandezes de accordo.
Cada aldeia se torna assim um campo de batalha: e, como so eloquentes e
sarcasticos, o grande fluxo labial, a paixo do epigramma amplificam e
azedam as dissenses.

Mesmo dentro da egreja catholica, que deveria conservar a tradico da
Unidade--tumultua a discordia: o clero parochial est em lucta com os
dignitarios episcopaes: e  raro que o clero de um condado no divirja,
de sentimentos e de predica, com o clero do condado visinho. No mundo
dos patriotas revolucionarios no existe uma harmonia melhor: a _Liga
Agraria_ no aceita os _Fenians_, e os _Fenians_ abominam as tendencias
parlamentares dos _Home-rulers_: e dentro mesmo do partido dos
_Home-rulers_ ha democratas e conservadores.  um numeroso conflicto por
toda a pobre Irlanda.

Os irlandezes dizem, porm, que se lhes fosse dada a autonomia, horas
depois de declarada a Republica Irlandeza, todas estas questes se
resolveriam de per si e o paiz seria como um mar que amansa e fica em
equilibrio.

At agora, porm, essa falta de unidade  adduzida justamente como
evidencia dos perigos que teria essa autonomia.

Os inglezes pensam sinceramente que no momento em que a Irlanda sahisse
de sob a tutela do bom senso e do saber inglez, no instante que essa
raa impressionavel, excitada, fanatica e pouco culta fosse abandonada a
si mesma, comearia uma guerra civil, uma guerra religiosa, differentes
guerras agrarias, que bem depressa fariam da Verde Erin um monto de
ruinas n'uma poa de sangue.

Se os irlandezes se no entendem bem sobre os _males da Irlanda_, os
inglezes comprehendem-se menos cerca dos _remedios para a Irlanda_. E a
confuso em que se est provm principalmente da abundancia da
discusso. No ha villota, ou mesmo aldeia d'Inglaterra, que no tenha
um jornal do tamanho da _Gazeta de Noticias_, com oito paginas e typo
cerrado. E d'alto a baixo esta vastido de papel, desde que comeou a
agitao da Liga Agraria,  occupada por estudos e artigos sobre a
Irlanda. Multiplique-se isto pelas tres ou quatro mil gazetas que a
pobre Inglaterra nutre sobre a sua epiderme: juntem-se-lhe os artigos
dos Semanarios, dos Quinzenarios, das Revistas e dos Magazines, os
pamphletos, as brochuras, os ensaios inumeraveis como as estrellas do
co, os livros e tratados de toda a sorte, os discursos do parlamento,
as arengas dos _meetings_, as conferencias, os sermes, as controversias
publicas, as lies, emfim, toda essa colossal litteratura que nestes
ultimos mezes tem tomado por assumpto a Irlanda.

E digam-me se, com todo este mundo de informao, de discusso, de
theorias, de projectos, de systemas, de opinies, de imaginaes,--no 
natural que o cerebro da Inglaterra esteja, n'esta questo da Irlanda,
perfeitamente desorganisado. O meu est. Mas n'este cahos mental tenho
illustres companheiros: o grande Carlyle costumava dizer que a
sinceridade e a elevao de alguns patriotas irlandezes era a _unica
coisa nitida e clara_ que elle conseguia distinguir no escuro tumulto da
confuso irlandeza...

Ha tambem outra coisa que se percebe bem:  que a populao trabalhadora
da Irlanda morre de fome, e que a classe proprietaria, os _land-lords_
indignam-se e reclamam o auxilio da policia ingleza quando os
trabalhadores manifestam esta pretenso absurda e revolucionaria--comer!

Aqui est, por exemplo, Sua Graa o Duque de Leicester, para no citar
outros de nomes menos sonoros: os seus rendimentos na Irlanda sobem a
_quatrocentos contos de reis_--e o infeliz tem ainda uns duzentos contos
mais das suas propriedades na Inglaterra! Este fidalgo, escuso talvez
dizel-o, no soffre frio e no passa fome: por outro lado, a populao
de rendeiros que trabalham as suas terras, e que com o seu suor e o seu
esforo lhe arrancam do slo este rendimento,--a unica cousa que
realmente tem  fome e frio. Mas este anno tiveram mais fome e mais frio
que de costume: e l foram em farrapos, e com os ps ns sobre a neve,
supplicar a Sua Graa, o Duque de Leicester, que lhes fizesse uma
diminuio de dez por cento nas rendas--exageradas, absurdas e
devoradoras. Sua Graa respondeu (pela bocca dos seus administradores,
naturalmente: por sua propria bocca um Duque inglez nunca falla seno
com outro Duque) respondeu que as suas circumstancias no lhe permittem
essa liberalidade--e que a repetio d'uma tal supplica no podia ser
tolerada.

E os rendeiros de Sua Graa l voltaram de cabea baixa, para o frio e
para a fome.

Direi de passagem que se o pedido, em logar de ser feito pelos seus
rendeiros da Irlanda, partisse dos seus rendeiros da Inglaterra, Sua
Graa apressar-se-hia a satisfazel-o rasgadamente.  porque a Irlanda 
um paiz conquistado, e, quando o proletario se queixa, a policia fila-o
pela gola: mas, em Inglaterra, quando o operario inglez ergue a sua voz
de leo, a policia fica immovel, os Duques empallidecem, e o edificio
monarchico e feudal treme nas suas bases.

Mas, a proposito de Sua Graa o Duque de Leicester (gozemos o mais tempo
possivel esta illustre companhia: _quand on prend du Duc on n'en saurait
trop prendre_) deixem-me dizer-lhes em resumo quaes so as relaes
agrarias entre um proprietario, um _land-lord_, e os seus rendeiros.


O slo,  claro, pertence ao lord. Por que titulo no sei; talvez uma de
suas avs, n'uma noite que estava mais decotada, attrahisse o
inconstante olhar do amavel Carlos II, nos sarus galantes da
Restaurao: d'esse olhar provm, acaso, esta bella propriedade. O
alegre Stuart era to generoso! tinha-se vivido to pobremente, to
tristemente sob a dictadura puritana do Cromwell!... Depois, se Carlos
II tinha pouco dinheiro, (o desgraado recebia uma mesada do rei de
Frana!) no lhe faltavam terras na Irlanda. Trez leguas de pastos, ou
de terreno aravel, por um beijo e os seus acessorios, no  caro para um
Stuart. E para uma fraca dama ou para seu esposo  um famoso negocio.
Note-se, por Deus, note-se que eu estou fazendo estas supposies sobre
um typo de Lord abstracto. Nem toda a minha sympathia pelos
trabalhadores irlandezes me levaria a suspeitar das purissimas senhoras
da Casa de Leicester...

Como proprietario do slo, pois, o Lorde arrenda-o s familias que de
gerao em gerao vivem nas suas terras: o irlandez prende-se ao slo
como uma arvore pelas raizes, e muitas vezes prefere morrer a abandonar
um torro arido que o no nutre. A emigrao irlandeza para a America
se principalmente da populao operaria das cidades. Ora, nos
contractos de renda, o homem de trabalho est absolutamente  merc do
senhor da propriedade.

O valor das rendas  puramente arbitrario. No ha typo de renda, baseado
sobre a avaliao das terras; existe o que se chama a avaliao de
Griffith, feita ha mais de trinta annos por o agronomo d'esse nome; mas
esta avaliao, equitativa e favoravel ao trabalhador, no  jamais
aceitada pelos proprietarios. N'isto est a origem de todas as miserias
da Irlanda; as rendas, absurdamente elevadas, absorvem todo o producto
da terra, e o rendeiro escassamente pde viver, muito menos economizar.

Alm do slo, o proprietario deve fornecer a habitao e os instrumentos
de trabalho: se na fazenda no existe casa, ou se ella necessita
reparaes, o _land-lord_ dar naturalmente alguma madeira, uma
mo-cheia de prgos, um molho de colmo, para que o trabalhador erga a
cabana miseravel, muito inferior, como conforto, aos curraes dos nossos
gados; e a esta generosidade regia o _land-lord_ juntar talvez um velho
arado e um ferro de enxada. Mas estes dons so adiantamentos que elle
sobrecarrega com preos duplos ou triplos do seu valor, e de que se faz
embolsar por prestaes trimestraes.

No  possivel ser mais grandioso ou mais nobre.

Aqui est, pois, o rendeiro de posse de um tecto, de um terreno e de
ferramenta. Parece que s lhe resta comear a cultivar.

Assim seria, se no fosse na Irlanda. Mas a natureza, me fecunda e
amante, comporta-se aqui ainda peior que os lords: se a natureza tivesse
assento na camara dos pares de Inglaterra, no seria mais aspera, mais
hostil ao pobre e mais avara de si mesma. A natureza, quando no se
apresenta ao trabalhador irlandez sob o aspecto de slo pedregoso,
mostra-se sob o aspecto de pantano.

Offerece-lhe de um lado um penedo, do outro um charco.

E diz-lhe com a sua ternura de me:

--Escolhe. De qual preferes tirar tu os meios de subsistencia?

O pobre irlandez o que preferiria era ir-se embora: mas como por toda a
parte encontraria um proprietario egual, os mesmos pedregulhos e
identicos lamaaes--fica. E  ento que se apresenta de novo a
generosidade do Lord. Sua Graa est pronta (porque Sua Graa 
compassiva) a escoar o pantano, a desempedrar o slo, a fazer
melhoramentos na terra. Sua Graa vae mesmo mais longe: Sua Graa (Deus
o recompense!) offerece a semente. E mais ainda: Sua Graa (que as
benos do ceu o vistam!) d os adubos.

E aqui est um rendeiro feliz, que tem a casa, os instrumentos, a
semente, os adubos... Smente Sua Graa marca os preos que lhe convm
aos melhoramentos feitos,  semente e aos adubos: e no fim do anno a
renda que era originariamente de dez est em vinte e cinco! Como os
terrenos so pobres, os invernos abominaveis, o pobre rendeiro no pde
pagar: dirige-se ento ao agiota--ou ao Lord mesmo. E desde esse momento
est n'uma rede de dividas, lettras, colheitas empenhadas, juros
accumulados, protestos, o demonio--de que jmais se poder desenredar. O
resultado  previsto: o Lord (pelo seu agente) penhora-o, apossa-se do
gro que est nos celleiros, do gado que est nos curraes, do pequeno
bragal que est na arca, das arrecadas da mulher, das enxergas--e
expulsa-o da casa e da propriedade--da casa que elle talvez construiu,
da propriedade que elle com o seu trabalho melhorou! Tal qual como na
meia edade.

Estas expulses, que se chamam _evictions_, so o terror irlandez. Que
ha-de fazer um miseravel com mulher, creanas, s vezes uma av
entrvada, que se v d'uma hora para a outra no meio de uma estrada, por
um terrivel inverno, sem um farrapo para se cobrir, sem uma codea de
po, sem casa, sem destino e sem esperana? E note-se que isto passa-se
em regies como as da Irlanda, pouco habitadas, com um casal de legua em
legua.

Esta falta de vizinhos torna estas expulses mais terriveis. Quantas
milhas a caminhar sob a chuva ou sob a neve, com as creanas chorando de
fome, os doentes levados n'uma padiola, at que se encontre algum
rendeiro mais feliz que ainda tem um canto de cabana onde azyle a
familia errante! Mas por pouco tempo--porque todos so pobres, todos
esto endividados, todos ameaados da expulso...

E durante esse tempo Sua Graa banqueteia-se, bebe _Chateaux Margaux_ de
6$000 reis a garrafa, caa, etc.--e aluga a fazenda, d'onde expulsou o
miseravel n. 1, ao rendeiro n. 2. Smente o n. 2, como a encontra
melhorada pelo antecedente, paga-a mais cara: e depois de explorado,
sugado, expremido, durante dois ou trez annos,  expulso--para dar logar
ao n. 3. Este infeliz passa pelo mesmo processo de triturao, _et sic
per omnia_...

E as expulses so inevitaveis, porque, com a altura absurda das rendas,
 impossivel que o rendeiro as possa pagar--e viver.


Isto, como comprehendem,  apenas um vago contorno da realidade,
apontada nas suas feies essenciais.

Descendo-se a detalhes--v-se ento uma horrorosa trva de injustia e
miseria.

Mas como pdem taes cousas passar-se no seculo XIX, e ao lado do povo
inglez?

Como permitte uma nao to justa a existencia de tanto
oprobio?--dir-me-ho.

Justamente essa pergunta a fazia Victor Hugo ha dias a Parnell, o chefe
da _Liga Agraria_, na sua celebre entrevista. E eu responderei com as
palavras de Parnell.

Taes cousas passam-se no seculo XIX. E o povo inglez no as sabia: pelo
menos eram-lhe contadas de tal modo que, em logar de piedade, s sentia
colera.

E isto  exacto. Os males da Irlanda eram conhecidos pela voz dos seus
agitadores. Mas estes homens, desde O'Connell cometteram sempre o erro
de misturar as queixas d'um proletariado opprimido s aspiraes
d'independencia nacional: de sorte que a Inglaterra no attendia 
reclamao dos trabalhadores pela irritao que lhe causavam as
exigencias dos patriotas. O povo inglez no pde ouvir fallar em que a
Irlanda se separe, e se constitua em republica: mas est prompto a
ordenar que se lhe d um justo regimen de propriedade.

O erro dos Fenians foi confundir a questo nacional com a questo
agraria: o rendeiro miseravel apparecia ento aos inglezes com o aspecto
de um rebelde  Unio; e envolvendo-os ambos no mesmo odio, porque lhes
suppunha identicas ambies, suffocou sem discernimento, a voz que s
pedia po e a voz que reclamava autonomia.

E todavia o povo inglez sentiu sempre instinctivamente que a Irlanda
soffria. Muitas vezes pediu para ella uma reforma das leis agrarias.
Era, porm, um pedir vago, sem coheso: mais a expresso de
sensibilidades feridas do que a intimao da vontade nacional.

De sorte que os parlamentos, sahidos das classes que tm interesse em
manter a Irlanda na miseria, contentavam-se em fazer reformas de
detalhes, reformas insignificantes e imperceptiveis, para dar uma
satisfao  compaixo ingleza: e o regimen antigo ficava inatacado como
d'antes. Mas isto bastava para que alguns humanitarios dissessem com um
suspiro de allivio: Emfim l se fez alguma coisa pela Irlanda! De
facto no se tinha feito nada.

Era, pois, necessario que a questo da propriedade fsse separada da
questo da independencia: que se fizesse um movimento legal dentro da
constituio, com o fim exclusivo de terminar os abusos dos
_land-lords_, calando toda a ideia de arrancar a Irlanda ao Reino Unido.
Ento haveria a certeza de que o povo inglez, vendo a questo agraria e
os seus horrores, isoladamente, no seu relevo proprio, desembaraada das
declamaes rebeldes e das agitaes separatistas--determinasse dar a
tantos males, e to antigos, um remedio radical. Foi isto que tentou a
_Liga Agraria_.

Esta carta  longa: e apresentando esta formidavel entidade--a _Liga
Agraria_, eu devo fazer como o illustre Ponson du Terrail, quando
introduzia um novo personagem, o heroe providencial, n'um fim de
folhetim: deixar a historia das suas faanhas, das suas virtudes e da
sua belleza, com o interesse suspenso, at ao folhetim seguinte. No se
esqueam que ficamos no momento em que, n'este palco da Historia
Irlandesa subitamente apparece ao fundo, misteriosa e grave, a _Liga
Agraria_.




VIII

Lord Beaconsfield


I

Recomeando hoje estas CARTAS DE INGLATERRA--que eu no podia escrever
de Lisboa, onde estive alguns mezes gozando os ocios de Tityro, _sub
tegmine fagi_,  sombra d'essa faia constitucional que se chama o
Gremio--devo memorar, ainda que tarde, a morte de Benjamin Disraeli,
Lord Beaconsfield, ocorrida no dia 19 de maio, pela madrugada, em
Londres, na sua casa de Curzon Street. A doena de Lord Beaconsfield,
uma complicao de gotta, asthma e bronchite, arrastou-se cruel e longa;
o mal porm foi debelado e Lord Beaconsfield succumbiu realmente 
fraqueza,  fadiga dos setenta e sete annos e uma existencia to
episodica, to cheia, to emotiva, que ella ficar como o seu melhor
romance, bem superior em estylo e interesse a _Tancredo_ ou a _Endymion_.

Desde o primeiro dia, Lord Beaconsfield perdeu logo a esperana de se
restabelecer; mas passou a encarar a morte como encarra sempre as suas
derrotas politicas: com uma coragem desdenhosa e fria e um ar de facil
superioridade. Durante a doena, aos accessos agudos da dr, respondia
elle com esses sarcasmos mordentes e rebrilhantes, que tinham sido
sempre a sua desforra querida perante um adversario mais forte.

No dia 18,  noite, cahiu pouco a pouco n'uma somnolencia comatosa, e
assim permaneceu at ao romper da manh; momentos antes de morrer,
agitou-se, ergueu-se, ainda dilatou o peito, lanou os braos ao
ar--como costumava fazer nos grandes debates da camara; depois recahiu
sobre o travesseiro, estendeu as mos a Lord Rowton e Lord Barrigton,
seus secretarios, e murmurou debilmente: _Estou vencido!_--E ficou como
adormecido para sempre. E, considerando que, n'esse momento, toda a
Inglaterra, o mundo inteiro, esperavam anciosamente noticias d'aquelle
quarto de Curzon Street, onde expirava o homem que sessenta annos antes
era um pobre escrevente de cartorio--pde-se dizer que n'esta carreira
to feliz a morte mesma foi feliz.

O seu proprio funeral teria agradado  sua imaginao--a certos lados
delicados da sua imaginao de artista. O testamento que deixou no
permitiu que se celebrassem funeraes publicos na Abbadia de
Westminster--disposio estranhavel n'um homem que mais que tudo amou a
pompa e os grandiosos ceremoniaes; mas no teve tambem o lugubre
scenario da morte, os crepes, as plumas negras, as tochas, os fumos, as
caveiras bordadas--tudo isso que deveria ser to antiphatico ao seu
luminoso espirito. Foi sepultado no seu querido Castello d'Hughenden, no
meio das arvores do seu parque, por uma fresca manh de maio, na capella
toda ornada de flres como para uma alegria nupcial; o caminho que l
levava ia por entre jasmineiros e rosaes; em vez do dobre dos sinos de
Westminster teve o gorgeiar das suas aves; e o caixo, seguido pelos
principes de Inglaterra, por todos os embaixadores, pela aristocracia
que ella governra--desapparecia sob coras, ramos e molhos de
_primroses_, que a rainha Victoria mandra, com estas palavras escriptas
pela sua mo: As flres que elle amava.

Depois, ao outro dia, em todas as cathedraes da Inglaterra, em cada
capella rustica, o clero fez do pulpito o elogio de Lord Beaconsfield;
nas universidades, nos institutos, nas academias, os professores
commemoraram aquella carreira soberba; pelas platafrmas dos _meetings_,
nas assemblas commerciais, em qualquer parte onde se juntam homens,
alguma voz se ergueu a honrar os seus servios e o seu genio; Lord
Granville, na camara dos lords, na camara dos communs Gladstone,
fizeram, em sesso solemne, o seu panegyrico publico; e durante dias,
toda a imprensa ingleza, a imprensa de todo o mundo civilisado (excepto
a de Portugal, infelizmente) vieram cheias do seu nome, da commemorao
dos seus livros, da sua pittoresca historia.

E assim Lord Beaconsfield desappareceu--como fra o desejo de toda a sua
vida--n'um rumor de apotheose.


E todavia nada parece mais injustificado que uma tal apotheose. Lord
Beaconsfield, por fim, foi um homem de estado que fez romances. Ora os
seus romances, como obras d'arte, j comeam a apparecer, a esta gerao
de sciencia e d'analyse, to falsos, to ficticios como as novellas
lyrico-religiosas do visconde d'Arlincourt; e como homem d'estado o nome
de Lord Beaconsfield no fica decerto ligado a nenhum grande progresso
na sociedade ingleza. Crear o titulo de Imperatriz das Indias para a
rainha de Inglaterra, roubar Chypre, restaurar certas prerogativas da
cora, tramar o _fiasco_ do Afghanistan, no constituem de certos
titulos para a sua glorificao como reformador social: por outro lado,
escrever _Tancredo_ ou _Endymion_, no basta para marcar n'uma
litteratura, que teve contemporaneamente Dickens, Tackeray e Georges Eliot.

Como succede, depois d'isto, que a Inglaterra, paiz to pratico, to bem
equilibrado, se deixe levar em um tal arranque de admirao pelo homem
que foi a personificao, a encarnao de tudo quanto  contrario ao
temperamento, s maneiras, ao gosto inglez?  que Lord Beaconsfield,
mais que nenhum outro contemporaneo, impressionou a imaginao
ingleza--e na fria Inglaterra, como sob cos mais calidos, so grandes
as influencias da imaginao.

Podia-se s vezes sorrir das suas phantasticas obras d'arte, protestar
contra as suas theatraes combinaes politicas, mas atravz de protestos
e sorrisos a sua propria personalidade nunca deixou de maravilhar e de
fascinar. Qualquer inglez, medianamente educado, a quem se pergunte a
sua opinio sobre Lord Beaconsfield dir: _Foi um homem extraordinario!_

Extraordinario-- como elle se nos representa, agora que se v o
conjunto da sua existencia, que no parece ter sido um producto natural
dos factos ou das occasies, mas uma creao subjectiva da sua propria
vontade, e como um enredo de romance talhado pela sua penna. Seno
veja-se. Tendo nascido judeu--tornou-se o chefe de uma aristocracia
saxonia e normanda, a mais orgulhosa da terra; comeando em um obscuro
circulo litterario e vegetando algum tempo em um cartorio de
Londres--veiu a ser o mais famoso primeiro ministro de um grande
imperio; no possuindo seno dividas--bem cedo se tornou o inspirador
das grandes fortunas territoriais; homem de imaginao, de poesia, de
phantasia, foi o idolo das classes mdias de Inglaterra, as mais
praticas e utilitarias que jamais dirigiram uma nao commercial; sem
religio e sem moral, governou um protestantismo que no concebe ordem
social possivel fra da sua estreita religio e da sua estreita moral;
confessando o seu desprezo pela omnipotencia da sciencia moderna--foi o
grande homem de uma sociedade que quer dar a todo o progresso uma base
puramente scientifica: emfim, sendo o _menos inglez possivel_, tendo um
modo de ser e de sentir quasi estrangeiros, dirigiu annos e annos a
Inglaterra, o paiz mais hostil ao espirito estrangeiro, e que conhecia
bem que no era comprehendida pelo homem que a governava. Tudo isto
parece paradoxal--e a existencia de Lord Beaconsfield foi com effeito um
perpetuo paradoxo em aco. Para realizar tudo isto era necessario que o
seu genio, por um lado, por outro a sua habilidade, fossem grandes. E
realmente em dons pessoais nada lhe faltou: prodigiosa finura de
espirito, uma vontade de ao, uma coragem serena de heroe, uma infinita
veia sarcastica, um fogo ruidoso de eloquencia, o absoluto conhecimento
dos homens, a luminosa penetrao no fundo dos caracteres e dos
temperamentos, um poder subtil de persuaso, um irresistivel encanto
pessoal,--e tudo isto envolvido (como n'uma athmosfera luminosa) por
alguma coisa de brilhante, de rico, de largo, de imprevisto, que era ou
fazia o effeito de ser o _seu genio_.


Eu por mim comeo por admirar a sua propria apparencia. Diz-se que fra
formoso como um Apollo--e que isto concorrera muito para os seus
primeiros triumphos: agora, j to velho, era apenas pittoresco.

A sua grande testa sobre a qual cahiam aquelles dous extraordinarios
caraces parallelos, o seu olhar recolhido e como concentrado em
pensamentos muito fundos, o nariz de pura raa israelita, a bocca
descahida na sua eterna curva sarcastica, o beio inferior muito recurvo
e muito pendente, e a sua estranha pera de Mephistopheles--constituiam
uma d'estas physionomias que se sente que vo ficar na galeria da
historia e que serviro a futuros historiadores para explicar um destino
e um genio. Em novo, e quando as modas romanticas o permittiam,
vestia-se de setim e velludo, recobria-se d'um luxo de medalhes e
joias, as suas proprias calas tinham bordados d'ouro. Agora era mais
sobrio de _toilette_: usava apenas esses casacos compridos como tunicas,
a que os homens de origem judaica so particularmente affeioados, e o
seu unico adorno eram os bellos ramos que lhe enchiam o peito. Um
jornalista francez, n'um dia de crise politica em que Lord Beaconsfield
devia fazer um discurso decisivo, encontrou-o momentos antes, n'um dos
sales da camara, occupado a encher d'agua o tubosinho de crystal que
por traz da botoeira da casaca conservava frescas as suas rosas. Todo o
homem est n'este trao.

De raa oriental, teve sempre o amor do fausto, das pedrarias, dos ricos
tecidos, da pompa; os seus romances transbordam de descripes de
palacios, de festas perante as quaes as mais ricas galas de Salomo so
como desbotados scenarios de theatro de feira; o seu estylo resente-se
d'este gosto:  um sumptuoso estofo, com recamos de ouro, cravejado de
joias, scintillante e espesso, cahindo em belas pregas ao comprido da
ida. O dinheiro, o ouro, preoccuparam-n'o sempre, menos pela sua
influencia social, que pelo mero esplendor da sua amontoao. Os seus
heroes possuem fortunas to prodigiosas que seriam impossiveis nas
condies economicas do mundo moderno; Lothario, o famoso Lothario,
querendo dar um presente de annos a uma senhora catholica, offerece-lhe
uma cathedral toda de marmore branco, que elle mandou construir e que
dedicou  santa do nome d'ella; o seu custo excederia decerto dois mil
contos fortes. Confessemos que  _chic_. Pois bem; presentes d'estes
dava-os Lothario todos os dias. O banqueiro Sidonia, uma das mais
curiosas creaes de Lord Beaconsfield, dando ao seu amigo Tancredo uma
carta de credito para os banqueiros da Syria, redige-a d'este modo:
Pague  vista ao portador tanto ouro quanto seria necessario para
reconstruir os quatro lees de ouro massio que ornavam a porta direita
do templo de Salomo. Tambem muito _chic_.

Estou certo que um dos grandes prazeres de Lord Beaconsfield era poder
manejar os milhes de Inglaterra. Todos os seus ministerios custaram
caudalosos rios de dinheiro; gastava o ouro como a agua,--e dava-se ao
luxo de realisar por si, e  custa do seu paiz, as larguezas epicas do
seu banqueiro Sidonia. Mesmo quando estava no poder, estava ainda no
romance.


As linhas da sua biographia so conhecidas. Seu pae era um d'estes
litteratos mediocres e trabalhadores que vo desenterrando e
colleccionando atravz de _in-folios_ e bibliothecas casos curiosos e
archaicos de historia e de litteratura.

Benjamin Disraeli nasceu por isso entre os livros--litteralmente entre
os livros, porque a casa em que viviam os Disraeli offerecia o espao de
uma boceta, e no quarto da creana, entre a accumulao vetusta dos
calhamaos, havia apenas espao para uma cadeira e para um bero. O
velho Disraeli era judeu: mas felizmente para os destinos futuros de seu
filho rompeu com a synagoga, e todos os Disraeli se fizeram christos.
Benjamin tinha ento dezessete annos, e o seu padrinho na pia baptismal
foi um certo Samuel Rogers, notavel por ser ao mesmo tempo um dos mais
ricos banqueiros da _City_ e um dos poetas mais elegiacos do seu
tempo--e notavel ainda por no ficar na historia, nem como banqueiro,
nem como poeta, mas como um requintado _gourmet_, o grande Lucullus de
Londres, que deu os mais celebres, os mais finos jantares da Europa.

Assim marcado com o rotulo christo, Benjamin Disraeli largou a caminhar
pela vida fra, mas foi encalhar bem depressa n'um cartorio de
tabellio--onde se diz que, durante dous annos, este moo orgulhoso, que
j ento se considerava um semi-deus, redigiu procuraes e testamentos.
Com a mesma penna, porm, ia escrevendo _Vivian Grey_: e da tempestuosa
sensao que este romance produziu data a sua grande carreira. A obra, 
parte algumas fugitivas scintillaes de um genio ainda desequilibrado,
 no seu conjunto, ao mesmo tempo pesada e vaga; mas satisfazia os
gostos escandalosos e intrigantes da sociedade d'ento, pondo em scena
todas as individualidades marcantes de Londres, politicos, _dandies_,
rainhas da moda, poetas, especuladores.

O melhor resultado de _Vivian Grey_, foi tornar Disraeli Junior (como
elle ento se assignava) o favorito de Lady Blenington e do conde
d'Orsay, as duas dominantes figuras de Londres d'essa poca, e que
tinham _de sociedade_ o mais selecto, mais intelligente, mais apetecido
salo de Inglaterra.

Estes dous formavam um typo destinado a reinar. Lady Blenington era uma
mulher de graciosa e olympica belleza, de uma extrema audacia de
caracter e de alta energia intellectual. O conde d'Orsay, esse era o
homem que durante vinte annos governou a moda, o gosto, as maneiras, com
a mesma indisputada auctoridade com que hoje o principe de Bismarck
arbitra na Europa.

Usar um modelo de gravata ou admirar um poeta que no tivessem sido
aprovados pelo conde d'Orsay, seria correr o mesmo risco de uma nao
que hoje, sem auctorizao secreta do principe de Bismarck, organisasse
uma expedio militar. Lady Blenington, entre outras coisas
embaraadoras, tinha uma filha: e o bello d'Orsay, no sei porque, nem
elle o soube jmais, casou com essa menina. Os noivos vieram viver com
Lady Blenington; e, bem depressa, entre seu brilhante marido e sua
resplandecente me, a pobre condessa d'Orsay foi como uma pallida
lampada bruxoleando entre dous astros. Fez ento uma cousa sensata e
espirituosa: apagou-se de todo, desappareceu. E o conde d'Orsay e Lady
Blenington, livres d'aquella senhora que entristecia, regelava as salas
com o seu ar honesto e frio, comearam ento a scintillar
tranquillamente, como constellaes conjunctas no firmamento social de
Londres. E Londres curvou-se deante d'esta nova e original situao
domestica, como se curvava deante de uma nova sobrecasaca do conde
d'Orsay, ou deante de uma deciso litteraria de Lady Blenington.

Benjamin Disraeli tornou-se bem depressa um dos heroes d'este
salo--onde desde logo se mostrra com esse ar de tranquilla
superioridade, de correcto desdem, que foi um dos segredos da sua fora.
Ordinariamente conservava-se calado, apoiado ao marmore da chamin,
n'uma pose d'Apollo melancholico, abandonando-se  caricia ambiente dos
olhares das damas que viam n'elle a encarnao radiante do poetico
Vivian Grey. As pessoas mais intimas, comeando por Lady Blenington, j
lhe chamavam sempre _Vivian, querido Vivian_. O conde d'Orsay fizera-lhe
o retrato a sepia--honra que elle dava raramente, e a mais appetecida
n'esse curioso mundo.

Todos estes triumphos de Disraeli Junior no deixavam de surprehender
Disraeli Senior. Um dia, dizendo-lhe alguem que seu filho estava
compondo um romance, em que entravam duques, e toda a sorte de grandes,
o velho e laborioso litterato exclamou:--Duques, senhores! Mas meu filho
nunca viu um sequer!

Viu muitos depois, viu-os todos--e governou-os com uma vara de ferro.
Mas n'esse tempo o bello Disraeli Junior era ainda radical, ou tomra ao
menos essa attitude. Meditava mesmo a sua _Epopa da Revoluo_, a sua
unica obra em verso, uma vaga rhapsodia que eu nunca li, mas de que os
criticos mais benevolos fallam como d'um volume de duzentas paginas, sem
uma s linha toleravel. E, cousa curiosa, este homem to fino, to
sceptico, to experiente, nunca perdeu a candura quasi comica de se
considerar um grande poeta como Virgilio ou como Dante, e a esperana
phantastica de que as geraes futuras poriam a _Epopa da Revoluo_ ao
par da _Eneida_, ou da _Divina Comedia_.

Apesar de poeta abominavel e de perfeito dandy--ou talvez por isso
mesmo--Benjamin Disraeli era reconhecido n'esse tempo como um dos chefes
do movimento da _Joven Inglaterra_.

A _Joven Inglaterra_ consistia n'um grupo de rapazes, ardentes e
aristocratas, que se tinham embebido da Revoluo atravz da
litteratura; fallavam muito da Humanidade e queriam sobretudo um _burgo
pdre_ que os nomeasse deputados; cultivavam pelos sales o amor
platonico, quereriam vr o povo feliz comtanto que estivessem elles no
poder para promover essas felicidades, e (trao decisivo das suas
maneiras e da sua _pose_) quando se escreviam uns aos outros tratavam-se
por _my darling--meu amor_!

Tinham ainda outros distintivos: usavam o cabello  _nazarena_,
mostravam a coragem (enorme n'esse tempo) de admirar o odiado Byron, e
procuravam elevar e aperfeioar a arte da cozinha em Inglaterra!

No emtanto, Benjamin Disraeli j estava bem decidido a sacudir o seu
radicalismo--quando fosse necessario aos interesses da sua careira. E
essa carreira via-a elle ento, apesar de desconhecido e pobre, to
claramente triumphante no futuro como se a tivesse deante dos seus olhos
escripta, parte por parte, n'um programma.

Em pleno reinado dos _tories_,  caracteristica j a sua resposta a Lord
Melbourne, primeiro-ministro ento, que lhe perguntava o que elle
tencionava fazer.

--Ser eu o primeiro-ministro d'aqui a pouco--respondeu o dandy com as
suas grandes maneiras  Vivian Grey.

Lord Melbourne viu n'esta resposta uma odiosa e insolente jactancia. E
assim parecia, quando, tempo depois, Disraeli, j deputado por Wycombe,
fez o seu primeiro discurso--e o viu suffocado pelas gargalhadas e pelos
apupos. Como no podia dominar o tumulto, calou-se, dizendo apenas estas
palavras mais:

--Hoje no me quisestes ouvir. Um dia vir em que eu me farei escutar!

E um dia veio em que no s a camara dos communs, mas a Inglaterra, todo
o continente, a terra civilizada escutavam com anciedade as palavras que
iam cahir dos seus labios, e que traziam comsigo a paz ou a guerra na
Europa.


II

A reputao de salo que gozava Lord Beaconsfield, levou algum tempo a
transformar-se em popularidade; mas a sua popularidade, apenas obtida,
penetrou rapidamente a enorme massa trabalhadora, e tornou-se em poucos
annos essa vasta e ressoante nomeada, que fez o seu nome familiar, quasi
domestico, em toda a parte onde se falla inglez, na mais rude aldeia de
pescadores de Cornwall, no _bush_ d'Australia, entre os mesmos
montanhezes barbaros das _Highlands_, e que, quando elle se dirigia ao
congresso de Berlim, attrahia s estaes do caminho de ferro as
populaes da Allemanha a contemplarem o _grande inglez_. E este
reconhecimento de gloria constitue um dos phenomenos mais curiosos da
carreira de Lord Beaconsfield; porque, em geral, no se avalia bem a
difficuldade portentosa de obter uma fama, mesmo mediocre.

No ha nada to illusorio como a extenso de uma celebridade; parece s
vezes que uma reputao chega at aos confins de um reino--quando na
realidade ella escassamente passa das ultimas casas de um bairro.

No momento de sua prodigiosa voga, o velho Alexandre Dumas ficou
assombrado de que o magistrado de uma villa visinha de Paris, homem
illustrado, de resto, no soubesse com que letras se escrevia esse
glorioso nome de Dumas!

E se ns pudessemos reduzir a numeros as propores das glorias
contemporaneas, ficariamos aterrados perante a grotesca mesquinhez dos
resultados. Ns outros jornalistas, criticos, artistas, homens de estudo
e de curiosidade litteraria, julgamos quasi impossivel que haja alguem
na Europa que no tenha lido Victor Hugo, ou que, pelo menos, no
conhea esse nome de syllabas faceis, que ha meio seculo fere, a grande
estrondo, o ouvido humano; pois bem, pde-se dizer que fra de Frana
apenas cinco mil pessoas talvez tero lido Victor Hugo--e que no
passar decerto de dez mil o numero de creaturas que lhe saibam o nome,
incluindo mesmo a vasta massa democratica de que elle  o epico
official. E j isto constitue um famoso progresso--desde o tempo em que
Voltaire ambicionava ter _cem leitores_!

A conhecida alegoria da fama, cantando o nome d'um varo com as suas cem
bocas, applicadas s suas cem tubas, e voando de um a outro confim do
universo-- uma das imagens mais descaradamente falsas que nos legou a
Antiguidade. Esse estrondear das cem tubas morre como um suspiro dentro
da rea humilde d'um corrilho ou d'uma _coterie_: e nada viaja com uma
lentido egual  da Fama. Um fardo de fazendas gasta quatro dias a vir
de Londres a Lisboa--e os nomes de Tennyson, Browning, Swinburne, os
tres grandes poetas da Inglaterra, e que ha quarenta annos so a sua
mais pura gloria, ainda c no chegaram.  verdade que todo o mundo
necessita flanellas--e nem todo o mundo supporta poesia.

Mas uma celebridade no encontra s difficuldades em transpr a
fronteira--acha-as sobretudo e quasi insuperaveis em fixar a ateno da
grande turba dos seus concidados. Principalmente n'um paiz como a
Inglaterra, em que a aspera lucta pela existencia, a soffrega
preoccupao do po diario, o feroz conflicto da concorrencia, no
permitem esses pachorrentos vagares, os vagares portuguezes ou
hespanhes, em que se est de barriga ao sol, prompto a olhar, a admirar
o menor foguete que estala nos ares.

Em Inglaterra, o duque de Wellington era de certo popular--porque ganhou
a batalha de Waterloo, e portanto, segundo a crena contemporanea,
salvra a Inglaterra da invaso. Gladstone  conhecido em cem cidades e
mil aldeias, porque alliviou a nao dos seus grandes impostos. Mas
estes frmam as excepes; as outras celebridades inglesas, ou sejam
politicos como Lord Salisbury, ou philosophos como Spencer, ou poetas
como Browning, ou artistas como Herkomer--permanecem profundamente
ignorados da grande massa do publico. So reputaes de salo, de
academia, de club, de redaco de jornal.

Ora, Lord Beaconsfield realmente nunca fez coisa alguma para se tornar
popular e sempre lembrado; nunca ligou o seu nome a uma grande
instituio, a um grande beneficio publico, a uma campanha victoriosa.
Tudo, ao contrario, n'esta original personalidade parecia destinal-o 
impopularidade: a sua origem, os seus gestos e habitos anti-inglezes, a
sua poderosa veia sarcastica, a sua oratoria requintada e subtil, o
gongorismo metaphysico das suas concepes litterarias, e certos lados
muito accentuados do seu fundo semitico. E a isto accrescia que, para a
grande maioria da nao, elle representava um _parvenu_ de auctoridade
oligarchica, surdamente hostil  ideia de democracia e de soberania
popular.

A sua assombrosa popularidade parece-me provir de duas causas: a
primeira  a sua ida (que inspirou toda a sua politica), de que a
Inglaterra deveria ser a potencia dominante do mundo, uma especie de
Imperio Romano, alargando constantemente as suas colonias, apossando-se
dos continentes barbaros e _britannizando-os_, reinando em todos os
mercados, decidindo com o peso da sua espada a paz ou a guerra do mundo,
impondo as suas instituies, a sua lingua, as suas maneiras, a sua
arte, tendo por sonho um orbe terraqueo que fsse todo elle um imperio
Britannico, rolando em rythmo atravez dos espaos.

Este ideal, que tomou o nome de _imperialismo_ nos dias de gloria de
Lord Beaconsfield,  uma ida querida a todo o inglez; os mesmos jornaes
liberais que com tanto furor denunciavam os perigos d'esta politica
romana, no fundo gozavam uma immensa satisfao de orgulho em
proclamarem a sua inconveniencia. Havia tanta prosapia britannica em
conceber um tal Imperio, como em o condemnar, e em dizer, com um ar de
nobre renunciamento: No nos convm a responsabilidade de governar o
mundo!

Lord Beaconsfield, sendo a encarnao official d'esta ida imperial,
tornou-se naturalmente to popular como ella. Foi considerado ento como
o instrumento da grandeza exterior da Inglaterra, como o homem que a
fazia dominante e temida, que mantinha alta e reluzindo terrivelmente
aos olhos do mundo a espada de John Bull. Gladstone, Bright, a grande
escola liberal, conhecida pela _escola de Manchester_, era agora
accusada de ter, com a sua politica de absteno s occupada de
melhoramentos materiaes, de finanas, de civilizao interna--deixado
definhar, morrer o prestigio inglez na Europa.

E ai vinha agora aquele extraordinario judeu, apoiado na riqueza, na
prosperidade interior que lhe tinham legado os liberaes, collocar de
novo a Inglaterra  frente das naes, fazendo ressoar ao longe e ao
largo a sua voz de leo...

Todo o paiz andou durante annos inchado com esta grandiosa filaucia, que
Lord Beaconsfield ia sempre entretendo com os seus discursos bellicosos,
as ameaas theatraes, as concentraes de frotas, um constante movimento
de regimentos, invases aqui e alm, a occupao de Chypre, a quasi
absorpo da propriedade do isthmo de Suez, sempre algum lance brilhante
em que a Inglaterra apparecia entre os fogos de Bengala da sua
eloquencia, como a senhora do mundo. E John Bull adorava isto, apesar de
vr que a espada da Inglaterra, depois de flammejar um momento nos ares,
era invariavelmente recolhida  bainha; apesar de comprehender que o
dinheiro se gastava como a agua das fontes; apesar de sentir que os
impostos cresciam; apesar de perceber que a Inglaterra estava tomando
sobre os hombros responsabilidades desproporcionadas com a sua fora.

Depois, um dia, o grande senso pratico da Inglaterra viu claramente a
necessidade de brilhar menos aos olhos do mundo--e de se occupar da
machina interior, que comeava a desarranjar-se: pz fra o grandioso
Beaconsfield, e chamou o pratico Gladstone--o homem que reconstitue as
finanas, que allivia os impostos, que faz as grandes reformas
interiores... Mas, apesar de tudo, Beaconsfield ficou como o typo do
estadista que mais que nenhum outro amou e desejou a grandeza imperial
da patria.

A esta causa de popularidade deve juntar-se outra--a _reclame_. Nunca um
estadista teve uma _reclame_ igual, to continua, em to vastas
propores, to habil. Os maiores jornaes de Inglaterra, da Allemanha,
da Austria, mesmo da Frana, esto (ninguem o ignora) nas mos dos
israelitas. Ora o mundo judaico nunca cessou de considerar Lord
Beaconsfield como um judeu--apesar das gotas d'agua christ que lhe
tinham molhado a cabea. Este incidente insignificante nunca impediu
Lord Beaconsfield de celebrar nas suas obras, de impr pela sua
personalidade a superioridade da raa judaica,--e por outro lado nunca
obstou a que o judaismo europeu lhe prestasse absolutamente o tremendo
apoio do seu ouro, da sua intriga e da sua publicidade. Em novo,  o
dinheiro judeu que lhe paga as suas dividas; depois  a influencia
judaica que lhe d a sua primeira cadeira no parlamento;  a ascendencia
judaica que consagra o exito do seu primeiro ministerio;  emfim a
imprensa nas mos dos judeus,  o telegrafo nas mos dos judeus, que
constantemente o celebraram, o glorificaram como estadista, como orador,
como escriptor, como heroe, como genio!


Como romancista, Lord Beaconsfield nunca escreveu propriamente um
romance tal como ns modernamente o comprehendemos. Alguns dos seus
romances so pamphletos em que os personagens constituem argumentos
vivos, triumphando ou succumbindo, no segundo a logica dos
temperamentos e as influencias do meio, mas segundo as necessidades da
controversia ou da these. Outros frmam verdadeiras allegorias como as
tem a pintura decorativa nas muralhas dos monumentos publicos. N'um dos
mais celebres, _Lothair_, ha um mancebo ideal, encarnao do espirito
inglez, que ama successivamente tres mulheres: uma italiana casada com
um americano, bella creatura de perfil classico e frmas de Deusa, que
representa a Democracia; uma ardente rapariga de cabellos negros e
revoltos, sempre em extasi, que  a personificao da Egreja Catholica;
e emfim uma doce e loura donzella, sria, grave e terna, que symboliza o
Protestantismo. Depois d'hesitar entre estas tres paixes--decide-se,
como um bom inglez, por casar com o Protestantismo, quero dizer, com a
loura, conservando um culto vago e secreto pela Democracia, quero dizer,
pela soberba americana de perfil marmoreo. Moral: a felicidade d'um povo
est na posse d'uma forte moral christ, alliada a um uso moderado da
liberdade. Isto dava um excelente e apparatoso _fresco_ na sala d'um
parlamento. E Lord Beaconsfield accentua os detalhes allegoricos com uma
tal ingenuidade, que faz por vezes sorrir; assim, por exemplo, a
americana, isto , a Democracia, apparece sempre em _soires_ e festas
vestida  grega, com uma estrella de brilhantes na fronte, como a cabea
da _republica_ nas moedas francezas de cinco francos!

O meio, em que os seus romances se passam, tem quasi sempre um ar
feerico: tudo so, como disse ha pouco, palacios d'um fabuloso e sombrio
luxo, festas como as no tiveram os Medicis, fortunas de banqueiros, de
duques, perante as quaes os Cresus, os Monte-Christos, os Rothchilds,
todos os ricaos da lenda ou da realidade apparecem como despreziveis
pelintras.

A linguagem d'estes personagens corresponde ao esplendor das suas
moradas e ao nebuloso dos seus destinos. _Misses_ de dezoito annos,
habitando prosaicamente Belgrave Square, fallam aos seus namorados com a
pompa allegorica do _Cantico dos Canticos_; e quando (o que  frequente)
dois brilhantes espiritos como Sidonia ou Mrs. Coningsby conversam,
veem-se, cruzando rapidamente d'um a outro labio, as imagens rutilantes,
os luminosos conceitos, como se as duas creaturas se estivessem
recitando um ao outro numeros do _Intermezzo_ ou sonetos de Petrarcha.

Esta linguagem, de resto, convem s idas, aos sentimentos, s aventuras
que elle atribue aos seus typos principaes; tudo o que  humano e real
fica absolutamente de fra d'essas transcendentes creaes: fallando
como poetas, comportam-se naturalmente como chimeras.

O seu mais famoso heroe, Tancredo, vae a Jerusalm e  Syria com este
fim: _penetrar o mysterio asiatico_. No percebem?  facil. Sendo
Jerusalm e as planicies da Syria o unico ponto do Universo em que Deus,
em tempos, conversou com o homem, em que appareceram os prophetas e os
Messias, em que das saras, do murmurio dos rios e do echo dos desertos
surgiram as Leis Novas, dando  humanidade destinos novos--o moo
Tancredo parte, para que l, n'esses logares, Deus lhe falle, um raio de
luz o divinize, uma religio lhe seja revelada, e tendo partido de
Londres como simples lord, possa regressar a Regent Street, como Messias
e regenerador de sociedades!

E (perguntar-me-ho) o que succede a Tancredo na Syria? O que succede a
todos os personagens de Lord Beaconsfield, que nas primeiras paginas
partem para sobrehumanos destinos, como os antigos cavalleiros da Tavola
Redonda: succede-lhe que casa com uma linda e honesta menina, e que tem
muitos filhos no meio de muita felicidade...

E o _mysterio asiatico_? Parece que o no achou. Mas descobriu coisas
curiosas e de rara fabula: por exemplo, um povo pago, onde reina uma
bella sacerdotisa de Apollo, que celebra ainda hoje nobres cultos
hellenicos, e que se namora de Tancredo. Mas Tancredo, cavalleiro
christo, depois de a defender da invaso d'um outro povo, que adora
idolos infames, foge, foge  desfilada, deixando a classica rainha a
gemer de amor aos ps da estatua d'Astarte. Depois elle mesmo est para
ser rei do Libano. Emfim, uma grandiosa e rutilante salsada. E tudo isto
se passa ahi por 1855, no tempo da Exposio de Paris.

Mas que prodigioso talento, que arte, que amplido d'imaginao para pr
de p, em todo o seu brilho, este desordenado monumento d'Idealismo!


Com effeito, que artista fino e por vezes poderoso!

Apesar d'este abuso do gongorismo na fico, do vago e ao mesmo tempo do
amaneirado das suas concepes, d'estes enredos e d'estes personagens
que por vezes parecem uma mystificao--os seus romances nunca deixam
d'interessar, direi mesmo, nunca deixam de captivar. Atravessa-os sempre
um enthusiasmo sincero--em que se sente o amor poetico com que elle
segue os seus generosos heroes, as suas bellas mulheres, n'esses
destinos fra da realidade. Depois a sua fina sensibilidade, o seu
idealismo um pouco convencional, mas de grande _elan_, os requintes d'um
gosto supremo--levam-no a dotar os seus personagens, e a aco em que
elles se movem, de uma tal belleza espiritual, de uma to alta nobreza
de costumes, que os olhos enlevam-se, a imaginao namora-se d'esse
mundo ficticio, d'essa humanidade de poema, onde nada existe de vulgar
ou de baixo, e onde brilham frmas maravilhosas e transcendentes do
pensar, do sentir e do viver.

Isto d-lhe uma qualidade encantadora:  _luminoso_. Personagens,
paizagens, interiores, o proprio movimento da aventura--tudo est
banhado n'uma luz serena e graciosa. Pintando as cousas fra da verdade
social, no tendo de lhe apresentar as sombras tristes, exclue dos seus
vastos quadros tudo o que na vida  duro, brutal, feio, mu,
estupido--as frmas varias da baixeza humana.

Escrevia para uma sociedade rica, nobre, litteraria, requintada--e
mostra-lhe um mundo d'ouro e crystal, girando n'uma bella harmonia,
batido de uma luz cr de rosa...


Tenho insistido n'este lado _no real_ dos livros de Lord Beaconsfield.
Todavia, um homem d'estes, antigo _dandy_, critico, estadista, habituado
a governar, observador por necessidade, no podia deixar de ter
accumulado uma grande experiencia dos caracteres e da sociedade; e essa
experiencia deveria necessariamente transparecer nas suas pinturas da
vida. E l est com effeito. Por entre as suas grandes creaes
symbolicas, de indisciplinada imaginao (_Tancredo_, _Lothair_,
_Sibyl_) move-se todo um mundo real, de uma vida exacta e forte, figuras
de carne, postas de p com um singular vigor de desenho e cr. So os
seus personagens secundarios, os seus politicos, os seus intrigantes, os
seus homens de lettras, as suas mulheres da moda, os seus lords
elegantes. Todos estes typos fram copiados do natural. Londres
conhecia-os, dava-lhes logo os nomes; e o escandalo d'estes retratos foi
mesmo uma das grandes causas do successo de Lord Beaconsfield. Mas,
mesmo para quem no frequenta a sociedade de Londres, e no conhece os
originaes, estes typos interessam--porque _vivem_.

Ordinariamente so apenas esboos, mas magistraes; e apparecendo assim
em destaque, ao lado de creaes de pura imaginao, descomedidamente
poeticas e de contornos fluctuantes, esses typos reaes adquirem um
relevo maior, como perfis da verdadeira humanidade, mostrando-se por
entre o nebuloso de uma mythologia.

So elles os que interessam, e da vasta galeria de Lord Beaconsfield s
elles ficaro lembrados.


Seria impossivel, n'este estudo ao correr da penna, feito s de
impresses, marcar todos os traos de uma individualidade to complexa
como a de Lord Beaconsfield.

Poucos homens tm produzido um to curioso conflicto de apreciaes:
diz-se d'elle que foi um grande homem de estado, e diz-se tambem que foi
apenas um charlato; a critica tem-n'o apresentado como um romancista de
genio--e como um mu alinhavador de novellas! Homem de partido, soffreu
em politica e em litteratura, ora a idolatria, ora o rancor da
parcialidade partidaria. Uma coisa porm tinha a seu favor:  que todos
os mediocres o detestavam.

 difficil, de resto, separar n'elle o politico do romancista: sempre
fez politica nas obras d'arte, que se tornavam assim resoantes
manifestos das suas idas de estadista--e fez romance no governo, que
parecia muitas vezes um _scenario de drama_, sobre o qual elle estava de
penna na mo, combinando os lances d'effeito. Seja como fr, a
Inglaterra perdeu nele um dos seus genios mais pittorescos e mais
originaes.


Individualmente foi um _feliz_. Tendo, em novo, lanado o plano da sua
vida futura, como quem prepara um enredo de romance, realisou-o
plenamente em todos os pontos, n'um continuo triumpho. Foi formoso, foi
amado, foi rico, teve a melhor esposa de Inglaterra (como elle dizia),
deixou uma vasta obra litteraria, foi o confidente escolhido da sua
rainha, governou a sua patria, pesou nos destinos do mundo, e findou
n'uma apotheose. Foi ento absolutamente, ininterrompidamente, ditoso?
No. Este homem triumphante viveu acompanhado d'um secreto, d'um
pequenino, d'um ridiculo desgosto: nunca pde fallar bem francez!




IX

Os inglezes no Egypto




I

O que resta d'Alexandria.--A estreia d'Arabi Pax.--Algemas ao caf.


At ha cinco ou seis semanas Alexandria podia ser descripta no estylo
convidativo dos _Guias de viajantes_ como uma rica cidade de 250.000
habitantes, entre europeus e arabes, animada, especuladora, prospera,
tornando-se rapidamente uma Marselha do Oriente. Nenhum _Guia_, porm,
por mais servilmente lisonjeiro, poderia chamar-lhe interessante.

Apesar dos seus dois mil annos de edade, de ter sido, depois de Athenas
e Roma, o maior centro de luxo, de lettras e de commercio que floresceu
no Mediterraneo, a velha cidade dos Ptolomeus no possuia hoje nenhum
monumento do seu passado, a no contarmos, ao lado d'um velho cemiterio
mussulmano, uma coluna erigida outr'ora por um prefeito romano em honra
de Diocleciano, conhecida pelo sobrenome singular de _Pilar de Pompeu_,
e mais longe, estendido n'um areal, um obelisco pharaonico do templo de
Luxor, que gosava a grotesca alcunha de _Agulha de Cleopatra_. E esta
mesma reliquia est agora em Londres, no aterro do Tamisa, pousada n'uma
peanha de bronze, allumiada pela luz electrica, aturdida pelo estrondo
dos comboyos...

Os bairros europeus d'Alexandria quasi recentes (ha cincoenta annos,
antes de Mehemet-Ali dar o impulso  sua reedificao, a grande
metropole que espantava o califa Omar estava reduzida a uma aldeia
vivendo da pesca e do commercio d'esponjas) compunham-se principalmente
d'uma vasta praa, a famosa _praa dos Consules_, orgulho de todo o
Levante, e de ruas largas, com nomes francezes, estuque francez nas
fachadas, taboletas francezas nas lojas, cafs francezes, lupanares
francezes--como um _faubourg_ de Bordus ou de Marselha transportado
para o Egypto e empenachado aqui e alm de palmeiras.

A parte arabe da cidade no tinha nenhum pittoresco oriental: eram
arruamentos quasi direitos, com casebres lavados a cal e terminando em
terrao, pousados n'um solo, meio de terra e meio de areia, que a menor
brisa do mar espalhava em nuvens pelo ar.

Cidade feia  vista, desagradavel ao olfacto, reles, insalubre,
Alexandria visitava-se  pressa, ao trote de uma tipoia, e depressa se
apagava da memoria, apenas o comboio do Cairo deixava a estao, e se
ausentavam, entre as primeiras culturas do Delta, ao longo dos canaes,
as filas de ibis brancos, os mais velhos habitantes do Egypto, outr'ora
deuses, ainda hoje aves sagradas...

Todavia, tal qual era, Alexandria, com a sua bahia atulhada de paquetes,
de navios mercantes e de navios de guerra; com os seus ces cheios de
fardos e de gritaria, os seus grandes hoteis, as suas bandeiras
fluctuando sobre os consulados, os seus enormes armazens, os seus
centenares de tipoias descobertas, os seus mil cafs-concertos e os seus
mil lupanares; com as suas ruas, onde os soldados egypcios, de fardeta
de linho branco, davam o brao  marujada de Marselha e de Liverpool,
onde as filas de camelos, conduzidos por um beduino de lana ao hombro,
embaraavam a passagem dos _tramways_ americanos, onde os _sheiks_, de
turbante verde, trotando no seu burro branco, se cruzavam com as
caleches francezas dos negociantes, governadas por cocheiros de
libr--Alexandria realizava o mais completo typo que o mundo possuia de
uma cidade levantina, e no fazia m figura, sob o seu co azul ferrete,
como a capital commercial do Egypto e uma Liverpool do Mediterraneo.

Isto era assim, ha cinco ou seis semanas. Hoje,  hora em que escrevo,
Alexandria  apenas um immenso monto de ruinas.

Do bairro europeu, da famosa _praa dos Consules_, dos hoteis, dos
bancos, do escriptorios, das companhias, dos cafs-lupanares, resta
apenas um confuso entulho sobre o solo, e aqui e alm uma parede
enegrecida que se vae alluindo.

Pela quarta vez na historia, Alexandria deixou de existir.

Tratando-se do Egypto, terra das antigas maldies, pde-se pensar, em
presena de tal catastrophe, que passou por alli a colera de
Jehovah--uma d'essas coleras de que ainda estremecem as paginas da
Biblia, quando o Deus unico, vendo uma cidade cobrir-se da negra crosta
do peccado, corria de entre as nuvens a cicatrizal-a pelo fogo, como uma
chaga viva da Terra. Mas d'esta vez no foi Jehovah. Foi simplesmente o
almirante inglez Sir Beauchamp Seymour, em nome da Inglaterra, e usando
com vagar e methodo, por ordens do governo liberal do Sr. Gladstone, os
seus canhes de oitenta toneladas.

Seria talvez deshonesto, de certo seria desproporcionado, o juntar aos
nomes dos homens fortes que n'estes ultimos dous mil annos se tm
arremessado sobre Alexandria e a tm deixado em ruinas,--aos nomes de
Caracalla, o pago, de Cyrillo, o santo, de Diocleciano, o perseguidor,
e de Ben-Amon, o sanguinario--o nome de Sr. William Gladstone, o
humanitario, o paladino das nacionalidades tyrannizadas, o apostolo da
democracia christ. Mas se por um lado, evidentemente, a politica do
snr. Gladstone no  um producto de pura ferocidade pessoal, como a de
Caracalla, que fez arrasar Alexandria, porque um poeta d'essa cidade
finmente dada s letras o molestra n'um epigramma--por outro lado esta
brusca aggresso de uma frota de doze couraados, cidadellas de ferro
fluctuando sobre as aguas, contra as decrepitas fortificaes de
Mehemet-Ali, este bombardeamento d'uma cidade egypcia, estando a
Inglaterra em paz com o Egypto, parece-se singularmente com a politica
primitiva do califa Omar ou dos imperadores persas, que consistia
n'isto:--ser forte, cahir sobre o fraco, destruir vida e empolgar
fazendas. D'onde se v que isso a que se chama aqui a _politica imperial
d'Inglaterra_, ou _os interesses da Inglaterra no Oriente_, pde levar
um ministro christo a repetir os crimes d'um pirata mussulmano, e o
snr. Gladstone, que  quasi um santo, a comportar-se pouco mais ou menos
como Ben-Amon, que era inteiramente um monstro. Antes no ser ministro
d'Inglaterra! E foi o que pensou o veneravel John Brigth, que, para no
partilhar a cumplicidade d'esta brutal destruio d'uma cidade
inoffensiva, deu a sua demisso do Gabinete, separou-se dos seus amigos
de cincoenta annos, e foi modestamente occupar o seu velho banco de
oposio...


Tudo o que se prende immediatamente com a aniquilao de Alexandria, 
de facil historia, sobretudo, traando-se s as linhas principaes, as
unicas que pdem interessar quem est moral, e materialmente, a tres mil
legoas do Egypto e das suas desgraas.

No principio de junho passado, o almirante inglez Sir Beauchamp Seymour
achava-se nas aguas de Alexandria, commandando uma formidavel frota, e
tendo ancorada ao seu lado uma esquadra franceza com o pavilho do
almirante Conrad. A Frana e a Inglaterra estavam alli com morres
accesos, vigiando Alexandria, de camaradagem, como tinham estado nos
ultimos dous annos no Cairo, de penna atraz da orelha, fiscalisando, de
camaradagem, as finanas egypcias: porque sabem, de certo, que, tendo o
Egypto (endividado at ao alto das pyramides para com as burguezias
financeiras de Pariz e Londres) omittido o pagamento de alguns
_coupons_,--a Frana e a Inglaterra, protegendo maternalmente os
interesses dos seus agiotas, installaram no Cairo dous cavalheiros, os
srs. Coloin e Blegnires, ambos com funces de secretarios de fazenda
no ministerio egypcio, ambos encarregados de colher a receita, geril-a e
applicar-lhe a parte mais pingue  amortisao e juros da famosa divida
egypcia!

De sorte que as duas bandeiras, de Inglaterra e da Frana, eram na
realidade dous enormes papeis de credito, iados no tope dos couraados.
No almirante Seymour e no almirante Conrad reappareceram os dous
burguezes, Coloin e Blegnires. E na bahia de Alexandria, perante o
Egypto, um dos grandes fallidos do Oriente, as frotas unidas das duas
altas civilisaes do Occidente representavam simplesmente a usura armada.

Isto era assim na realidade. Officialmente, porm, os couraados estavam
alli fazendo uma demonstrao naval, de facto realisando uma interveno
estrangeira--porque se tinham dado casos no Egypto e o Khediva
declarara-se _coacto_. Todos os que conhecem a historia contemporanea de
Portugal e de outros curiosos paizes constitucionaes sabem o que
significa esta deliciosa phrase: _El-rei est coacto!_ Isto quer dizer
que Sua Magestade se acha em palacio, cercado de uma populaa carrancuda
que agarrou em chuos, arranjou uma bandeira no alto de um pu, e vem
impor esta frmula prodigiosamente desagradavel para El-rei: diminuio
de auctoridade regia e augmento de liberdade publica...

Se El-rei conserva por traz do palacio alguns regimentos fieis, enverga
n'esse momento a farda de generalissimo, e manda acutilar o seu povo: se
desgraadamente, porm, os soldados esto unidos aos cidados, ento
El-rei _declara-se coacto_, e pede a um rei visinho, mais forte e menos
atarantado, que lhe mande uma diviso, a _restabelecer a ordem_--isto 
a assegurar a Sua Magestade a sua somma intacta d'autoridade regia,
dispersando a tiro a tentativa de liberdade publica. Isto hoje,
realmente, j se no usa na Europa: mas no Oriente, ao que parece, 
ainda um methodo muito decente de acalmar os descontentamentos nacionaes.

O Khediva, esse excellente e pacato moo, tinha sido victima de um
_pronunciamento_ planeado,  maneira hespanhola, mas posto em scena 
moda turca. Um coronel, Arabi-bey, que em breve ia ser o famoso
Arabi-Pach, apresentou-se com outros officiaes no palacio, e depois do
_salamalek_, que na etiqueta turca consiste em beijar devotamente a aba
da sobrecasaca do Khediva, como ns em Lisboa beijamos a tunica de Santo
Antonio, lembrou a Sua Alteza a necessidade de fazer reformas, algumas
puramente militares e em proveito dos coroneis, outras politicas, para
bem da grande populaa fellah, e to largas que constituiam uma mudana
de regimen. Sua Alteza escutou, murmurou aquellas phrases sobre o _amor
da nao, a felicidade dos subditos_, que o ceremonial indica nas
occasies d'atrapalhao regia e pareceu to satisfeito com o interesse,
que aquelles officiaes tomavam pela prosperidade do valle do Nilo, que
os recompensou  maneira oriental--convidando-os a um banquete. Em torno
da festiva mesa a cordealidade foi grande, o _champagne_ espumou contra
as prescripes do Alcoro, e entre o sabor das truffas e o aroma dos
ramos, o futuro do Egypto appareceu cr de rosa... O caf foi servido
nos jardins: e quando d'um lado entravam os escudeiros com os licores,
do outro surgiram beleguins com algemas. Arabi e os seus camaradas,
levando ainda na bocca o ultimo charuto que lhes offerecera Sua Alteza,
foram conduzidos s palhas do carcere.

No ha nada mais delicioso--nem mais turco.

A Europa toda, a quem agrada a energia, applaudiu com estrepito a
energia de Sua Alteza!




II

A desforra de Arabi.--Reformadores e coroneis.--O programma
fellah.--A conferencia de Constantinopla.--A confuso do
Gro-Turco.--As esquadras.


O Khediva teve em seguida, alguns tranquillos dias de triumpho.

Ao abrir o seu _Times_ ou o seu _Journal des Dbats_ (porque este
principe  illustrado) elle podia regosijar-se, vendo que esses dous
ponderosos orgos da opinio europa o consideravam um potentado
energico e cheio de nervo, como cabe a um descendente do grande
Mehemet-Ali, vivamente zeloso dos seus direitos, sabendo manter a ordem
nos seus estados com duas mos de ferro, digno emfim da sympathia das
potencias.

Uma manh porm, o palacio appareceu cercado de tropas--doze mil homens
com dezoito peas d'artilharia--supplicando que Sua Alteza soltasse
Arabi e lhe confiasse o ministerio da guerra. E davam esta razo,
honrosa para a logica rabe: que, approvando o exercito as reformas de
Arabi-Bey, entendia que elle as executaria muito mais confortavelmente
sentado na poltrona de ministro da guerra do que estirado nas palhas do
carcere.

O Khediva, que acabava talvez de saborear no _Times_ mais uma
glorificao da sua energia, concordou e declarou at que sempre
respeitara Arabi. Alli mesmo, sobre o joelho, o nomeou Pach:--e
Arabi-Pach passou da enxovia para o poder, ao som das bandas marciaes...

Em taes circumstancias um caudilho europeu lana o seu programma to
ruidoso, to brilhante, subindo to alto no co do progresso, como os
foguetes que estalam n'esse dia--e de que ordinariamente, como dos
foguetes, fica apenas um tio apagado. E estamos to acostumados a
isto, aqui n'estas regies privilegiadas, onde a locomotiva silva, que
as gazetas sisudas comearam a desconfiar de Arabi, desde que o no
viram adeantar-se com o seu programma nas mos. No o tinha.

Em paiz mussulmano, sob a lei do Alcoro, no os ha: nem era de resto
natural que um soldado egypcio (como disse, com uma gche e
desnecessaria ironia, o snr. Gambetta) tivesse encontrado por acaso
_principios de oitenta e nove ineditos_ nos sarcophagos dos Pharas.
No, de certo. Mas Arabi trazia tres ou quatro ideias que, se houvesse
uma Europa decente, que lhe permittisse a realisao, podiam ser o
comeo de um novo Egypto, um Egypto possuindo-se a si mesmo, um Egypto
governando-se a si mesmo, um _Egypto para os Egypcios_--no uma raa
escrava enfeudada  familia de Mehemet-Ali, muito menos um refeitorio
franco para os esfomeados europeus.

A meu vr, o que impediu sempre que Arabi fosse um reformador--era o ser
elle um coronel fellah, filho de fellah, nascido n'uma d'essas tristes
aldas, montes de choas feitas de lama secca, que negrejam ao comprido
do Nilo. Tendo vivido na abjecta miseria dos fellahs--a peior que existe
sobre a terra--elle, mais que ninguem, tinha direito a erguer-se em nome
dos longos aggravos do fellah. Mas, ao mesmo tempo, Arabi era um soldado
que ganhara os seus postos nas prolongadas guarnies do Alto Egypto e
nas campanhas do Soudan, que voltra de l com todo o orgulho da farda,
e todo o pedantismo do sabre, no s repassado de militarismo, mas
enfrascado em militana--e, portanto, prompto, desde que a sua voz
resoava to alto, a pl-a ao servio das pretenes do exercito... Elle
representava, por origem e por profisso, as duas grandes classes do
povo egypcio--o soldado e o fellah;--e desde o momento em que entre os
egoistas, os voluptuosos, os escravos e os interesseiros, elle pareceu
ser o unico homem no Egypto que se arriscava, de bom grado, pelas suas
ideias, ao exilio e  enxovia,--tornou-se bem depressa, e naturalmente,
chefe do _partido popular_ que queria as grandes reformas nacionaes, e
pela mesma occasio caudilho do _partido militar_, que s appetecia
vantagens de classe. Assim, em Arabi, o patriotismo confundia-se
infelizmente com a insubordinao.

Nas suas reformas encontravam-se, n'uma triste mistura, ao lado de idas
largas, liberaes, contendo a revindicao dos direitos do trabalhador,
as mais especiosas exigencias do quartel, revelando o official
revoltado. Era com o mesmo enthusiasmo, e como se as duas cousas
tivessem egual valor na obra da regenerao do Egypto--que elle pedia
uma constituio parlamentar, e augmento de soldo e subida de posto para
os coroneis seus camaradas. Que aconteceu? Que na Europa, aquelles que
desejavam a continuao do regimen khedival (empreza financeira d'onde
sahiam grossos dividendos) fizeram tanto ruido em torno das escandalosas
pretenes da tropa, que no deixaram escutar os justos pedidos do povo,
e desacreditaram facilmente Arabi, escondendo o seu bom lado de
patriota, pondo em relevo o seu mau lado de coronel turbulento.

Toda a revoluo dirigida por coroneis  justamente suspeita ao nosso
moderno espirito europeu; mas Arabi  um egypcio; e no Egypto, onde o
povo fellah, apesar de to intelligente como qualquer das nossas plebes,
 pouco mais que uma irresponsavel horda de escravos, e onde o exercito
constitue a classe culta--a obra de progresso tem necessariamente de ser
feita pelo soldado. Na Europa, porm, no se sabe isto--ou, antes,
finge-se que no se sabe. As exigencias da tarimba puzeram na sombra as
reclamaes da cabana--e Arabi perdeu na Europa a auctoridade que podia
ter como chefe dos fellahs por fallar de espada na mo, d'entre um
quadrado de soldados...

De certo, Arabi no  um Mazzini, nem um Luiz Blanc.  um arabe do
antigo typo, que apenas leu um livro--o Alcoro. Mas, como homem, possue
qualidades de intelligencia, de corao, de caracter, que no ousam
negar aquelles mesmos que o esto combatendo to brutalmente. E como
patriota, est  altura dos grandes patriotas: havia certamente muito
egypcio no Egypto que abominava o sordido regimen khedival e soffria de
vr o rico valle do Nilo devorado pelo estrangeiro, como outr'ora pelos
gafanhotos;--mas esses limitavam-se a curvar tristemente os hombros,
invocando o nome de Allah.

Este  o primeiro que entendeu que Allah, apesar de grande e forte, no
pde attender a tudo, e que, portanto, se resolveu a tirar a espada em
nome do fellah, contra a oppresso colligada dos pachs turcos e dos
agiotas christos.

Quaes eram, por fim, as reformas de Arabi, esse monstro de sedio?

Arabi queria, em primeiro logar, o fim da auctoridade absoluta do
Khediva, e o Egypto governado por uma Assembla eleita; e, como
consequencia d'esse novo regimen, uma reforma radical no uso dos
dinheiros publicos, que at ahi iam parte para a crte do Khediva, parte
para o harem do Sulto, senhor suzerano do Egypto, parte para as
cohortes cerradas de funccionarios estrangeiros, parte, uma grande
parte, para pagar os _coupons_ de divida em Pariz e Londres, ficando to
pouco para as necessidades do paiz, que havia dois annos que quasi se
no dava soldo ao exercito!

Arabi no negava a divida externa, contrahida por esse esplendido
perdulario Ismail-Pach, mas reconhecida pela nao e garantida pela sua
honra:--smente no admittia que a Frana e a Inglaterra estivessem
installadas no Cairo,  bocca dos cofres, esperando a chegada do
imposto, para empolgar uma parte leonina; de tal sorte, que, para
satisfazer a voracidade do credor europeu, esmagava-se com tributos o
fellah, que, por mais que se esfalfasse dia e noite, tinha por fim de
recorrer ao usurario europeu. Cousa estupenda! A Europa apresentava-se
officialmente como credora, e, para se fazer embolsar, fornecia
secretamente o agiota!...

Mas o ponto delicado das reformas de Arabi era quando tocavam com a
situao dos estrangeiros no Egypto. Havia ahi pretenes monstruosas.
Arabi exigia que se abolisse o privilegio pelo qual os estrangeiros
estabelecidos no Egypto e enriquecendo no Egypto no pagam imposto. O
desalmado queria que no houvesse esses tribunaes de excepo para os
estrangeiros, que, sob o nome de _tribunaes mixtos_, distribuem duas
justias--uma de mel para o europeu, outra de fel para o arabe. Emfim,
esse homem fatal pretendia que os empregos publicos no fossem dados
exclusivamente a estrangeiros--e que se no pagassem annualmente, como
se pagavam, mais de _trez mil contos_ de bom dinheiro egypcio, a
francezes, inglezes e italianos repoltreados em sinecuras em todas as
reparties do valle do Nilo, e quasi todos to uteis ao estado como
aquelle inglez que, com uma carta de recommendao de Lord Palmerston,
foi nomeado coronel do exercito egypcio e ao fim de nove annos, depois
de ter recebido perto de oitenta contos de soldos, ainda no tinha visto
o seu regimento e _ainda mesmo no tinha uniforme_!

Taes eram, em resumo, as abominaveis idas de Arabi, e no se imagina
facilmente a apopletica indignao que ellas causaram  Frana
republicana e  livre Inglaterra. Arabi foi considerado uma fra. Na
Bolsa de Pariz, no _Stock-exchange_ de Londres, onde os fundos egypcios
tinham descido, pedia-se com energia a suppresso immediata d'esse
iniquo aventureiro.

Os gritos estridentes dos estrangeiros no Egypto, ameaados nas suas
pessoas e nos seus privilegios, enterneciam a Europa.

As potencias occidentaes _trocaram as suas vistas_, segundo a hedionda
phrase diplomatica, e concordou-se que o Egypto _estava em anarchia_. O
Khediva, esse j se declarara _coacto_, e urgia _descoactar_ rapidamente
esse amavel principe, to doce ao estrangeiro. A Inglaterra e a Frana,
pois, (paizes que dizem ter interesses superiores no Egypto) mandaram as
suas esquadras s aguas de Alexandria, para aterrar Arabi. Pde-se
perguntar at que ponto seis couraados, sem tropas de desembarque e
ancorados n'uma bahia, conseguiriam atarantar um ministro da guerra,
seguro no Cairo, a dez horas de caminho de ferro, cercado de vinte mil
homens de tropas regulares, apoiado por quatro milhes de populao
fellah, alliado aos grandes chefes beduinos, e sanctificado pela
approvao religiosa dos Ulemas...

Hoje, aquelles mesmos que aconselharam essa manifestao, como o
_Times_, confessam com o rubor nas columnas, que foi uma insensatez. Em
todo o caso fez-se--e acompanhada de um documento, um papelucho
diplomatico que, pelo comico intenso do seu contedo, parecia arrancado
a alguma fara descabellada de Labiche. Esse escripto, apresentado
gravemente pelos consules de Frana e Inglaterra, intimava o Khediva a
que demitisse Arabi, o exilasse para o Alto-Egypto, para alm das
cataractas, conservando-lhe, para o no descontentar de todo, as suas
honras de pach e os seus soldos de coronel! No sentis aqui, amigos,
toda a folia de um _vaudeville_? De um lado o Khediva abandonado, em
palacio, envolvido por uma revoluo victoriosa, refugiado na equivoca
fidelidade de alguns ajudantes de campo e de alguns eunucos; do outro
lado Arabi tendo por si o exercito, a nao, o deserto e as mesquitas. E
a Europa suggere quelle Khediva que desterre para a Nubia este Arabi!
Conheceis cousa alguma que mais reclame a _verve_ do chorado Offenbach?
Os jornaes inglezes hoje confessam tambem entre dentes que o papelucho
era estupido. Se o era! E esto d'ahi a vr o resultado: Arabi encolheu
os hombros, adjudicou-se mais o ministerio da marinha, e substituiu
alguns dos outros ministros, antigos familiares do Khediva, por homens
seus, gente de nervo e de arranque.

Perante esta resposta dada ao seu _ultimatum_, a Europa ficou, se me 
licito este dizer irreverente--_de orelha murcha_. E ento tomou a
deciso das grandes crises; delegou diplomatas que se sentaram em torno
de uma mesa de panno verde, e enterraram pensativamente a cabea entre
os punhos. Chamou-se a isto a _Conferencia de Constantinopla_. O seu
fim, todo louvavel, era _resolver a questo do Egypto_.

E ainda l est, fina e subtil, a resolver! Alexandria ardeu, deixou de
existir; o canal de Suez  patrulhado por canhoneiras inglezas; o
general Sir Garnet Wolseley marcha sobre o Cairo; a terra do Egypto 
terra britannica--e ella ainda l est, a resolver!

Quanta habilidade n'aquella assembla! N'aquella assembla quanta
auctoridade! Ainda l est...

Ainda l est,  margem das aguas doces do Bosphoro, em torno da mesa de
panno verde, com a cabea enterrada entre os punhos!...

Depois de reunida a _Conferencia_, a Europa, naturalmente, lembrou-se
que o Egypto  ainda uma dependencia dos estados do Sulto, paga tributo
ao Sulto, e que portanto ao Sulto competia ir restabelecer a ordem nos
seus agitados dominios.

Questo obscura e embrulhada, esta das relaes do Egypto com a Turquia.

 o Khediva um principe vassallo? A diplomacia hesita. Por um lado, os
Khedivas succedem-se por hereditariedade, tm exercito, armam marinha,
cunham moeda, declaram guerras, fazem tratados; por outro lado, pagam
tributo. Mas constitue elle uma affirmao de vassalagem de pach a
sulto?  uma simples offerta de principe mussulmano ao chefe do Islam,
como o presente que o rei catholico de Hespanha manda todos os annos ao
papa?  uma prestao annual da tremenda somma, porque Mehemet-Ali e
depois Ismail-Pach compraram aos Osmanlis a sua independencia? 
simplesmente um _pourboire_?... Seja como fr, o tributo existe--e,
fundado n'elle, a Europa appellou para o Sulto. Arabi, bom crente,
devia venerar o Sulto; o Sulto, bom pae, podia exterminar Arabi. E
aqui comea a famosa comedia das vacillaes do Sulto.

Por um lado, o Sulto desejaria mandar tropas ao Egypto, occupal-o sob o
pretexto de o tranquillisar e refazer d'elle uma provincia turca, um
pachalato dependente do serralho, tal qual era antes de Mehemet-Ali,
quando na riqueza do valle do Nilo estava o verdadeiro thesouro dos
califas; por outro lado, porm, o Sulto no queria desembarcar no
Egypto como cabo de policia da Europa, pela razo de que, prevendo este
caso, os _ulemas_ da mesquita d'El-Azhar, o grande centro religioso e o
grande centro lettrado do Islam, o Vaticano e a Sorbona do Oriente,
possuindo no mundo mussulmano uma auctoridade igual  de um Concilio no
mundo catholico,--tinham declarado que se o Sulto, em nome da Europa
christ, pegasse em armas contra gente mahometana, tornava-se _ipso
facto_ apostata, e _ipso facto_ perdia o califado. Por um lado tambem o
Sulto, tendo, ao que se diz, recebido de Arabi promessas de depor o
Khediva e proclamar em seu logar Helim-Pach, que  em Constantinopla o
conselheiro e o favorito do serralho--conspirava com Arabi contra o
Khediva; mas por outro lado, tinha noticia das intelligencias de Arabi
com o scherif de Meca, que, sendo o descendente directo de Mahomet,
possue mais que o Sulto direitos ao califado, e  n'esta santa
pretenso apoiado por todas as tribus da Arabia; e, receiando assim que
Arabi se tornasse o auctor de um scisma no islamismo, o Sulto procurava
minar-lhe a influencia crescente--e conspirava com o Khediva contra
Arabi. Por um lado ainda, uma vaga revoluo constitucional em paiz
mussulmano era odiosa ao Sulto; mas, por outro, a maneira como Arabi,
alma d'esse movimento, estava tratando d'alto parte da Europa colligada,
lisongeava profundamente o seu corao turco. Emfim, este miserando
chefe dos crentes no sabia onde havia de dar com a sua cabea
imperial... No se pense, por este dizer ligeiro, que eu no respeito o
Sulto: Abdul-Hamid no  um califa do antigo typo, embrutecido pelo uso
de tres mil mulheres,--mas, segundo a expresso do principe de Bismarck,
um dos espiritos mais finos da Europa. Ora, o principe de Bismarck 
um entendedor; ainda que, a meu vr, duas cousas estragam esta famosa
finura: primeira o ser excessiva, de modo que Abdul-Hamid, a maior parte
das vezes, tropea e fica enredado na engenhosa complicao dos seus
proprios fios; depois o estar ao servio, no de idas praticas, mas de
fantasias mysticas, como a que se lhe attribue de renovar, na ordem
espiritual e em seu proveito, o imperio prophetico de Mahomet.

Emfim, instado pela Europa a intervir no Egypto, e no querendo que a
Europa interviesse, porque isso seria a perda do seu pingue tributo
annual, o Sulto decidiu-se a enviar Dervich-Pach, uma velha raposa
podre de manhas, com a misso de fazer reentrar Arabi no aprisco dos
humildes. Mas apenas Dervich-Pach comeava esta operao, eis que o
Sulto inquieto, vendo Arabi e o scherif de Meca de mos dadas sobre o
tumulo do Propheta, remette a Arabi a grande ordem do Medjidieh, a mais
nobre condecorao turca, o favor supremo que pde cahir das mos do
califa, acompanhada de uma florida carta de amizade e d'uma esplendida
placa de diamantes.

Isto tudo d a medida da confuso do Gro-Turco.

Arabi, assim glorificado pelo califa, resplandeceu aos olhos do mundo
mussulmano com um prestigio maior; Dervich-Pach, um instante aturdido,
redobrou de duplicidade:--e foi ento entre Dervich, e Arabi, e o
Khediva, e o Sulto, e as potencias, e os consules, e os pachs, e os
coroneis, uma intriga to emaranhada que eu prefiriria fazer-lhes um
resumo lucido dos vinte e cinco volumes das _Faanhas de Rocambole_, do
que penetrar na espessura inextricavel d'este embroglio
turco-europeu--uma d'essas intrigas fastidiosas que devem enervar, fazer
chorar de sca e de fadiga a Providencia, se ella, como affirmam
philosophos que esto na sua intimidade,  obrigada a observar
minuciosamente todos os successos humanos! Quanto o homem com a sua
tolice deve, por vezes, fazer bocejar Deus!

Durante estes successos, emquanto a Europa chafurdava no atoleiro
diplomatico, as duas esquadras de Frana e de Inglaterra, l continuavam
deante de Alexandria _manifestando_. Do romper do sol ao occaso,
immoveis nas aguas calmas, com as camisolas da marujada seccando nas
vergas, alli estavam _manifestando_...

Os officiaes repousavam de vez em quando d'esta rigida attitude de
_manifestao_ arranjando um _pic-nic_ em terra, indo fazer um _robber_
de _whist_ ao club inglez, ou organisando, sob as sombras dos jardins de
Ramleh, honestas partidas de _cricket_.




III

Episodio oriental.--Mussulmanos e christos.--Uma estrumeira
social.--Opinies de mesa redonda.--Os funccionarios europeus do
Cairo.--As dividas d'Ismail-Pach.--O dia 11 de junho.


Achando-se as cousas assim, amanheceu o dia 11 de junho, que d'ora em
deante na historia--n'esse curto instante de notoriedade humana, que
emphaticamente se chama a _historia_--ser conhecido por este
gallicismo: _o massacre de Alexandria_.

O primeiro episodio oriental que eu vi, ao desembarcar ha doze annos em
Alexandria, foi este: no caes da alfandega, faiscante sob a luz torrida,
um empregado europeu--europeu pelo typo, pela sobrecasaca, sobretudo
pelo bonnet agaloado--estava arrancando a pelle das costas d'um arabe,
com aquelle chicote de nervo d'hippopotamo, que l chamam _courbach_, e
que  no Egypto o symbolo official da auctoridade.

Em redor, sem que esse espectaculo parecesse desusado ou escandaloso,
alguns arabes transportavam fardos; outros empregados agaloados, de
chicote na mo, davam ordens por entre o fumo do cigarro...

Saciado ou canado, o homem do _courbach_, que era um magrisella, atirou
um derradeiro pontap  anatomia posterior do arabe--como quem, ao fim
d'um periodo escripto com _verve_, assenta vivamente o seu ponto
final--e, voltando-se para o meu companheiro e para mim, offereceu-nos,
de bonnet na mo, os seus respeitosos servios. Era um italiano, e
encantador. A esse tempo o arabe (como quasi todos os fellahs, um
soberbo homem de formas esculpturaes) depois de se ter sacudido como um
Terra-Nova ao sahir d'agua, fra-se agachar a um canto, com os olhos
luzentes como braza, mas quieto e fatalista, pensando de certo que Allah
 grande nos cos e necessario na terra o _courbach_ do estrangeiro.

Quando, no dia 11 de junho, eu li esses telegrammas, repassados de
panico, em que se annunciava  Europa que a populao arabe massacrava
os europeus nas ruas da Alexandria,--no sei porque revi logo o ces da
alfandega, o italiano servial de bonnet agaloado, o _courbach_
estalando nas costas escuras do arabe. Isto no  trazido como
allegoria, para dizer que as relaes dos europeus e dos egypcios se
reduziam a estas duas attitudes--um brao com manga de panno fino
erguendo o _courbach_, e um dorso semi-n esperando a sova: muito menos
quero insinuar que o massacre do dia 11 foi a tardia vingana d'estas
brutalidades burocraticas...

O Egypto no  a Serra Leoa; e o crescente ainda no anda to de rastos
que consinta em ser systematicamente espancado pela cruz. Mas a verdade
 que no Egypto um qualquer empregado europeu da alfandega, das docas,
ou dos caminhos de ferro, que no ousaria erguer a mo para um carrejo
europeu,--retalha a pelle d'um egypcio, to naturalmente e com tanta
indifferena como se sacode uma mosca importuna.

 que o europeu d'Alexandria considerava o fellah egypcio como um sr de
raa infima, incivilisavel, mero animal de trabalho, pouco differente do
gado; e se tivesse o estylo de La Bruyre, descrevel-o-hia como La
Bruyre descrevia os aldeos do tempo de Luiz XIV, vultos escuros,
curvados sobre a terra e tendo a vaga apparencia de seres humanos...

N'estas condies de desprezo, usa-se facilmente o _courbach_ e
invariavelmente a insolencia...

E note-se que o europeu no tinha muito mais respeito pelo egypcio das
classes superiores ou cultas. Qualquer amanuense de consulado julgaria
da sua dignidade d'europeu no ceder o passo ao mais velho e nobre
scheik, senhor de dez tribus e descendente do propheta; e o mais
insignificante empregado dos telegraphos, leitor do _Figaro_, no
nutriria seno desdem pelos sabios doutores da Universidade d'El-Azhar,
que no vo ao caf ler o _Figaro_, e pouco sabem de telegraphia.

Mas este absurdo desprezo por uma nobre raa, a quem a civilisao tanto
deve, no se manifestava s entre os europeus de Alexandria, colonia de
alluvio, formada pelos detritos das populaes do Mediterraneo: no
ouvimos ns ainda ha dias o proprio snr. Gambetta declarar das alturas
da tribuna da camara franceza, esse Sinai da burguezia, que o povo
egypcio s podia ser governado a chicote?...

A complicada abundancia da nossa civilisao material, as nossas
machinas, os nossos telephones, a nossa luz electrica, tem-nos tornado
intoleravelmente pedantes: estamos promptos a declarar desprezivel uma
raa, desde que ella no sabe fabricar pianos de Erard; e se ha algures
um povo que no possua como ns o talento de compor operas comicas,
consideramol-o _ipso-facto_ votado para sempre  escravido...

Por outro lado, os egypcios olhavam para o europeu como para a ultima e
mais terrivel praga do Egypto, uma outra invaso de gafanhotos,
descendo--no do co, onde ruge a colera de Jehovah, mas dos paquetes do
Mediterraneo, com a sua chapeleira na mo--a alastrar, devorar as
riquezas do valle do Nilo. E este prejuizo no  especial s classes
incultas: o pach mais bem informado, educado em Frana, lendo como ns
a _Revista dos Dous Mundos_, nunca reconhecer o que o Egypto deve 
energia,  sciencia, ao capital europeu; para elle, como para o ultimo
burriqueiro das praas do Cairo, o europeu  mais que o intruso-- o
_intrujo_.

O arabe de modo nenhum se julga inferior a ns; as nossas industrias, as
nossas invenes no o deslumbram; e estou mesmo que, do calmo repouso
dos seus harens, o grande ruido que ns fazemos sobre a terra, lhe
parece uma v agitao. Elle sente por ns o pasmo misturado de desdm
que pde sentir um philosopho, vendo trabalhar um pelotiqueiro. O
pensador diz comsigo que no  capaz de equilibrar uma espingarda sobre
o nariz, e lamenta-o; mas consola-se reflectindo que o saltimbanco no 
susceptivel de ligar duas idas. Assim, o mussulmano admira um momento o
nosso gaz, os nossos apparelhos, os nossos realejos, todo o nosso genio
mecanico; depois cofia a barba, sorri, e pensa comsigo: Tudo aquillo
prova paciencia e engenho, mas eu tenho dentro em mim alguma cousa de
melhor, e superior mesmo ao vapor e  electricidade-- a perfeio moral
que me d a lei de Mahomet.

De resto, ns o sabemos pelas xacaras da nossa mocidade, sempre o
crescente detestou a cruz; e pde-se imaginar quaes so os seus
sentimentos, agora que a cruz, em logar de o combater como paladino, o
explora como agiota.

Se em cidades como Damasco ou Beyrouth o europeu _touriste_ inoffensivo,
que passa com a bolsa aberta, excita olhares e murmurios de odio,
smente porque tudo n'elle  differente, desde os dogmas da sua religio
at  frma do seu chapo--calcule-se o que se d em cidades como
Alexandria e como Tunis, onde o europeu no  _touriste_ amavel que
distribue gorgetas, mas o agenciador soffrego que vem instalar-se alli
como em terra que conquistasse para arredondar depressa um peculio, sob
a bandeira do seu consul.

Accrescente-se que no Egypto o europeu apparecia aos olhos do arabe com
o caracter odioso de um privilegiado.

Uma cousa parecia intoleravel-- que o europeu empolgasse todos os
logares, todos, desde as gordas sinecuras at os diminutos empregos de
cem francos por mez.

Vagava um obscuro posto de carteiro ou de telegraphista--e concorriam,
de um lado um arabe honesto e activo, do outro um sacripanta de
nacionalidade grega ou malteza. A quem se dava o emprego? Ao sacripanta.

Este systema, fecundo a principio, quando o Egypto era uma barbara
provincia turca, e os europeus chamados eram homens de saber especial e
de integridade, comeou no tempo de Mehemet-Ali, que tentava fazer uma
nao sobre as ruinas do velho pachalato, e que convidava para essa obra
a sciencia e o capital europeu: continuou depois com Said-Pach, esse
delicioso _bon-vivant_, to francez que passava os dias a fazer
_calembourgs_, e que no admittiria em torno de si, e nas reparties do
estado, seno cavalheiros capazes de apreciar o _Charivari_; mas a
grande invaso de empregados europeus consumou-se no tempo de
Ismail-Pach,--que acceitava tudo o que vinha da Europa, os
especialistas e os vadios, os que traziam uma ida e os que s traziam
dividas...

O Egypto renovou ento a velha lenda do El-Dorado. Quem em Pariz, ou em
Londres, ou em Roma, se via filado pelos credores, com a derradeira
sobrecasaca a coar-se nos cotovellos, e sem poder voltar ao seu _club_,
por dever dez francos ao porteiro, obtinha de um diplomata ou de um
principe uma carta de recommendao para o Khediva e tomava o paquete de
Alexandria.

L, nos primeiros dias, tinha o hotel pago por Sua Alteza--ao fim do mez
emprego dado por Sua Alteza. Qualquer cousa: se era um velho tenor de
sala, j sem voz, nomeava-se coronel de cavallaria; se era um militar
desacreditado, despachava-se inspector das escolas. Quem no podia
alcanar uma carta para o Khediva, ia rojar-se aos ps do consul. Quem
no ousava apresentar-se ao consul, empregava as influencias
transversaes do pao, as mais poderosas--os eunucos, os cosinheiros, as
danarinas... O emprego vinha, facil e pingue. E o fellah pagava toda a
malta.

Mas o peior ainda eram os funccionarios superiores, que as potencias
installavam no interior da administrao egypcia--to ciumentas umas das
outras, que, se, por exemplo, a Frana conseguia accommodar um francez
na directoria geral das finanas, logo a Inglaterra, para contrabalanar
essa parcella de influencia, empurrava um inglez para dentro do
estado-maior da marinha; e por seu turno a Italia, j desconfiada,
mettia  fora um filhote de Roma na direco da instruco publica.
Alguns d'estes cavalheiros tinham de certo habilidades de especialistas;
mas a sua abundancia mesmo enredava o movimento da machina
administrativa. Est hoje provado que o Khediva, cedendo a estas
presses, era obrigado a ter _seis empregados para fazer o simples
trabalho de um_! Todo este mundo formava um estado no estado.

Nas suas reparties de finana, nos seus tribunaes, nos seus estados
maiores, nas suas commisses, em todos os recantos da sua administrao,
o Egypto s via faces estrangeiras, s escutava linguas estrangeiras, s
sentia interesses estrangeiros; e o dinheiro egypcio mantinha esta
cohorte, que s estava alli para annullar a influencia egypcia. E eram
ao menos uteis?... O consul-geral dos Estados Unidos conta, n'um livro
recente sobre o Egypto, que jantara um dia no Cairo com seis empregados
superiores, todos estrangeiros, cujos ordenados sommados subiam
annualmente a perto de _cem contos_! Nas suas reparties, a
correspondencia, a escripturao, a contabilidade, tudo era feito em
lingua arabe: _e nenhum d'elles sabia o arabe_!


No havia talvez sobre a terra peior populao que a de Alexandria. Essa
cidade, que fra outr'ora o refugio do saber e do luxo do oriente,
tornara-se nos nossos dias, sob o Khediva Ismail-Pach, o barril de lixo
da Europa meridional. Todo o refugo humano da Grecia, das ilhas do
Archipelago, da Italia, da Sicilia, de Marselha (e Deus sabe quanto
estas bellas paragens classicas abundam em meliantes!) se esvasiava
instinctivamente sobre Alexandria, alastrava-a, tornava-a sob o seu
bello co azul-ferrete uma fetida estrumeira social.

Bastava atravessar uma rua, para comprehender o conjuncto dos costumes.

A cada esquina, um _caf-cantante_ atulhado d'uma malta enxovalhada, que
berra, cachimba, emborca aguardente, emquanto sobre o tablado, por traz
da ribalta, uma matrona despeitorada e caiada vae rouquejando um
estribilho obsceno... De dez em dez casas um lupanar, separado apenas da
rua por uma simples cortina... Por toda a parte o jogo: um sacripanta
traz uma pequena roleta, um banco, e no meio da rua installa a batota;
em redor apinham-se logo outros sacripantas, e d'ahi a momentos a
policia tem de acudir, porque corre sangue...

O viajante de gosto e de educao tinha de fugir bem depressa d'esta
atmosphera, refugiar-se n'algum quieto caf mussulmano,  beira d'agua
tranquilla. Ahi ao menos s havia arabes que fumavam gravemente o seu
_chibouk_, fallavam entre si com pollidez, comportavam-se com dignidade.

Ah! estou d'aqui a vr a primeira mesa redonda a que me sentei em
Alexandria!

Era presidida por um grego de pelle livida, de suissas reluzentes como
verniz de sapatos, com um grilho de ouro sobre o collete denotado e
brilhantes, talvez verdadeiros, n'uma camisa de oito dias! Que intrujo!
que bandido! Como aquillo rolara por todas as trapaas, todos os
deboches do littoral levantino! O bom era ouvil-o fallar do Egypto como
de um paiz conquistado, terra de ilotas que tinha obrigao de o vestir,
de o calar, de lhe encher a bolsa a elle, e aos outros que o applaudiam
em torno da mesa redonda, todos europeus, agenciadores, empregadotes,
simples vadios, todos de grilhes de ouro no relogio, de collarinho
decotado, o caro resudando vicio, o fallar parlapato, gals de
espelunca...

--_L'arabe, monsieur_, dizia-me este equivoco personagem, n'um francez
do Pireu, _ce n'est qu'une infecte canaille_!

O infecto canalha eras tu, livido grego!

 evidente que o que tornou Arabi mais popular no Egypto, foi a sua
hostilidade aos estrangeiros. _O Egypto para os egypcios!_ Esta phrase,
todo um programma, calou fundo no animo do povo inteiro.

O Egypto para os egypcios--no para os empregados estrangeiros, nem para
os agiotas estrangeiros...

Ah! esta questo dos credores! A famosa questo da divida egypcia! Em
que gastou Ismail-Pach esses centenares de milhes que a Europa lhe
emprestou, e que o pobre fellah est pagando? Em primeiro logar, na
realisao de uma ida economica--o converter o Egypto, que  um paiz
agricola, n'uma nao industrial. O Egypto produzia o assucar--porque o
no refinaria? Possuia o algodo--porque o no teceria? E ahi comeou, 
fora de milhes, a cobrir as margens do Nilo d'essas colossaes
fabricas, de que hoje s restam ruinas;--ruinas de ferro enferrujado e
de madeira podre, to miseraveis e to tristes, ao lado das bellas
ruinas graniticas dos templos pharaonicos, representando, como ellas, a
servido de um povo, mas, pela sua fealdade, no podendo ao menos
servir, como ellas, nem para assumpto de uma aquarella...

A outra causa da ruina do Khediva foi a sua prodigalidade. Quem no
conhece essa lenda illustre? Quem se no lembra das festas do canal de
Suez? Ahi cada verba se contou por milhes. Dois milhes para a
illuminao do Cairo. Quatro milhes para o banquete de Ismailia.
Despezas com os dois mil convidados durante quinze dias no Cairo e no
Canal--setenta milhes!... Para o champagne bebido n'essas semanas de
bambocha--dous milhes! O fellah pagava.

Eh! E eu que estou aqui a fallar--tambem o bebi, esse champagne que era
no fundo o suor do fellah espumante e assucarado! Tambem eu fui hospede
de Ismail-Pach,  custa do fellah! Tambem eu... Calemo-nos, cubramos a
fronte de cinzas, imploremos o perdo do fellah!


O resultado d'estas fantasias industriaes, d'estes luxos de Salomo, foi
que o Egypto se achou devendo  Europa centenares de milhes, por que
pagava um juro de _sete por cento_, e, como burgueza prudente que zela
os seus interesses, a Europa tinha pouco a pouco tomado conta da
administrao do Egypto...

Quando Arabi quiz modificar este systema, que convertia o povo egypcio
n'uma horda de servos trabalhando para os financeiros de Pariz e
Londres--as esquadras de Frana e Inglaterra appareceram logo, pedindo o
desterro de Arabi, e o licenceamento do exercito, que era o instrumento
e a fora do partido nacional. Os arabes viram n'isto um odioso abuso da
fora, a Inglaterra e a Frana querendo manter  bala os interesses dos
possuidores dos titulos da divida egypcia e os privilegios dos intrusos.

Desde esse momento Arabi tornou-se um libertador; e o Khediva, que as
esquadras vinham proteger contra Arabi, passou a ser o renegado, o traidor.

Esta era a situao no dia 11 de junho. Alexandria tornara-se uma
fornalha de excitao. Nas mesquitas prgava-se com furor a cruzada
contra o christo: nos bazares fallava-se do estrangeiro como do co
maldito, da ave de rapina, peior que o gafanhoto que devora a seara nos
campos ferteis do Nilo; e, ou fsse o fanatismo que despertasse, ou
fsse a miseria que se queria vingar--todo o bom mussulmano se armava.

N'estas circumstancias, de uma chufa de botequim pde nascer uma guerra
de raas. E, pouco mais ou menos, assim succedeu. Na manh do dia 11, na
rua das Irms, uma das mais ricas do bairro europeu, um inglez, por um
velho habito, deu chicotadas n'um arabe; mas, contra todas as tradies,
o arabe replicou com uma cacetada. O inglez fez fogo com um revlver.
D'ahi a pouco o conflicto entre europeus e arabes, em pleno furor,
tumultuava por todo o bairro... Isto durou cinco horas--at que, por
ordens telegraphadas do Cairo, a tropa, at ahi neutral, acalmou as
ruas. E o resultado, bem inesperado, mas comprehensivel, desde que se
sabe que os arabes s tinham cacetes e que os europeus tinham
carabinas--foi este: perto de cem europeus mortos, mais de trezentos
arabes dizimados. Os jornaes tm chamado a isto o _massacre dos
christos_: eu no quero ser por modo algum desagradavel aos meus irmos
em Christo, mas lembro respeitosamente que isto se chame a _matana dos
mussulmanos_.




IV

A fuga dos europeus.--O grande sonho inglez.--O casus belli.--A
vespera do bombardeamento.


Esta _matana de christos_--para continuarmos a dar-lhe a sua alcunha
diplomatica--puxou bruscamente a atteno do mundo que l jornaes para o
Egypto, e por isso devem ahi ter presentes e vivos--sem que se torne
necessario o rememoral-os, detalhe a detalhe--todos os episodios que
n'uma semana se desencadearam uns sobre os outros, com uma barafunda de
melodrama: a indignao excessiva e tumultuosa da Europa, excitada pelo
clamor e pelos gritos da imprensa ingleza; o desordenado panico que se
apossou dos europeus residentes no Egypto; e o facto, estranho mesmo
n'essa terra de classicos exodos, de uma colonia de mais de _cem mil_
almas abandonando de repente o solo, onde, desde geraes se
estabelecera, deixando occupaes, interesses, empregos, casa e fazenda,
precipitando-se apavorada para os caes de embarque, apinhando-se em
paquetes, em navios de carga, em barcaas, em qualquer cousa que pudesse
fluctuar na agua, e fugir da terra funesta, pagando a peso de ouro o
direito de se agachar n'um buraco de poro; a maneira magistral como a
Inglaterra, pelos officiaes da sua armada, organisou e policiou esta
nova fuga dos hebreus; emfim, a chegada a Alexandria do Khediva, que
perdera toda a auctoridade no Cairo, e colhia a opportunidade de vir
abrigar os restos esfrangalhados da sua realeza sob os canhes do
almirante Seymour.

Arabi-pach, que se tornra, de facto, dictador, correu tambem a
Alexandria--e o seu primeiro passo foi estabelecer tribunaes marciaes,
para julgarem os _massacradores_ do dia 11.

Note-se que se no tratava, nem por sombras, de punir os europeus que
tinham mandado _tresentos_ mussulmanos d'esta terra de miserias para o
paraiso de Allah; mas smente os mussulmanos suspeitos de terem posto
mos violentas sobre christos. Ainda assim, os jornaes inglezes
bradaram logo que no se podia ter confiana na justia, na
imparcialidade dos magistrados egypcios, to hostis ao estrangeiro como
 populaa--e que taes julgamentos no passavam d'uma fara, onde os
rus, que se mostravam um momento  Europa carregados de ferros
postios, eram depois, por traz dos bastidores, acclamados como bons
patriotas.

Arabi-pach propoz ento que esses tribunaes se compuzessem de juizes
arabes e de officiaes inglezes. Isto indicava um desejo vivo, quasi uma
sofreguido de justia. E, com effeito, se o partido nacional agora todo
poderoso, se no mostrasse severo--corria o perigo de passar por
cumplice; e se as suas refrmas tinham j inspirado tanta antipathia 
Europa--o que seria se a elle se pudessem plausivelmente attribuir taes
attentados?

De resto, para um mussulmano orthodoxo e fino como Arabi, toda a
violencia contra o estrangeiro, contra o hospede, constitue a mais negra
violao da lei santa. Arabi era sincero. Mas a Inglaterra no acceitou
as suas propostas...

A Inglaterra no acceitou. A Inglaterra estava armada a bordo dos seus
couraados. E, todavia, mais que nenhuma outra nao ella soffrera com
os tumultos d'Alexandria: o seu consul, brutalmente espancado, achava-se
 morte; alguns dos officiaes da esquadra tinham recebido no uniforme,
que  o orgulho da Gr-Bretanha, a lama e as pedradas da populaa
egypcia; a maior parte dos europeus assassinados eram de nacionalidade
ingleza; contra a Inglaterra se prgara a guerra nas mesquitas, nos
bazares, e at sob a tenda beduina...

Mas a Inglaterra, generosa e paternal, queria esquecer essas injurias.
Pudera!

 que no lhe convinha reconhecer as atrocidades do dia 11 como um mero
e casual episodio de fanatismo mussulmano, a que algumas grilhetas e
algumas cordas de forca poriam definitivamente termo; nem lhe convinha
descer dos seus couraados unicamente para ir a um tribunal ajudar a
sentenciar dez ou doze facinoras.

O que  Inglaterra convinha, era attribuir a este conflicto local a
magnitude de uma anarchia nacional, e offerecer ou impor o seu
prestimo--no para castigar os tumultos de um bairro, mas para pacificar
todo um paiz em desordem. E assim ella rejubilava com a chegada d'esse
dia to appetecido, to pacientemente esperado desde o comeo do seculo,
to anciosamente espiado desde a abertura do canal de Suez, em que teria
emfim um pretexto para assentar na terra do Egypto o seu p de ferro,
essa enorme pata anglo-saxonia, que, uma vez pousada sobre territorio
alheio, seja um rochedo como Gibraltar, uma ponta de areia como Aden,
uma ilha como Malta, ou todo um mundo como a India--nenhuma fora humana
pde jmais arredar ou mover.

J se no tratava de libertar o Khediva coacto, de defender as
algibeiras dos portadores do emprestimo egypcio. Um interessse mais
alto, ligado com os destinos do Imperio, levantava-se, dominava tudo.

_O Egypto estava em anarchia_: logo competia  Inglaterra, paladino da
civilisao, restabelecer l a ordem, impedil-o de recahir no estado
barbaro.

_O Egypto estava em anarchia_: logo competia  Inglaterra, como grande
potencia oriental, defender essa parte preciosa da terra egypcia--o
canal de Suez, e evitar que elle cahisse nas mos de Arabi ou de outro
dictador mussulmano, hostil aos beneficios da civilisao.

 o que pouco mais ou menos respondia a Inglaterra, e bem alto, para que
o mundo ouvisse--quando Arabi-pach lhe propoz uma alliana judicial
para punir o crime mussulmano do dia 11.

--No, dizia John Bull, no se trata do dia 11! Esqueamos o dia 11.
Esqueamol-o, como se elle fosse apenas o dia 7. A questo  outra. _O
Egypto est em anarchia._  necessario salvar a civilisao!

E estas nobres palavras significavam, despidas dos seus atavios
humanitarios, que a Inglaterra, sob o pretexto de pacificar o Egypto,
desembarcaria em Alexandria, occuparia por motivo de operaes militares
Port-Said e Suez, as duas portas do canal, e depois--depois nunca mais,
n'esses pontos estrategicos do caminho da India, se arriaria a bandeira
ingleza!

E, feito isto, ficava realisado o grande sonho britannico:--posse
absoluta da estrada das Indias; John Bull fazendo sentinella a todas as
portas succesivas que conduzem ao seu imperio do Oriente:  entrada do
Mediterraneo, Gibraltrar e o seu rochedo inexpugnavel; no Mediterraneo,
Malta e Chypre, duas ilhas, dois collossaes depositos de guerra: 
entrada do canal, Port-Said; ao fim do canal e  bocca do Mar Vermelho,
Suez;  beira do Golfo Persico, Aden; e d'ahi por deante as suas
esquadras varrendo os mares...

Deante d'esta esplendida opportunidade se achou a Inglaterra, depois das
carnificinas de Alexandria; e, tendo logo declarado _officialmente_ o
Egypto em anarchia, sem perda de um momento, comeou a armar-se.

E, no meio de tudo isto--a Europa? Oh! a Inglaterra convidava, com
bellos ademanes de desinteresse, a Europa a partilhar com ella a honra
de pacificar o Egypto! Mas sabia bem que nenhuma das potencias moveria
um soldado: nem mesmo a Frana, que tinha uma frota na bahia de
Alexandria e collaborra nas manifestaes platonicas; a Frana,
governada por uma democracia burgueza que enriquece, e tornada toda ella
uma vasta casa de negocio, no quereria por cousa alguma perturbar
aquella paz tepida e doce em que amadurece o Milho.

Alm disso, as potencias j tinham resalvado a sua dignidade,
sentando-se em torno da mesa verde da conferencia,  beira das aguas
luminosas do Bosphoro, meditando com a cabea entre os punhos a soluo
da questo egypcia. E, emquanto ao resto, estavam-se observando, armadas
at os dentes, desconfiadas, ciumentas, odiando-se, mas immobilisadas
reciprocamente pela propria magnitude dos seus armamentos.

A Frana receia a Allemanha; a Turquia teme a Russia; a Austria est
contida por ambas; a Italia necessita a benevolencia de todas; e cada
uma por seu turno treme do snr. de Bismarck, o hediondo papo, o Jupiter
trovejante do Olympo diplomatico, que, no seu retiro de Varzin,
torturado por toda a sorte de males, passa parte do tempo sob a
influencia da morphina...

De resto, que todas appeteciam os despojos do Egypto, s o pde duvidar
quem ignore os instinctos de pilhagem, de gatunice, de pirataria, que
alberga sempre a alma d'um povo civilisado; mas nenhuma das potencias ,
como a Inglaterra, uma ilha cercada d'um mar agitado, onde se move a
maior frota da terra; e, apertadas no estreito continente, hombro contra
hombro e espada contra espada, nenhuma dellas ousaria dar um passo para
o lado do Egypto, com receio que o vizinho lhe saltasse s guellas.
Limitavam-se, por isso, cheias de rancor, a trocar phrases de
diplomatica doura, sentadas  mesa da _conferencia_.

Quando, deante d'uma casa fechada, os que lhe appetecem as riquezas,
discutem, de penna na mo, a melhor maneira de l entrar--a vantagem
pertence toda quelle que, em logar d'uma penna, se muniu d'um machado e
atira de subito a primeira machadada  porta. Foi o que fez a
Inglaterra. Emquanto os outros faziam planos _pro-forma_ em cima d'uma
carteira--ella fez fogo sobre Alexandria.

Smente no se pde atacar uma cidade inoffensiva sem um pretexto. E a
Inglaterra foi,  falta de outro melhor, forada a apresentar um to
mu, que, como dizia a _Associao dos Positivistas Inglezes_, no seu
protesto contra a invaso do Egypto, a sua puerilidade s consegue
augmentar a sua immoralidade.

Perante os armamentos da Inglaterra, Arabi-pach, se lhe no
comprehendia as intenes espoliadoras, devia pelo menos concluir que
era contra elle, contra o partido que elle dirigia, e contra as idas
que elle encarnava, que a Inglaterra se estava preparando; e, muito
naturalmente, na espectativa de um ataque, organisou a sua defesa,
artilhando os fortes de Alexandria, e erguendo baterias novas pela costa.

Foi contra isto que a Inglaterra protestou; e foi d'isto que fez um
_casus belli_--declarando que, se as obras dos fortes no cessassem,
ella destruiria os fortes!... Sem estar em guerra com o Egypto, ella
considerava-se no direito de reunir deante de Alexandria uma frota
ameaadora; mas no admittia que as auctoridades de Alexandria
concertassem sequer as brechas das velhas fortificaes de Mehemet-Ali!

E que explicaes estupendas o snr. Gladstone dava  Europa para
justificar o _casus belli_! As baterias que Arabi ergue (dizia elle), os
novos canhes que monta, _pem em perigo os couraados inglezes_! E os
couraados no punham em perigo os fortes? Mas ao lado da esquadra
ingleza estavam navios de guerra francezes, allemes, italianos, gregos,
austriacos--to expostos s balas de Arabi como os que hasteavam o
pavilho britannico: e esses no se julgavam _em perigo_!

Que diria a Inglaterra se o commandante de algum dos couraados
francezes ou allemes, que por vezes vm ancorar nas aguas de Portsmouth
ou de Southampton--mandasse de repente prohibir ao governador de uma
d'essas praas a continuao das obras de defesa que ahi se vo
incessantemente aperfeioando, sob o pretexto de que taes baterias
_poderiam fazer mal_ ao navio de seu commando?... Com tal precedente, os
almirantes inglezes, que honram frequentemente o humilde porto de Lisboa
com a presena dos seus pavilhes--estariam auctorisados a exigir a
destruio da torre de S. Julio, do Bugio e de Belm! Dir-se-hia que
no  de prever que o portuguez, pacato e bonacheiro, faa fogo--muito
menos sobre couraados inglezes. De accordo. Mas que ganharia
Arabi-pach em mandar de surpreza algumas balas  esquadra ingleza--e
portanto s outras que estavam no mesmo ancoradouro--seno o attrahir
sobre si, e o seu partido, e o seu paiz, a pavorosa vingana da Europa
inteira, injuriada em todos os seus pavilhes?

Arabi fez uma cousa fina: cedeu, promettendo interromper os trabalhos de
defesa. E a Inglaterra ficou desapontada. Esta submisso de Arabi
desmanchava o seu engenhoso plano.

Alguns jornaes mais cynicos e impacientes chegavam a aconselhar que se
no respeitasse a palavra d'um vil mussulmano--e que se fosse
_bombardeando_! O trabalho ento da frota foi vigiar incessantemente as
fortificaes, na esperana de descobrir algum sapador, d'enxada ao
hombro, que desmentisse a promessa d'Arabi. De noite, os couraados
projectavam sobre a costa longos e vivos raios de luz electrica,
movendo-os lentamente ao longo das baterias, pesquizando anciosamente os
menores recantos, procurando o mais leve vestigio de trabalho--fosse
elle um cesto de pedras esquecido; e assim foi que uma noite--noite
venturosa para o governo do snr. Gladstone!--a esquadra descobriu dois
soldados limpando um velho canho! Que allivio para a Inglaterra!
Immediatamente o almirante Seymour mandou este _ultimatum_ a
Toulba-pach, governador da cidade:--dentro em vinte e quatro horas os
fortes deveriam ser entregues s tropas inglezas, ou toda a linha de
couraados abriria fogo sobre Alexandria. A isto, realmente, s se pde
responder a grande palavra de Cambronne em Waterloo.

Lamento que Arabi a no dissesse: era a segunda vez na historia que John
Bull a receberia em plena face.

A vespera do bombardeamento foi dramatica. O almirante Seymour fez sahir
da bahia todos os navios mercantes; e, depois, com a usual etiqueta,
convidou os navios de guerra de outras naes a fazerem-se ao largo,
levando para fra da linha de fogo a neutralidade das suas bandeiras.
Essa longa procisso de couraados de toda a Europa, deixando lentamente
as aguas da Alexandria, para que a Inglaterra pudesse livremente
commetter o seu attentado-- descripta pelos correspondentes inglezes
como cheia de solemnidade e de ceremonial. As salvas succediam-se; uns
aos outros cortejavam-se os pavilhes dos almirantes. Os ultimos a sahir
foram os navios francezes, os alliados na _manifestao_, que, honra
lhes seja, no quizeram ser alliados no crime:--e a tricolor afastou-se
tambem, saudada pelo almirante Seymour, entre os _hurrahs_ de despedida
da marinhagem e o estridor da _Marselhesa_. A tarde estava bella; tudo
era luz na bahia; os minaretes d'Alexandria branquejavam no azul...
Magnifico espectaculo, sem duvida:--smente que pensariam d'elle os
milhares de pobres arabes, de mulheres e de creanas, que o contemplavam
das alturas da cidade, e sobre os quaes ia cahir no dia seguinte bala,
metralha e bomba?

Por fim, a noite desceu e estrellou-se;  beira da agua calma luziam as
luzes d'Alexandria; tudo ficou em silencio na bahia.

Estavam a ss, frente a frente, sob a paz dos ceus, uma grande esquadra
ingleza e a cidade inoffensiva que ella, na madrugada seguinte, para
satisfazer a sofreguido mercantil de um povo de lojistas, ia friamente
arrasar.




V

Depois do bombardeamento.--Os incendios.--As responsabilidades.--Uma
Alexandria ingleza.--A invaso.--A attitude da Europa.


O almirante Seymour, dias antes, tinha declarado que em duas breves
horas desmantelaria os fortes de Alexandria. Ao cabo, porm, de nove
compridas horas ainda no fizera calar as baterias egypcias; e ainda
justamente uma bomba vinha escavacar a camara do commandante do
_Inflexivel_.

Sir Beauchamp Seymour reconheceu, nos seus despachos para o almirantado,
que os melhores artilheiros da Europa se poderiam orgulhar de uma to
bella resistencia. Mas nem coragem, nem reductos, nem muralhas de
granito prevalecem contra esses negros monstros que desfeiam os mares--o
_Monarcha_, o _Alexandra_, o _Soberbo_, o _Sulto_, o _Invencivel_, o
_Minotauro_, e tantos outros que l estavam, movedios castellos de
ferro, servidos pelas foras combinadas do vapor, da hydraulica, da
electricidade, devastadores como um cataclysmo e exactos como uma sciencia.

Pobres fortalezas de Mehemet-Ali! Foi a velha fabula da panella de barro
contra que tombou a panella de bronze. Ao anoitecer, eram apenas montes
de ruinas fumegando em silencio...

Estava consummada a faanha! Na bahia, agora, tudo cahira n'uma grande
paz; a noite descera calma e escura; os enormes couraados repousavam;
da cidade vencida no vinha o menor ruido; s n'um ponto de terra o
palacio de Rasel-tin ardia ao abandono. Foi ento que o eloquente
correspondente do _Standard_ telegrahou para o seu jornal esta phrase
que merece fama:--_A situao no pde ser mais satisfactoria!_

Pelo meio da noite, porm, da parte de Alexandria, onde ficava a _Praa
dos Consules_, comeou a erguer-se um vasto claro. Alli, evidentemente,
havia um incendio. Mas como? Porque?

O almirante Seymour lavaria d'ahi as suas mos--se tivesse a bordo a
bacia de Poncio Pilatos. Elle concentrra escrupulosamente o seu fogo
sobre os fortes: uma ou outra bomba poderia ter cahido nos bairros
arabes--e nada mais legitimo, nem de mais salutar terror; mas a parte
europa de Alexandria fra poupada... E todavia, era l que o incendio
se estendia avermelhando, aquecendo o ceu; e de outros pontos visinhos
iam subindo na noite altas labaredas. Diabo! A situao j no era to
satisfactoria...

Ao outro dia houve um tempo muito nublado, com um mar muito forte. Os
couraados, por precauo, fizeram-se ao largo. Quando, horas depois,
vieram retomar as suas posies de combate, Alexandria, deante d'elles,
ardia toda como uma monstruosa fogueira. Positivammente, no era nada
satisfactoria a situao!

No era. Arabi-pach abandonra Alexandria, levando o grosso do
exercito. E a populao mussulmana, enfurecida por nove horas de
bombardeamento, sem policia para a conter, com os _ulemas_ a excital-a,
tomada da cobia da pilhagem, e inflammada pela furia das represalias,
correra aos bairros europeus,--e incendiou, saqueou, matou, destruiu;
matou pela raiva de matar, porque at pobres cavallos de carruagem
appareceram esquartejados; destruiu pela raiva de destruir, porque se
acharam nas ruas, aos pedaos, vestidos de senhoras, relogios de sala e
oculos de theatro...

Ferocidades de fanatismo, que se arremessa n'uma vingana indiscriminada
sobre tudo o que lhe represente a raa, os costumes, as idas que elle
odeia--sobre os homens e sobre os espelhos. Isto no se d s em paiz
mussulmano. Sempre que os parizienses invadiam as Tulherias, rasgavam 
ponta de sabre o setim das poltronas...

Collocou-se a populao de Alexandria, por taes excessos, fra da
humanidade? Os inglezes dizem que sim; eu digo que ns teriamos feito o
mesmo, ns europeus, christos e podres de civilisao. Se, quando os
allemes estavam bombardeando Pariz--os parizienses vissem no centro da
sua cidade um bairro exclusivamente allemo, compacto, monumental,
luxuoso, erguido pelo dinheiro que o allemo ganhra a explorar a
Frana,--resistiriam os parizienses, os mais civilisados dos mortaes, a
besuntal-o de petroleo e fazel-o flammejar por uma bella noite de inverno?

A resposta  facil, lembrando-nos que, quando por seu turno o snr.
Thiers, esse homunculo de estado, bombardeou Pariz, os parizienses
apressaram-se a destruir o palacete do snr. Thiers.

Foi Arabi que ordenou o incendio de Alexandria? No, evidentemente.
Arabi no  um patriota selvagem, do typo d'esse Rostopchin que queimou
Moscou:  um fellah fino e sagaz, que sabe que na Europa, na Inglaterra
sobretudo, onde affectamos todos uma sensibilidade humanitaria, nada
desacredita mais que uma fria crueldade. Basta observar a attitude
polida, quasi paternal que elle toma com os prisioneiros inglezes--o
guarda-marinha Chair, por exemplo.

Quando este official foi levado ao acampamento arabe, Arabi disse-lhe
logo, depois d'um _shake-hands_.

--Escreva a sua me, conte-lhe que est entre mos leaes, e tire-a
d'inquietaes...

Isto era de certo sincero--mas sobre tudo habil: e uma tal palavra voou
direita ao corao de todas as mes inglezas. Desde os conflictos
d'Alexandria, o empenho d'Arabi tem sido proteger os europeus que ainda
restam nas villas do interior. Os _cadis_ que no evitaram o massacre
dos empregados do caminho de ferro do Delta, foram decapitados. A elle
se deve a tranquillidade do Cairo, onde existe uma enorme massa de
propriedades e riquezas europas. Que ganharia Arabi em destruir esta
prospera cidade egypcia, no comeo da campanha e com o seu exercito
intacto? Apenas a fama d'um monstro boal.

 Inglaterra cabe a responsabilidade da catastrophe. As bombas do
almirante talvez, com effeito, no tivessem arrasado mais que alguns
casebres arabes; mas  imprevidencia do governo se deve a ruina
d'Alexandria.

Desde o meiado de junho, o mais experiente, mais auctorisado dos seus
agentes diplomaticos, o snr. E. Malet, consul geral do Egypto, no
cessou de bradar--que se o bombardeamento era inevitavel, Sir Beauchamp
Seymour devia ter tropas de desembarque, para occupar a cidade, apenas
os fortes fossem destruidos, e impedir assim que, no caso provavel de
Arabi se retirar para o interior, ella ficasse  merc d'uma plebe
semi-barbara...

Nada d'isto se fez.

Sir Beauchamp Seymour bombardeou, arrasou, repelliu virtualmente
d'Alexandria a Arabi, a unica fora que continha uma populaa de cem mil
fanaticos--e, depois, ficou a bordo do seu couraado, vendo
tranquillamente arder, deante de si, uma das mais ricas cidades do
Mediterraneo.

Por outro lado, a quem aproveitava o incendio?  Inglaterra. O pretexto
de que os fortes _punham em perigo os couraados britannicos_, s a
auctorisava, perante os escrupulos da Europa, a destruir os fortes, no
a occupar a cidade. Agora, porm, que ella estava em chammas, abandonada
 anarchia,  pilhagem, ao ataque das hordas beduinas que corriam do
deserto--agora ella tinha o direito--mais, ella tinha o dever!--de
desembarcar e ir salvar de uma total aniquilao tanta riqueza, to
esplendido centro de commercio!...

Generosa Inglaterra! E desembarcou logo, aquartelou tropa, plantou
bandeira. Tinha deante de si um monte de ruinas, e em poucos dias foi
dando frma a uma Alexandria nova, j com feio ingleza e administrada
 ingleza.

Os incendios foram dominados; as ruas desentulhadas; estabeleceu-se uma
policia terrivel, que executava summariamente os ladres e os
incendiarios; abasteceu-se a cidade: a alfandega reabriu as portas; em
substituio das lojas destruidas, armaram-se barraces de venda; o
machinismo judicial foi posto em movimento; reparou-se a fabrica do gaz,
a cidade foi reilluminada; os bancos voltaram a funccionar.

E, como era necessaria uma auctoridade, em nome de quem se reorganisasse
a vida municipal, os inglezes, que apenas esto alli (diziam elles) como
um corpo de policia, foram buscar o Khediva a uma casa dos arredores,
onde elle se refugiara durante o bombardeamento, e installaram-n'o
solemnemente no palacio de Ras-el-tin, palacio meio ardido, onde elle 
uma auctoridade meio morta!...


Desde este momento, a situao tornou-se muito definida, muito simples.
Os inglezes possuiam, governavam Alexandria, to naturalmente como se
ella estivesse situada no condado de Yorkshire; e de fronte
d'Alexandria, n'essa especie de isthmo arenoso que a liga  terra do
Delta, estava Arabi n'um acampamento entrincheirado, governando d'ahi
todo o valle do Nilo e o deserto at o mar. Os inglezes recebiam
incessantes reforos de casa e da India. Arabi chamava  guerra contra
os inglezes todo o povo fellah. A Inglaterra preparava uma invaso.
Arabi organisava uma grande defesa nacional. Nada mais claro. A questo
 entre a Inglaterra, procurando estabelecer um protectorado sobre o
Egypto, arrancar-lhe as cidades estrategicas que dominam o canal, e
Arabi-pach, um patriota, que quer o Egypto para os egypcios, que receia
a proteco do estrangeiro como a peior desgraa de um paiz fraco, e que
entende que, pelo facto de que Alexandria, Port-Sad e Suez se acham
desgraadamente no caminho da India, no  motivo para que se tornem
guarnies inglezas. E dos dous lados, grande enthusiasmo.

Em Londres, onde acabou a _season_ e comea a monotonia das praias de
banhos, o partir para conquistar o Egypto passou a considerar-se uma
feliz aventura. Se o ministerio da guerra o consentisse--toda a mocidade
de ouro, ou apenas de lato dourado, se alistaria, porque  do mais
requintado _chic_ ir dar cabo de Arabi!

O duque de Connaugth, um dos filhos de S. M. a Rainha, faz parte da
expedio, e o duque de Teck, seu cunhado, no sendo militar, partiu,
diz-se, como simples empregado do correio. Os officiaes dos regimentos
de guardas, essa pura nata da aristocracia e flr da finana, tiveram a
ventura de vr os seus luxuosos regimentos, de ornamentao monarchica,
expedidos para o Egypto; smente este natural prazer foi em parte
estragado pela severidade do ministerio da guerra, que, como se tratava
de uma campanha e no de um torneio, no consentiu que esses
gentis-homens fssem seguidos por equipagens, creados de librs, tendas
de luxo e caixas de vinho de Champagne.

Um d'estes officiaes exprimiu alto a sua indignao, porque o
estado-maior s lhe consente tres cavallos de sella, dous creados de
quarto e cinco malas de bagagem!

Por outro lado, ao comprido do Nilo toda a populao fellah se declarou
por Arabi; como por elle se declararam as classes lettradas, as
mesquitas, os _ulemas_, os _coptas_, os proprios principes parentes do
Khediva. Os _mudirs_, governadores de provincias, pagam-lhe a elle os
impostos. Os _scheiks_ do deserto mandam-lhe a sua cavallaria.

E este ardor  tanto maior, quanto Arabi-pach foi de ha muito
prophetisado; j a sua inesperada entrada no governo se considerou um
advento divino; e este rebelde (como outros rebeldes que to
gloriosamente fizeram o seu caminho na terra e no ceu)  Messias!

Uma antiga prophecia mussulmana annuncia que no seculo decimo terceiro
da Hegira nascer  beira de um grande rio um homem de raa vil, por
nome Ahmet, que se revoltar, e restaurar o esplendor do Islam; ora, os
arabes esto no sculo XIII da Hegira, e Arabi, cujo nome  Ahmet, cuja
origem  _fellahina_, tendo nascido n'uma alda  margem do Nilo,
revoltou-se contra o seu califa. Assim, elle reune o duplo prestigio de
um Spartacus e de um Christo.

Concentrada a questo entre uma poderosa nao invasora e um patriota
que defende o seu solo--a Europa tomou logo a sua tradicional attitude:
isto , murmurou algumas palavras de branda admoestao, e depois recuou
para longe, a observar como um brao forte sabe usar da sua fora, a
estudar como se consuma a espoliao de um fraco.

Nos ultimos quinze annos a Prussia roubou a Dinamarca, e depois foi pela
Allemanha saqueando reinos e gros ducados; em seguida, desmembrou a
Frana; mais tarde a Russia espatifou a Turquia; ha dous annos,
subitamente, a Republica Franceza cahiu sobre Tunis, e empolgou esse
desventurado estado barbaresco. Em cada um d'estes casos a Europa
comportou-se como um coro das operas d'antiga escola, quando membrudo
barytono, ahi pelo quarto acto, erguia o ferro sobre o tenor gentil e
magrizela: o cro adeanta-se, modula uma larga phrase, agita os braos
em cadencia, faz o commentario amargo da aco, brada talvez:
_suspendei_! Depois, afastando-se em grande compostura, deixa  bocca da
scena o tyranno barbudo sondando tranquillamente com a ponta da lamina o
interior do gal...


No fallemos mais na Europa. No ha, nunca houve _Europa_, no sentido
que esta palavra tem em diplomacia. Ha hoje apenas um grande pinhal de
Azambuja, onde rondam meliantes cobertos de ferro, que se odeiam uns aos
outros, tremem uns dos outros, e, por um accordo tacito, permittem que
cada um por seu turno se adeante--e assalte algum pobre diabo que vegeta
ou trabalha ao canto de seu cerrado. Nas largas e bem traadas estradas
do Direito Internacional, allumiadas por Ortolan e outros lumes,
rouba-se de carabina alta, e rompem a cada momento brados de povos
assassinados. A Europa, como os campos de corridas em Inglaterra, devia
estar coberta d'estes avisos em lettras gordas: _Beware of
pick-pockets!_ Cautela com os salteadores.

A pequena propriedade politica tende a acabar. Toda a terra vae em breve
reunir-se nas mos de quatro ou cinco grandes proprietarios... Hontem,
era Tunis--porque a Frana necessita proteger a fronteira da Argelia.
Hoje,  o Egypto--porque a Inglaterra precisa assegurar o caminho da
India. Amanh, ser a Hollanda--porque a Allemanha no pde viver sem
colonias. Depois, a Servia--por motivos que a seu tempo a Austria dir.
Mais tarde, a Rumania--porque a Russia  forte. Depois a Belgica--porque
sim. Depois...

Este assumpto  lugubre. Voltemos ao valle do Nilo!




VI

Situao dos exercitos.--O Nilo, a secca, os areaes.--Os perigos de
um Jehad.--O septicismo mussulmano.--O mundo ingleza-se.--Filaucias
de John Bull.


  Postos esto frente a frente
  Os dois valorosos campos...

Esta melancolica chacara que, se bem me recordo, chora as desgraas de
Alcacer-Kibir--serve para pintar graphicamente a situao estrategica de
inglezes e egypcios, desde que se abriu a campanha.

Para comprehenderem bem, imaginem um grande A. O triangulo interno da
lettra  o Delta--essa terra amada dos deuses, to rica, que ella, s
por si, outr'ora alimentou o imperio romano; ao alto da lettra, na
ponta, est o Cairo--de sorte que um poeta persa poude dizer gentilmente
que o Delta  um leque verde fechando sobre um boto de diamante, que se
chama o Cairo.  base da perna direita do A fica Alexandria, e ahi
permanece uma parte do exercito inglez, defendido pelas fortificaes de
Ramleh--e tendo deante de si, a tiro de pea, o grande campo
entrincheirado de Arabi-pach, que se chama Kraf-Daonar, contendo 18 mil
egypcios, enormes parques de artilharia, e fechando a marcha pelo Delta.
A outra parte do exercito inglez, commandada pelo proprio general em
chefe Sir Garnet Wolseley, dirigiu-se por mar  base da perna esquerda
do A, que , pouco mais ou menos, Ismailia, e d'ahi subiu por essa linha
at Kassassine, onde parou e se fortificou; achando-se igualmente a
pouca distancia, outro enorme campo entrincheirado, onde Arabi tem
quinze mil homens, que se chama Tel-el-Kebir. E estes quatro campos,
postos frente a frente, e observando-se, constituem at hoje a guerra do
Egypto.

Para chegar, pois, ao Cairo, seu objectivo militar e politico, Sir
Garnet precisa tomar as posies egypcias de Kraf-Daonar, se quizer ir
pelo Delta--e as de Tel-el-Kebir, se tentar avanar pelo deserto.

At hoje os quatro campos limitam-se a trocar entre si, em certas
escaramuas, algumas languidas balas. Os jornaes de Londres,
naturalmente, noticiam estes tiroteios de vanguarda com um tremendo
apparato de lettras de palmo, mappas lithographados e largos rufos de
prosa--fazendo maior alarido do que se tivesse sido pelejada de novo a
batalha de Waterloo; mas isto  simplesmente para promover a venda do
numero.

Os egypcios, entrincheirados, em seus campos contam com poderosos
alliados: do lado do Delta confiam no Nilo, o velho e bondoso Nilo, que
no poder deixar de ser fiel quelles que ha seculos nutre, e que,
dentro em pouco, inundando as terras do Delta; e ajudado pelos
engenheiros d'Arabi, que certamente obstruiro os canaes, ter
convertido n'um immenso estendal de lamas inatravessaveis esse caminho
do Cairo, o mais favoravel para os inglezes, pois seria como marchar
n'uma rica e infindavel granja, entre pomares, jardins, frescuras e
celleiros cheios... Do lado do deserto, os egypcios contam com o sol,
com a secca e com a areia. Pde-se imaginar o que soffrero essas tropas
do frio Norte, marchando em areaes abrasados n'uma reverberao de luz
que estonteia, sob um calor to torrido, que o _metal dos estribos
cresta os botins_, e tendo para beber s agua barrenta, que  necessario
ferver primeiro! J as insolaes, as dysenterias, a nostalgia, dizimam
os regimentos--e como o commissariado inglez, sempre mau, encontra aqui
difficuldades de transporte, as tropas de S. M. a Rainha Victoria _j
tem soffrido fome_! Ah! custa caro o caminho das Indias!

Alm d'estes alliados que elle possue na natureza, Arabi espera ainda
nas tribus beduinas, e n'essas hordas errantes d'arabes a cavallo que
esto chegando do lado de Tripoli a combater o _co estrangeiro_, e que,
se diz, constituem um reforo de trinta mil homens...

Por seu lado, os inglezes contam apenas comsigo. E isto no  pouco.
Como diz a sua celebre cano de guerra--_elles tm os navios, tm o
dinheiro, e tm os homens_. Tm tambem essas magnificas tropas indias,
que riem do sol, da secca, e das areias d'Africa. E isto levou Sir
Garnet a declarar que a campanha estaria finda no dia 15 de setembro. 
verdade que ns estamos a 7 de setembro, e elle, entrincheirado em
Kassassine, tendo deante de si a barreira formidavel de Tel-el-Kebir,
ainda est pedindo reforos. Mas isto prova s que esse raio de guerra,
tendo habitos differentes dos de Cesar, _chegou, viu, e reflectiu_.
Demos-lhe mais um mez; demos-lhe tres largamente; o certo ser que ao
fim d'este anno, Arabi, os seus campos, o seu exercito, a sua bella
aspirao a uma nacionalidade egypcia, tudo isso se ter esvaido--como
se esvae uma nuvem n'esse secco co africano.

Os inglezes podero soffrer revezes, perder milhares d'homens, gastar
milhes de libras; mas, tendo uma vez compromettida a honra da sua
bandeira, com um fim d'engrandecimento imperial, no embainharo a
espada antes de ter installado na cidadella do velho Cairo, ao som do
_God save the Queen_, um governador inglez.

Evidentemente o snr. Gladstone falla apenas de _restabelecer a ordem e
restaurar o Khediva_. Meras locues diplomaticas. O _Times_, que  o
verbo d'Inglaterra, esse falla, sem rebuo, em _protectorado_. E ha
muitos inglezes, ainda menos reservados que o _Times_, que dizem redonda
e seccamente--_conquista_.

Mesmo quando o snr. Gladstone, que  a seu modo um democrata dentro dos
limites do Evangelho, e o seu illustre collega Lord Granville, que  um
jurista e um diplomata, quizessem, em respeito ao liberalismo,  Europa,
ao direito internacional e a outras cousas vagas, deixar o Egypto
reorganisar-se a si mesmo--sahindo elles de l com as mos vasias,
depois de terem supprimido Arabi e o seu turbulento partido--a
Inglaterra inteira, em massa, protestaria contra este philosophico
desinteresse...

Ha alguem ahi assaz ingenuo para suppr que John Bull, essa torre de
senso pratico, consentiria em que se lhe dizime o exercito, em que se
lhe gaste o dinheiro como elle gasta a agua das fontes, em que se lhe
augmente o _income-tax_--s para que o Khediva, esse amavel moo,
continue a fumar o _narghil_ do poder sob as sombras dos jardins de
Choubra? John Bull no ficar satisfeito seno com este resultado
macisso e duradouro--um _Egypto inglez_, tendo dentro do seu territorio,
como um corredor de casa particular, o canal de Suez, caminho das
Indias. Um ministerio que, depois de ter enterrado nos areaes da Africa
milhes de libras e milhares de vidas, no lhe der isto--receber no
mesmo instante, na parte posterior da sua individualidade, o bico da
bota de John.

Mas se Arabi, derrotado, conseguir levar o Scherife de Mca a proclamar
contra a Inglaterra um _jehad_--que  uma guerra santa, uma crusada, um
levantamento em massa do mundo mussulmano?

Bons espiritos, em Inglaterra, dizem ser este um grande perigo--pois que
s na India ha cincoenta milhes de mahometanos. Eu no creio, porm,
que haja aqui motivo para John Bull empallidecer. E lamento-o! Porque 
d'um bello pittoresco essa ida d'um _jehad_ com o seu ceremonial--o
Scherife de Mca desenrolando o estandarte verde de Mahomet, os doutores
do Islam assignando todos o _fetva_ fatal, e logo, de cada canto da Asia
e d'Africa, a torrente dos crentes precipitando-se em nome de Allah!
Bello motivo d'ode--a que no corresponde nenhuma realidade...

Em primeiro logar, nunca se fez! O crescente tem sido muitas vezes
humilhado pela cruz, o Islam tem recebido na face a mo da Europa
christ, o Califa tem fallado repetidamente em proclamar um _jehad_--e
todavia o estandarte do Propheta continuou enrolado nos sacrarios de
Mca. E a minha opinio  que se elle fsse um dia desenrolado--haveria
apenas um pedao de panno verde mais, fluctuando ao vento do ceu.

E querem que lhes diga porque? Porque penso que os mussulmanos esto a
esta hora to scepticos como ns outros, os christos. Nas areias do
deserto, como nas nossas praas allumiadas a gaz--j no ser facil
encontrar mil homens de boa vontade, que peguem em armas em nome do seu
Deus.

De certo todo o bom mussulmano, a certas horas do dia, se orienta para o
lado de Mca e se prostra nas reverencias rituaes: pura questo de
educao, de boas maneiras, de habito, como ns outros tiramos o chapu
ao passar por um calvario de aldeia. Ou ento, superstio vaga, vago
terror nervoso, como o de certos philosophos e positivistas das minhas
relaes, que sempre, ao saltar da cama, fazem o signal da cruz.

Dentro do Alcoro v-se j o caso melancolico de uma lei divina ir
cahindo em desuso. O Sulto recebe a jantar os embaixadores, e bebe com
elles _champagne_: a policia do Cairo prende os santos _derviches_
vagabundos, e j no  respeitado o jejum do Ramazan.

Como o nosso Evangelho, a palavra de Mahomet vae-se tornando objecto de
poesia, de commentario, de controversia. Ha Renans no Islam; e o verbo
divino, uma vez analysado, deixa de inspirar a f que leva  morte.

O mundo mussulmano est no seu seculo decimo-terceiro, na sua plena meia
edade, e certamente ha muito beduino sob a tenda, to crente, to
penetrado de Mahomet, como aquelles coraes simples, que, ainda ha
pouco no deserto dos nossos claustros, choravam ao ler a paixo de
Jesus; mas no creio que mesmo esses patriarchas deixassem os seus
oasis, os seus rebanhos, os seus harens, para virem gratuitamente, sem
outro pret a no ser o sorriso das houris nos jardins do Paraizo,
supportar o fogo dos canhes Krupp. E emquanto s classes cultas de
Constantinopla, do Cairo, de Smyrna, de Tunis, essas acreditam tanto na
promessa das houris, como ns outros, aqui em Regent-Street, nas palmas
verdes da Bemaventurana e no cro dos Serafins...

Por todo o universo a religio desapparece das almas; e apenas l fica
essa vaga religiosidade, feita em parte do abalo que deu ao nosso
corao uma to longa sujeio ao sobrenatural, em parte do confuso
terror que impera n'este grande universo que nos cerca, to simples e
to mal comprehendido. N'este estado negativo, de passividade na duvida,
no se gera facilmente um impulso d'aco forte. Um _jehad_ no Islam 
to impraticavel--como uma cruzada no Christianismo. Pedro Ermita hoje
iria acabar na policia correcional, por perturbador da ordem publica e
das relaes internacionaes; e os fanaticos que, ainda hoje, s portas
das mesquitas do Cairo, bradam contra o _touriste_ estrangeiro as
injurias aconselhadas pela boa doutrina, so immediatamente levados para
a enxovia, por _fazerem alarido nas ruas_!

Mahomet, nas suas mesquitas, Christo, nas nossas capellas, vo
singularmente envelhecendo; o nosso Messias vae-se cobrindo pouco a
pouco do p que levanta o forte arado da razo, lavrando um mundo novo;
e o propheta do Islam, tendo perdido a fora da sua unidade, subdividido
em mil prophetas menores que presidem a mil seitas differentes, mal pde
resistir  lenta avanada da civilisao occidental. E com Christo e
Mahomet, que eram os principios militantes e vivos das suas religies,
desapparece o que n'essas religies havia de vivo e de militante. Resta
Deus, resta Allah. Sublimes abstraces, incapazes de inspirar amor ou
heroismo.

O que mais faz amar a Divindade  a quantidade de humanidade que ella
encerra. Clovis batia-se por Jesus, que tinha um peito de homem como o
d'elle, e n'esse peito humano cinco chagas abertas; Soliman morreria
feliz por Mahomet, que era como elle um guerreiro, e como elle amava a
belleza.

Mas quem se vae bater por Deus, por Allah, essas entidades to vastas
que enchem todo o ceu, e to pequenas que no bastam a satisfazer o
nosso corao, que nos so subalternas, porque so feitas  nossa
imagem, e so no fundo a nossa propria alma alargada at ao infinito com
todas as suas fraquezas?!

De resto,  possivel que eu esteja aqui attribuindo a fortes coraes de
Meca e do deserto os scepticismos litterarios de _Pall-Mall_ e do
_Boulevard de la Madeleine_. Que sabemos ns do que se passa dentro do
Islam? To pouco como os lettrados da mesquita d'El-Azhar sabem o que
por c vae dentro do nosso confuso catholicismo.


Mas, mesmo que se effectuasse um _jehad_, seria apenas motivo para a
Inglaterra gastar mais alguns milhes e sacrificar mais alguns
regimentos. Nem o Alcoro, nem o famoso estandarte verde, nem o proprio
Mahomet, que voltasse  terra a desfraldal-o, impediriam que John Bull
se estabelea no Egypto...

J l est, nunca mais de l sahir!

Esto em toda a parte, esses inglezes! O seculo XIX vae findando, e tudo
em torno de ns parece monotono e sombrio--porque o mundo se vae
tornando inglez. Por mais desconhecida e inedita nos mappas que seja a
aldeola onde se penetre, por mais perdido que se ache n'um obscuro
recanto do Universo o regato ao longo do qual se caminhe--encontra-se
sempre um inglez, um vestigio de vida ingleza!

Sempre um inglez! Inteiramente inglez, tal qual como sahiu da
Inglaterra, impermeavel s civilisaes alheias, atravessando religies,
habitos, artes culinarias differentes, sem que se modifique n'um s
ponto, n'uma s prega, n'uma s linha o seu prototypo britannico.
Hirtos, escarpados, talhados a pique, como as suas costas do mar, ahi
vo querendo encontrar por toda a parte o que deixaram em Regent-Street,
e esperando Pale-Ale e _roast-beef_ no deserto da Petrea; vestindo no
alto dos montes sobrecasaca preta ao domingo, em respeito  egreja
protestante, e escandalisados que os indigenas no faam o mesmo;
recebendo nos confins do mundo o seu _Times_ ou o seu _Standard_, e
formando a sua opinio, no pelo que vm ou ouvem ao redor de si, mas
pelo artigo escripto em Londres; impellindo sempre os passos para a
frente, mas com a alma voltada sempre para traz, para o _home_;
abominando tudo o que no  inglez, e pensando que as outras raas s
podem ser felizes possuindo as instituies, os habitos, as maneiras que
os fazem a elles felizes na sua ilha do Norte!

Estranha gente, para quem  fra de duvida que ninguem pde ser moral
sem ler a Biblia, ser forte sem jogar o _cricket_, e ser _gentleman_ sem
ser inglez!

E  isto que os torna detestados. Nunca se fundem, nunca se
_desinglezam_. Ha raas fluidas, como a franceza, a allem, que, sem
perderem os seus caracteres intrinsecos, tomam ao menos exteriormente a
forma da civilisao que momentaneamente as contm. O francez no
interior da Africa adora sem repugnancia o _manipano_, e na China usa
rabicho. O inglez cahe sobre as idas e as maneiras dos outros, como uma
massa de granito na agua: e alli fica pesando, com a sua Biblia, os seus
_clubs_, os seus _sports_, os seus prejuizos, a sua etiqueta, o seu
egoismo--tornando-se na circulao da vida alheia um encommodativo tropeo.

 por isso que, nos paizes onde vive ha seculos,  elle ainda o
_estrangeiro_.

Em toda a parte onde domine e impere, todo o seu esforo consiste em
reduzir as civilisaes estranhas ao typo da sua civilisao
anglo-saxonia. O mal no  grande quando elles operam sobre a Zululandia
e sobre a Cafraria, n'essas vastides da Terra Negra, onde o selvagem e
a sua cubata mal se distinguem das hervas e das rochas, e so meros
accessorios da paizagem: ahi encontram apenas uma materia bruta, onde
nenhuma anterior frma de belleza original se estraga, quando elles a
refundem para a fazer  sua imagem. Vestir o desventurado rei negro
Cetewayo, como elles agora fizeram, de coronel de infanteria, obrigar os
chefes dos Basutos a saber de cr os nomes da familia real ingleza, so
talvez actos de feroz despotismo, mas no deterioram nenhuma primitiva
originalidade de linha ou de ida. Para Cetewayo, que andava n, uma
fardeta, mesmo de infantaria, no faz seno vestil-o; e  indifferente
que dentro do craneo dos Basutos haja s formulas de invocao ao
_manipano_, ou tambem nomes de principes da casa d'Hanover.

Mas quando elles trabalham sobre antigas civilisaes como a da India,
onde existem artes, costumes, litteraturas, instituies, em que uma
grande raa pz toda a originalidade do seu genio--ento a politica
anglo-saxonia repete pouco mais ou menos o attentado sacrilego de quem
desmantellasse um templo buddhico, bello como um sonho de Buddha, para
lhe dar na sua reconstruo as linhas hediondas do _Stock Exchange_ de
Londres; ou ainda de quem se fsse ao marmore divino da Venus de Milo, e
tentasse,  fora bruta de martello e cinzel, dar-lhe o feitio, as
suissas e a sobrecasaca de lord Palmerston! A expanso do inglez para o
Oriente, seu objectivo imperial, seria toleravel, mesmo aos nervos de um
artista--se elle se contentasse em levar para l os seus tecidos, as
suas machinas, os seus telegraphos, os seus railways, deixando depois
que essas raas usassem esse colossal material de civilisao em se
desenvolverem no sentido do seu genio e do seu temperamento. Que por
todos os modos se fornea  santa cidade de Hydrabad gazometros e
illuminao--mas, por Deus! que se no mettam  fora bicos de gaz
dentro dos seus templos, se isso offende os seus ritos e repugna ao seu
gosto! Que a India, por exemplo, seja coberta de caminhos de ferro,
fornecidos pelos industriaes de Northumberland e pagos pelo
indio--excellente! Mas ao menos que as aldas onde elles passam, essas
aldas que os mesmos inglezes descrevem como pequenos paraizos de paz,
de trabalhos simples, de costumes doces, de frugalidade, de frescura, de
belleza moral, no sejam tornadas to tristes como as tristes parochias
de Yorkshire, introduzindo-se logo l o _policeman_, o deposito de
cerveja, a capella protestante de tijolo, o livreiro de Biblias, o
vendedor de _gin_, a fumaraa de uma fabrica, a prostituio e a
_workhouse_!...

Mas deixemos isto.  facil maldizer da Inglaterra. Basta abrir os livros
dos seus grandes homens, desde Thackeray, o artista, que com um to frio
rancor lhe fez a satyra sangrenta, at Carlisle, o philosopho, que
passou a existencia a fulminal-a com uma tumultuosa colera de propheta...

Da Inglaterra pde-se dizer que--ao contrario da generosa Frana--as
suas virtudes s a ella aproveitam e os seus vicios contaminam o mundo.

  Inglaterra que se deve o egoismo crescente que nos vae petrificando
o corao--esse egoismo to particularmente inglez, que faz com que em
Hyde-Park, no seu centro de luxo, trezentas pessoas, em torno de um
lago, vejam uma pobre criana afogar-se, sem que nenhuma se encommode a
tirar o charuto da bocca para lhe estender uma taboa!   Inglaterra que
devemos esta crescente hypocrisia que invade o mundo, e que faz com que
em Londres, nos cartazes que annunciam as peas de Sardou ou Dumas, se
ajunte esta estupenda declarao: _adaptada s justas exigencias da
moralidade ingleza_;--emquanto que, na rua, por baixo d'esses mesmos
cartazes, rola, sem cessar, a mais vil torrente que o mundo viu de
bebados e de prostitutas!

Mas deixemos as maculas da Inglaterra: a lista  longa;--quero s
alludir a um outro abominavel defeito que ella sempre teve, e que agora
desenvolveu em propores intoleraveis:--a sua espantosa filaucia, a sua
ruidosa basofia, o seu tremendo ar _mata-sete_!

 sobretudo n'este momento, desde o comeo da guerra do Egypto, que os
que, como eu, amam a Inglaterra, soffrem de lhe vr estes extravagantes
modos de valento de romance picaresco. Os telegrammas que os
correspondentes dos jornaes enviam das operaes da guerra, sobretudo os
commentarios dos proprios jornaes, seriam lamentavelmente grotescos, se
no fossem odiosamente impertinentes. Os francezes (que no so
modestos) puzeram trinta mil allemes fra de combate na batalha de
Gravellote, e todavia no fizeram a decima parte do alarido, da
gloriola, do espalhafato com que os inglezes celebravam a escaramua de
Ramleh, onde os egypcios perderam _quarenta e tantos homens_! Parece
faltar-lhes o sentimento da proporo das cousas. Um correspondente do
_Daily News_ annunciava, ha dias, como um feito heroico, digno de ir 
posteridade, o terem alguns soldados em marcha dado um pedao de po de
munio a um arabe que morria de fome  beira de um caminho! Era espanto
de encontrar dentro de peitos inglezes um resto de piedade humana? No.
Queria provar que nenhum exercito no mundo faz a guerra com uma to
profunda clemencia!

Ou celebrem o aspecto physico dos regimentos ou a afinao das bandas de
musica, a pontaria dos artilheiros ou a frma dos capacetes, os talentos
do Estado Maior ou a excellencia da bolacha de munio, vem logo em
lettras gordas, a phrase tola--_o que ha de melhor no mundo_!

Faz uma vedeta ingleza fogo sobre uma vedeta egypcia e depois recolhe 
trincheira? Logo este facto  declarado _to nobre pelo heroismo como
habil pela prudencia_!

Os cros que se entoam em torno do general Wolseley, pertencem  pura
fara.

Eu quero crr que elle  um grande homem--ainda que por ora nada mais
fez que debandar uma pobre horda de negros armados de flechas que
vegetavam junto a no sei que rio d'Africa; mas que se pde pensar
quando se l, no _World_ e em outros papeis, que elle  o _maior general
do seculo_? Onde vive um certo Moltke? Quando existiu um chamado Napoleo?

O melhor, mais bem feito, mais importante jornal de Londres, a _Pall
Mall Gazette_, envergonhado de tudo isto, explica, com a sua usual
habilidade, que estas fanfarronadas no so destinadas  Europa, mas ao
Egypto para levantar o moral das tropas! Tm pois esses regimentos em
campanha nos areaes da Africa, diante d'um inimigo formidavel, vagares
para ler as gazetas? Recebe cada soldado raso, com o seu rancho da
manh, um numero do _Times_? A respeitavel _Pall Mall_ blagua. Para
animar, recompensar as tropas, l esto as proclamaes dos generaes.
Ahi, sim, a emphase deve correr em torrentes: e quando um desgraado
homem depois de ter marchado todo um dia, com fome, com sde, com os ps
em sangue na areia e um ceu de fogo nas costas, volta  noite ao
acampamento, estendido n'uma maca com duas balas no corpo--no  muito
que se lhe diga que elle  o primeiro soldado do mundo!

 tambm para levantar o moral das tropas que o _Times_ e o
_Spectator_, fallam, de mo na cinta, e suissa ao vento, de impor 
Europa a vontade da Inglaterra?

No;  mera fanfarronada.

E no  s nos jornaes. Entre-se n'um club, n'um restaurante,
converse-se com um conhecido, entre duas chavenas de ch--e vem logo a
mesma jactancia de roncador: Vamos dar cabo de tudo. Temos dinheiro a
rodo. C, ao pulso inglez, nada resiste... E se o mundo respinga,
quebram-se-lhe as ventas!...

A Inglaterra perdeu as suas boas maneiras.

 forte, de certo--mas falla da sua fora com a brutalidade de um
Hercules de feira que esbogalha os olhos e mostra os musculos;  rica,
de certo--mas falla do seu dinheiro com a grosseria d'um ricao que
abarrota fazendo tinir as libras na algibeira...

Onde est a famosa _self-possession_ da Inglaterra, a sua tranquilla
dignidade? John Bull tornou-se Ferrabraz. Ora uma muito velha banalidade
ensina-nos que no ha verdadeira fora sem serenidade e que sem modestia
no ha verdadeira grandeza.




X

O BRASIL E PORTUGAL


Os jornaes inglezes d'esta semana tm-se occupado prolixamente do
Brazil. Um correspondente do _Times_, encarregado por esta potencia de
ir fazer pelo continente americano uma vistoria social definitiva
deu-nos agora, em artigos repletos e massios, o resultado do seu anno
de jornadas e de estudos.

O ultimo artigo  dedicado ao Brazil: eu, que nunca visitei o imperio,
no tenho naturalmente auctoridade para apreciar essas revelaes
(porque o correspondente toma a attitude de um revelador) sobre a
religio, a cultura, os productos, o commercio, a emigrao, o caracter
nacional, o nivel de educao, a situao dos portuguezes, a dynastia, a
Constituio, a republica, _et de omni re braziliensi_ e no posso
transcrevel-as tambem porque ellas enchem, no _Times_, vasto como ,
mais espao que o proprio Brazil occupa no territorio da America do Sul.
Esse artigo excitou o interesse e os commentarios da _Pall-Mall Gazette_
e de outros jornaes, e ahi se rompeu a fallar do Brazil com sympathia,
com curiosidade, com essas admiraes ingenuas pela sua rutilante flora,
esse pasmo quasi assustado pela sua vastido, que decerto tiveram nossos
avs, quando o bom Pedro Alvares Cabral, largando a procurar o Preste
Joo, voltou com a rara nova das terras entrevistas do Brazil...

Devendo mostrar-lhes a opinio presente da Inglaterra sobre o Brazil,
d'esses artigos floridos, escolho o do _Times_, annotando e glosando o
trabalho do seu enviado. ( d'este modo respeitoso que se deve fallar
sempre de um correspondente do _Times_).

Comea, pois, o grande jornal da _City_ por dizer--que a descripo do
vasto Imperio do Brazil com que foi fechada a serie das _cartas sobre o
continente americano_, deve ter feito transbordar o sentimento de
admirao pelo explendor, etc... Seguem-se aqui naturalmente vinte
linhas de extasi. , em prosa, a aria do 4. acto da _Africana_: Vasco
da Gama, de olhos humidos e corao suspenso no enlevo de tanta flr
prodigiosa, de to raros cantos d'aves raras...

Depois vem o espanto classico pela extenso do Imperio: S o simples
tamanho de um tal dominio (exclama) na mo de uma diminuta parcella da
humanidade  j em si um facto sufficientemente impressionador!

E todavia esta admirao do _Times_ pelo gigante  misturada a um certo
patrocinio familiar, de ser superior,--que  a attitude ordinaria da
Inglaterra e da imprensa ingleza para com as naes que no tm duzentos
couraados, um Shakspeare, um _Bank of England_, e a instituio do
_roast-beef_... N'este caso do Brazil, o tom de proteco  raiado de
sympathia...

Depois o artigo rompe de novo n'um hymno: A Natureza no Brazil no
necessita do auxilio do homem para se encher de abundancias e se cobrir
de adornos!... Para seu proprio prazer planta, ella mesma, luxuriantes
parques! E no ha recanto selvagem que no faa envergonhar as mais
ricas estufas da Europa... Isto  decerto exacto: mas o _Times_,
receiando que os seus leitores viessem a suppor que a natureza do Brazil
est de tal modo repleta, to indigestamente attestada, que no
permitte, que se recusa com furor a receber no seu ventre empanturrado
uma semente mais sequer--apressa-se a tranquillisal-os: Mas (diz este
sabio jornal judiciosamente) ainda que a Natureza dispense bem todo o
trabalho do homem, que outros solos menos generosos requerem para se
abrir em flres e fructos,--_no o repelle todavia_. Isto socega os
nossos animos: ficamos assim certos que nenhum fazendeiro, nos distantes
cafesaes, ao atirar  terra, a _terra me_, com a enxadada fecundadora a
semente inicial, corre o risco atroz de ser por ella atacado  pedrada
ou a golpes de bananeira... Nem outra cousa se podia esperar da doce e
pacifica Ceres.

Tendo assim floreado, de penacho oratorio ao vento, o _Times_ investe
com as ideias praticas. E comea por declarar, que, segundo o copioso
relatorio do seu correspondente, o que surprehende na America do Sul
(se exceptuarmos aquella tira de terra que constitui a Republica do
Chili, e alguns bocados da costa do enorme imperio do Brazil)  a
grandeza de tais recursos comparada  desapontadora magreza dos
resultados. Seria facil responder com a escassez da populao. O
_Times_ de resto sabe-o bem, porque nos falla logo d'essa populao nas
republicas hespanholas, mas no a acha escassa; o que a acha  torpe!...
A pintura que nos d do Per, Bolivia, Equador e consortes  ferina e
negra: Essa gente vive n'uma indolencia vil, que no  incompativel com
muita arrogancia e muita exagerada vaidade! D'esse torpor s rompe, por
accesso de frenesi politico. Todo o trabalho ai emprehendido para fazer
produzir a natureza  dos estrangeiros: os naturaes limitam-se a
invejal-os, a detestal-os por os verem utilisar opportunidades que elles
mesmo no se quizeram baixar a usar! Isto  cruel: no sei se  justo:
mas entre estas linhas palpita todo o rancor de um inglez possuidor de
maus titulos peruanos. E se o nosso correspondente (continua o artigo)
offerece de alto o Brazil  nossa admirao, no  em absoluto, 
relativamente, em contraste com os paizes que quasi o egualam em
vantagens materiaes, como o Per e o Rio da Prata, mas onde a discordia
intestina devora e destroe todo o progresso nascido da actividade
estrangeira. O Brazil  portuguez e no hespanhol: e isto explica tudo.
O seu sangue europeu vem d'aquella parte da Peninsula Iberica em que a
tradico  a da liberdade triumphante, e nunca supprimida. O _Times_
aqui abandona-se com excesso s exigencias rythmicas da phrase: parece
imaginar que desde a batalha de Ourique temos vindo caminhando n'uma
larga e luminosa estrada de ininterrompida democracia!...

Mas, emfim, contina: Quando o Brazil quebrou os seus laos coloniaes
no tinha a esquecer feias memorias de tyrannia e rapacidade; nem teve
de supprimir genericamente todos os vestigios de um mu passado. Com
effeito; pobres de ns! nunca fmos de certo para o Brazil seno amos
amaveis e timoratos.

Estavamos para com elle n'aquella melancolica situao de um velho
fidalgo, solteiro arrasado, desdentado e tropego, que treme e se baba
deante de uma governanta bonita e forte. Ns verdadeiramente  que
eramos a colonia: e era com atrozes sustos do corao que, entre uma
_Salv Rainha_ e um _Lausperenne_, estendiamos para l a mo  esmola...

O _Times_ prossegue: Ainda que independente, o Brazil ficou portuguez
de nacionalidade e semi-europeu de espirito. Pelo simples facto de se
sentir portuguez, o povo brazileiro teve, e conserva, o instincto do
grande dever que lhe incumbe: tirar o partido mais nobre da sua nobre
herana... Sejam quaes tenham sido os erros de Portugal, no se pde
dizer que se tenha jmais contentado com o mero numero das suas
possesses, sem curar de lhes extrahir os proventos... O _Times_ aqui
dormita, como o secular Homero.

E justamente o que nos preoccupa, o que nos agrada, o que nos consola 
contemplar _simplesmente o numero_ das nossas possesses: pr-lhes o
dedo em cima, aqui e alm, no mappa; dizer com voz de papo, _ore
rotundo_: Temos oito; temos nove: somos uma nao colonial, somos um
povo maritimo!... Emquanto a _extrahir-lhes os proventos_, na phrase
judiciosa do _Times_, d'esses detalhes miseraveis no cura o pretor, nem
os netos de Affonso de Albuquerque!... Mas prossegue o _Times_: O
imperio colonial de Portugal talvez tenha sido outr'ora caracterisado
por desfortuna--quasi nunca por estagnao. _Talvez_  bom: com o
imperio do Oriente no nosso passado, que  um dos mais feios monumentos
de ignominia de todas as edades... Continuemos.

Da origem d'onde o Brazil deriva a sua actividade, deriva tambem (o que
no  menos importante) o respeito pela opinio da Europa. O vadio das
ruas de Lima, de Caracas ou de Buenos-Ayres nutre um soberano desprezo
pelos juizos que a Europa possa formar das suas tragi-comedias
politicas... No tem consciencia de cousa alguma, a no ser do seu
_sangue castelhano_... Sente decerto o inconveniente de ser expulso do
credito e das bolsas da Europa... Mas avalia esta circumstancia apenas
pelos embaraos momentaneos que ella lhe traz. O financeiro brazileiro,
porem, esse presta uma to respeitosa atteno ao _temperamento_ das
bolsas de Pariz e Londres, como ao da mesma praa do Rio de Janeiro...

O _Times_ v n'este symptoma a considerao que o Brazil tem pela
opinio da Europa.

Mas, onde o _Times_ se engana  quando pretende que o Brazil deve ao seu
sangue portuguez esta bella qualidade de obedecer aos juizos do mundo
civilisado. No ha paiz no universo, onde se despreze mais, creio eu, o
julgamento da Europa, que em Portugal: n'esse ponto somos como o vadio
das ruas de Caracas, que o _Times_ to pittorescamente nos apresenta:
porque eu chamo desdenhar a opinio da Europa no fazer nada para lhe
merecer o respeito. Com effeito, o juizo que de Badajoz para c se faz
de Portugal, no nos  favoravel, ns sabemol-o bem--e no nos
inquietamos! No fallo aqui de Portugal como Estado politico. Sob esse
aspecto gosamos uma razoavel venerao. Com effeito, ns no trazemos 
Europa complicaes importunas; mantemos dentro da fronteira uma ordem
sufficiente: a nossa administrao  correctamente liberal; satisfazemos
com honra os nossos compromissos financeiros.

Somos o que se pde dizer um _povo de bem_, um _povo ba pessoa_. E a
nao vista de fra e de longe, tem aquelle ar honesto de uma pacata
casa de provincia, silenciosa e caiada, onde se presente uma familia
commedida, temente a Deus, de bem com o regedor, e com as economias
dentro de uma meia... A Europa reconhece isto: e todavia olha para ns
com um desdem manifesto. Porque? Porque nos considera uma nao de
mediocres: digamos francamente a dura palavra--porque nos considera uma
_raa de estupidos_. Este mesmo _Times_, este oraculo augusto, j
escreveu que Portugal era, intellectualmente, to caduco, to casmurro,
to fossil, que se tornra um paiz bom para se lhe passar muito ao
largo, e _atirar-lhe pedras_ (textual).


O _Daily Telegraph_ j discutiu em artigo de fundo este problema: Se
seria possivel sondar a espessura da ignorancia luzitana! Taes
observaes, alm de descortezes, so decerto perversas. Mas a verdade 
que n'uma epocha to intellectual, to critica, to scientifica como a
nossa, no se ganha a admirao universal, ou se seja nao ou
individuo, s com ter proposito nas ruas, pagar lealmente ao padeiro, e
obedecer, de fronte curva, aos editaes do governo civil. So qualidades
excellentes, mas insufficientes. Requer-se mais: requer-se a forte
cultura, a fecunda elevao de espirito, a fina educao do gosto, a
base scientifica e a ponta de ideal que em Frana, na Inglaterra, na
Allemanha, inspiram na ordem intellectual a triumphante marcha para a
frente; e nas naes de faculdades menos creadoras, na pequena Hollanda
ou na pequena Suecia, produzem esse conjunto eminente de sabias
instituies que so, na ordem social, a realizao das frmas
superiores do pensamento.

Dir-me-ho que eu sou absurdo ao ponto de querer que haja um Dante em
cada parochia, e de exigir que os Voltaires nasam com a profuso dos
tortulhos. Bom Deus, no! Eu no reclamo que o paiz escreva livros, ou
que faa arte: contentar-me-ia que lesse os livros que j esto
escriptos, e que se interessasse pelas artes que j esto creadas. A sua
esterilidade assusta-me menos que o seu indifferentismo. O doloroso
espectaculo  vl-o jazer no marasmo, sem vida intellectual, alheio a
toda a ideia nova, hostil a toda a originalidade, crasso e mazorro,
amuado ao seu canto, com os ps ao sol, o cigarro nos dedos e a bocca s
moscas...  isto o que punge.

E o curioso  que o paiz tem a consciencia muito nitida d'este torpor
mortal, e do descredito universal que elle lhe attrahe. Para fazer
vibrar a fibra nacional, por occasio do centenario de Cames, o grito
que se utilizou foi este:--Mostremos ao mundo que ainda vivemos! que
ainda temos uma litteratura!

E o paiz sentiu asperamente a necessidade de affirmar alto,  Europa,
que ainda lhe restava um vago claro dentro do craneo. E o que fez?
Encheu as varandas de bandeirolas, e rebentou de jubilo a pelle dos
tambores. Feito o que--estendeu-se de ventre ao sol, cobriu a face com o
leno de rap, e recomeou a ssta eterna. D'onde eu concluo que
Portugal, recusando-se ao menor passo nas lettras e na sciencia para
merecer o respeito da Europa intelligente, mostra,  maneira do vadio de
Caracas, o despreso mais soberano pelas opinies da civilizao. Se o
Brazil, pois, tem essa qualidade eminente de se interessar pelo que diz
o mundo culto, deve-o s excellencias da sua natureza, de modo nenhum ao
seu sangue portuguez: como portuguez, o que era logico que fizesse era
voltar as costas  Europa, puxando mais para as orelhas o cabeo do
capote...

Mas, retrocedendo ao artigo do _Times_, a concluso da sua primeira
parte  que em riqueza e aptides o Brazil leva gloriosamente a palma
s outras nacionalidades da America do Sul. Todavia, o _Times_ observa
no Brazil circumstancias desconsoladoras: Doze milhes de homens esto
perdidos n'um estado maior que toda a Europa: a receita publica, que 
de doze milhes de libras esterlinas,  muitos milhes inferior  da
Hollanda e  da Belgica: com uma linha de costa de quatro mil milhas de
comprimento, e com pontos de uma largura de duas mil e seiscentas
milhas, o Brazil exporta em valor de generos a quarta parte menos que o
diminuto reino da Belgica.

O _Times_, todavia, tem a generosidade de admittir que nem a densidade
de populao, nem o total das receitas, nem a cifra das exportaes
constituem a felicidade de um povo e a sua grandeza moral. A Suissa, que
tem dois milhes de habitantes e justamente os mesmos dois milhes de
libras de receita, vive em condies de prosperidade, de liberdade, de
civilisao, de intellectualidade bem superiores  tenebrosa Russia com
os seus oitenta milhes de libras de receita, e os mesmos oitenta
milhes em homens. Todavia, contina o _Times_, se a escassez da
populao, de rendimento e de commercio, no collocam o Brazil n'um
estado de adversidade, so uma prova que faltam a esse povo algumas das
qualidades que fazem a grandeza das naes. Que os colonisadores
portuguezes, apenas apoiados pelo pequeno throno portuguez, tivessem
feito da metade do novo mundo, que lhes concedeu o papa Alexandre, mais
que os colonisadores hespanhoes que tiravam a sua fora da grande nao
de Hespanha,  uma cousa que prova a favor do sangue portuguez comparado
com o sangue castelhano, andaluz ou aragonez. Mas que as conquistas
feitas no Brazil  natureza sejam to insignificantes, e to vastos os
espaos que permanecem no s inconquistados mas desamparados--indica
que so analogos os defeitos da colonia hespanhola e da colonia
portugueza...

O resto do artigo  mais serio; e eu devo transcrevel-o sem interrupo.
O Brazileiro no , como o peruano ou boliviano, altivo de mais, ou
preguioso de mais para se dignar reparar nos meios de riqueza e de
grandeza to prodigamente espalhados em torno de si. No; o brazileiro
tem energia sufficiente para ambicionar e para calcular. A sua atteno
est fixa nas ferteis regies do interior. Desejaria bem vr a rede dos
seus rios navegaveis cobertos de barcos e vapores. Succede mesmo que,
nos pontos mais ricos da costa, o habitante queixa-se que uma excessiva
poro dos impostos com que  sobrecarregado vae ser gasta em collossaes
trabalhos emprehendidos em vantagem de remotas e incultas regies que
nunca ou, ao menos, s d'aqui a longos annos, podero aproveitar com
elles. Mas, em todo o caso, o Brazil sente em si fora sufficiente para
dar ao seu vasto territorio os beneficios de uma sabia administrao.

O _Times_ aqui tem um pequeno periodo, alludindo  nobre ambio que tm
os brazileiros de fazer tudo por si mesmos, vendo com aborrecimento as
grandes obras entregues  pericia estrangeira, e preferindo os esforos
da sciencia e do talento nacionaes, ainda mesmo quando elles falham,
custando ao paiz milhes perdidos... Depois prossegue:

Mas emquanto o brazileiro se mostra assim, em theorias politicas e
administrativas, ancioso por fomentar elle mesmo, por elle mesmo fazer
todas as obras dos seus cinco milhes de milhas quadradas--s suas mos
repugna o agarrar o cabo da enxada, ou tomar a rabia do arado, que 
justamente o servio que a natureza reclama d'elle. N'um continente, que
depois de tres seculos e meio contina a ser um torro novo, a grandeza
das Republicas ou dos Imperios depende exclusivamente do trabalho manual.

Italianos, allemes, negros, tm sido, esto sendo importados para
fazerem o trabalho duro que repugna aos senhores do solo. Mas,
inaclimatados, em certos districtos, elles nunca poderiam labutar como
os naturaes dos tropicos. Nem mesmo nas provincias mais temperadas do
Imperio jmais os immigrantes trabalharo resolutamente--at que o
exemplo lhes seja dado pela populao indigena, senhora da terra. O
brazileiro ou tem de trabalhar por suas mos, ou ento largar a rica
herana que  incompetente para administrar.  maneira que o tempo se
adianta, vae-se tornando uma positiva certeza que todos os grandes
recursos da America do Sul entraro no patrimonio da humanidade.

O _Times_ aqui embrulha-se. Prefiro explicar a sua ideia, a traduzir-lhe
a complicada prosa; quer elle dizer que o dia se approxima em que a
civilisao no poder consentir que to ricos solos, como os dos
Estados do Sul da America, permaneam estereis e inuteis, e que, se os
possuidores actuaes so incapazes de os fazer valer e produzir, para
maior felicidade do homem, devero ento entregal-os a mos mais fortes
e mais habeis.  o systema de expropriao por utilidade de civilizao.
Theoria favorita da Inglaterra e de todas as naes de rapina...


Contina depois o artigo, com ferocidade: No Per, na Bolivia, no
Paraguay, no Equador, em Venezuela... em outros mais, os actuaes
occupadores do solo tero gradualmente de desapparecer e descer quella
condio inferior, que o seu fraco temperamento lhes marca como destino.
(Nunca se escreveu nada to ferino!) O povo brazileiro, porm, tem
qualidades excellentes e a Inglaterra no chegar promptamente 
concluso de que elle tem de partilhar a sorte de seus febris ou
casmurros visinhos... Mas, dadas as condies do seu solo, o Brazil
mesmo tem a escolher entre um semelhante futuro ou ento o trabalho, o
duro esforo pessoal, contra o qual at agora se tem rebellado. Se o seu
destino tivesse levado os brazileiros a outro canto do continente, nem
to largo, nem to bello, poder-se-hia permittir-lhes que passassem a
existencia n'uma grande somnolencia. Mas ao brazileiro est confiada a
decima quinta parte da superficie do globo: essa decima quinta parte ,
toda ella, um thesouro de belleza, riquezas e felicidades possiveis; e
de tal responsavel--o brazileiro tem de subir ou de cahir!

E com esta palavra,  Gambetta, termino. J se alonga muito esta carta
para que eu a sobrecarregue de comentarios  prosa do _Times_. No seu
conjuncto  um juizo sympathico. O _Times_, sendo, por assim dizer, a
consciencia escripta da classe media da Inglaterra, a mais rica, a mais
forte, a mais solida da Europa, tem uma auctoridade formidavel; e
escrevendo para o Brazil, eu no podia deixar de recolher as suas
palavras--que devem ser naturalmente a expresso do que a classe media
da Inglaterra pensa ou vae pensar algum tempo do Brazil. Porque a prosa
do _Times_  a matria-prima de que se faz em Inglaterra o estofo da
opinio.

E reparando agora que, por vezes n'estas linhas, fui menos reverente com
o _Times_--murmuro, baixo e contricto, um _peccavi_...




XI

A festa das creanas


A mais engraada festa das creanas de que me lembro, foi em Inglaterra,
na casa de campo dos meus amigos Birds, no paiz de Cornwall. Era uma
mascarada reproduzindo em miniatura a crte de el-rei Arthur e dos
cavaleiros da Tavola Redonda. E o que tornava interessante a
ressurreio d'este mundo heroico e gentil, popularizado por Tennyson, 
que ns estavamos alli justamente na regio de Cornwall, onde viviam,
entre sarus e batalhas, Arthur, a sua rainha Guinevra e os doze
valentes da Tavola. A pouca distancia do parque dos Birds, n'uma collina
coberta de carvalheiras, a tradio colloca os paos de Arthur e a
maravilhosa e sombria cidade de Caerleon. O rio em que pescavam trutas
era o velho Usk. Nas suas frescas margens erguera-se outr'ora o
mosteiro, onde o irmo de Percival, uma noite, da janella da sua cella,
viu passar n'uma nuvem cr de rosa, entre aromas de junquilhos, o vaso
do Santo Graal cheio de sangue de Nosso Senhor Jesus Christo. E das
varandas da sala de jantar, podiam avistar-se em dias claros, l ao
longe, na costa, e entre as rochas, as ruinas d'esse castello de
Tintagil, que apparece em todas as balladas do rei Arthur, negro e
triste junto ao mar de Cornwall.

A crte comeou a reunir-se cedo,  hora do lunch, no grande salo
branco, sobre o jardim. Era o filho dos Birds quem esplendidamente
recebia, vestido de rei Arthur. O primeiro personagem da lenda que
chegou, acompanhado pela sua governante, foi o feiticeiro Merlino, um
adoravel bb, gordo e embezerrado com a cora de hera, uns cabellos
louros e umas enormes barbas propheticas enchendo-lhe a bochecha cr de
rosa. Depois, seguidos das mams, vieram entrando todos os outros
figures da romantica chronica, cavalleiros de cinco annos armados e
emplumados, mongesinhos nedios, bispos quasi de mama com os seus baculos
nos braos, bardos rabugentos, mesteirais vestidos de seda, e fadas mais
lindas que as fadas. As tres rainhas mysticas do Walhalla chegaram por
ultimo, gravesinhas, todas tres pela mo, cobertas de vos negros,
escoltadas por um grande lacaio empoado.

Pouco a pouco o salo ficou animado como o velho Caerleon n'uma manh de
torneio. O pequeno Bird, de Rei Arthur, com seu manto bordado d'ouro, os
cabellos frisados sahindo em anneis de sob a cora carregada de pedras,
passeava magestoso, entre os seus irmos de armas. Uma senhora,
encantada, quiz dar-lhe um beijo. Elle repeliu-a asperamente, como teria
feito o casto Rei Arthur. Mais orgulhoso do que elle, s o bravo
Lancelote do Lago, a quem tinham pintado um buo, e que revestido de
armas negras, com uma longa pluma escarlate ondeando-lhe desde o elmo
at s esporas d'ouro, no tirava a mo da espada. E o que parecia
ensoberbece-lo mais era a sua faxa de gaze branca, passada sobre a
couraa, e feita em rigida obediencia  epopa, d'um vo da rainha
Guinevra. Essa era a grande belleza do saru, a rainha Guinevra, uma
irlandezasinha com as duas tranas negras e os olhos verdes como os
prados d'Erin. Sria e fria, envolta na pesada capa de setim azul,
conservava-se no meio de um sof, immovel, com um sorriso que lhe punha
uma covinha no queixo, indifferente aos madrigaes, insensivel s proezas
dos cavalleiros, e sempre de olhos baixos, ou por ella os bardos firam
as harpas, ou por ella se batam os vassalos junto ao mar de Cornwall.

Um escudeiro annunciou o lunch, tocando uma buzina de prata, tal qual
como no Caerleon. E pelo corredor, aos pares, toda a crte seguiu  sala
de jantar o rei Arthur, que levava pela mo, com uma graa solemne, a
linda rainha Guinevra. Depois, mas no sem alguma confuso, em que
necessariamente as mams tiveram de ser energicas com os cavalleiros,
ficou completa a Tavola Redonda, ornada de baixellas e flres. E nada
faltava do que mandam as poeticas chronicas.

Ao fundo da mesa, na sua cadeira esculpida pelos Genios, l se achava o
velho feiticeiro Merlino, a quem a governante, para elle comer com
limpeza a sua sopa, tirra as barbas propheticas. No havia um javali
assado sobre um prato de ouro. Apenas um modesto _roast-beef_. Mas o rei
Arthur levantava o seu copo d'agua, misturada de uma gota de Bordeus,
com a nobreza com que o outro, ha tantos centos de annos e n'aquella
mesma collina, erguia a taa de hydromel em dias de victoria. De resto a
sala, com o seu tecto de carvalho lavrado, tinha o severo apparato
d'outras ras e atravs da janella l estavam, como nos versos da _Morte
d'Arthur_, as ruinas do Castello de Tintagil, negro e triste junto do
mar de Cornwall.

A Crte mostrava tanto apetite como  volta de uma batida aos lobos nos
bosques, que avisinham o Usk. At as fadas devoravam. Sir Galahad, esse
que possuia a fora de mil, porque o seu corao era virgem, j por duas
vezes reclamra _pudding_ de batatas, batendo furiosamente com o garfo
sobre o seu murrio de prata, posto ao lado da mesa entre os crystaes.

Fra preciso, por causa da sua magnifica tunica de setim verde, atar um
guardanapo ao pescoo do cavalleiro Bors, essa radiante flr de bravura
christ. No meio de toda a alegria o forte Percival, incommodado com a
sua armadura, permanecia manso e corado com o ar de estar pensando (como
o outro Percival) em se recolher ao mosteiro de Wik. Depois, de repente
e inexplicavelmente, rolou abaixo da cadeira, entornando todo o molho
nos joelhos do intrigante Modred, o mais violento cavalleiro da Tavola.

Modred despropositou e arrepelou os cabellos d'ouro de Percival. A tia
do here acudiu assustada, e ento, como o famoso Lancelote do Lago se
estava tornando turbulento, foi arrancado da Tavola Redonda
ignominiosamente, nos braos d'um escudeiro, aos berros.

Depois do lunch, a crte de el-rei Arthur voltou ao saru a regozijar-se
com danas. Saru delicioso! Havia dois monges extraordinarios, de
bureis brancos, to pequenos e to tropegos que as senhoras tinham de os
segurar pelos braos nas quadrilhas e que queriam constantemente danar,
mais joviaes que os cavalleiros, promptos a atirar-se sempre aos
bracinhos das camponezas toucadas de flres.

O puro Sir Galahad, j sem broquel e sem murrio, galopava doidamente
com uma ligeira fada, chegada n'essa manh da Bretanha, das florestas de
Broceliande. Um bardo, com a cora de folhas de carvalho enterrada at
aos olhos, chorava por ter perdido a sua harpa. Havia tambem um principe
do Mar do Norte, um castello de Erin e o bravo cavalleiro Bors, que se
tinham refugiado a um canto, por detraz d'um soph, onde sentados no
cho continuavam na sua divertida merenda com bolos, dando gritos,
quando as senhoras queriam pr cobro quella gula to impropria de
paladinos christos.

No corredor o pae Bird teve de suster um rechonchudo abbade, que
arregaava as vestes sacerdotaes e ia, furioso, sovar o intrigante
cavalleiro Modred. E no foi possivel realizar a parte mais picante da
lenda, fazendo com que Lancelote do Lago cortejasse Guinevra. O bravo
Lancelote (bem differente do outro) parecia de corao duro e sem gosto
pelo sorrir das damas. Terminou mesmo por ter uma hedionda perrice, e
cahiu nos joelhos da mam, com duas grossas lagrimas nas pestanas e a
sua bella penna escarlate cahida no cho, como n'uma tarde de derrota.

Cedo os bbs comearam a estar canados. Eu mesmo, no meio da festa,
tive de levar ao collo o veneravel bispo de Blackburn com a sua mitra e
com o seu rico baculo. Os seus doces olhinhos azues fechavam-se de
somno. Deitei-o no soph, junto da mais pequenina das rainhas do
Walhalla, que j alli dormia sob o vo negro, com os cabellos d'ouro
soltos e o lyrio do Paraiso entre as mosinhas cruzadas...

E o santo bispo candidamente adormeceu ao lado da mystica rainha.




XII

Uma partida feita ao Times


 ao mesmo tempo lamentavel e piccaresco o caso succedido ao _Times_.
Este nobre in-folio diario, que inspira orgulho a todo o inglez
sinceramente patriota, e que aos olhos respeitosos do estrangeiro
apparece como uma das mais fortes columnas da sociedade ingleza, como a
propria consciencia da Inglaterra posta em lettra redonda; este augusto
periodico que nunca, desde a sua fundao, citou o nome d'um collega,
nem jmais se abaixou a uma controversia, pelas mesmas razes de
inflexivel etiqueta que vedariam a Luis XIV argumentar com Colbert; esta
austera gazeta que preferiria despedaar as suas magnificas machinas a
consentir que ellas imprimissem um _bon-mot_, uma pilheria, uma linda
bagatella ou uma jovial anecdota; este papel to pudico que evita o nome
de Zola, como uma indecencia--o _Times_, emfim, o venerando _Times_, foi
ultimamente victima de uma d'essas _partidas_, como ns dizemos,
_facecias em aco_, como dizem os Americanos, que so ao mesmo tempo
nefandas e patuscas, que nos abrazam a face de indignao e nos arrancam
aos labios um sorriso, que nos fazem vituperar publicamente o farante e
saborear secretamente a fara, como se vissemos um rabo de papel pregado
ao manto d'el-rei, ou sobre os cabellos em caracoes da imagem do Senhor
dos Passos--um chapu alto.

Todas as pessoas que teem folheado esses vastos lenes de materia
impressa que constituem um numero do _Times_, sabem que a quinta pagina
 ordinariamente destinada  publicao dos discursos pronunciados por
homens eminentes da politica, da litteratura, da sciencia, da arte, em
_meetings_, comicios, banquetes, inauguraes, _conversazioni_, em todos
esses ajuntamentos de _ladies and gentlemen_ onde a Inglaterra d vazo
ao seu tumultuoso fluxo labial!... O _Times_  famoso por estas
reproduces. No so resumos, nem extractos: so as arengas, palavra a
palavra, especialmente tachygraphadas para o _Times_ por um pessoal
experimentado, com as interrupes correctamente transladadas, os
murmurios religiosamente marcados, sem que lhes falte um _meus
senhores!_, sem que ficasse perdido um _oh!_ ou um _ah!_ e revistas,
esmiuadas, zeladas como se tivessem cahido dos labios de Socrates ou de
Christo prgando outro Evangelho.

Este simples servio custa por anno ao _Times_ milhares de libras--mas
d-lhe a vantagem de ser elle a acta official do verbo publico da
Inglaterra. Todos os jornaes da Europa assim o reconhecem: quando se
discute um discurso do Sr. Gladstone, uma conferencia do professor
Huxley ou uma predica do arcebispo de Canterbury, tem-se presente, como
texto sagrado, o texto do _Times_. Um orador pde negar a incorreco de
um adjectivo, a violencia de uma apostrophe, quando a apostrophe ou o
adjectivo tenham apparecido nos resumos rapidos de outro jornal: nunca,
quando hajam apparecido nas columnas infalliveis do _Times_. Sabe-se a
despeza, o desvelo, a minuciosidade, empregada para obter a exactido--e
essa exactido nunca  contestada.

Quando o Sr. Gladstone, na campanha eleitoral da Escocia, soltou essa
famosa invectiva contra o imperio dos Hapsburgos,--o protesto cortez do
embaixador d'Austria era fundado em citaes do _Times_. Um orador que,
querendo deixar um monumento solido da sua arte, publique os seus
discursos em volumes--collige-os do texto seguro do _Times_. O _Times_
tem aqui o valor d'uma reproduco photographica. Insisto n'isto, para
tornar mais vivo o horror da facecia.

Ha semanas Sir William Harcourt, o ministro do interior, fez um discurso
em Manchester, discurso consideravel, muito annunciado, muito esperado,
tocando todas as questes que inquietam agora a Inglaterra, a anarchia
da Irlanda, o tratado de commercio com a Frana, a interveno no
Egypto, a criao do Governo Municipal de Londres, outras coisas graves
ainda.

Esta arenga, tachygraphada pelo pessoal do _Times_ em Manchester,
telegraphada para os escriptorios do _Times_ em Londres, foi composta,
lida pelos revisores, revista pelo secretario de Sir William Harcourt,
verificada, comprovada, relida ainda, e, emfim definitivamente
installada na sua pagina... E aqui se colloca a facecia.

Mas  necessario primeiro, para maior indignao e maior goso, conhecer
Sir William Harcourt. De todos os membros do ministerio Gladstone, Sir
William  o mais austero. J a sua apparencia intimida: grosso,
membrudo, de hombros compactos, com a face imperiosa, pallida, rapada,
Sir William tem as linhas solemnes e marmoreas do busto de um Cesar.

E dentro d'esta frma romana habita um espirito rigido de doutrinario:
liberal (em comparao com o marquez de Salisbury, que  quadradamente
feudal), Sir William representa no Governo a tradico, a formula
_whig_.  o contrapeso conservador d'este ministerio radical: est alli
como um bloco de granito constitucional para impedir que os outros
ministros, Chamberlain, Sir Charles Dilke, os discipulos de Stuart Mill,
se adiantem muito pela grande estrada da Revoluo: e tem por isso essa
ampla solemnidade de maneiras, essa cadencia pomposa de expresso, de
quem se honra em guardar as coisas supremas--a cora, a egreja, a
aristocracia territorial, os privilegios, a integridade do imperio... 
um solemne. Mesmo abotoado n'um paletot, parece embrulhado n'uma toga. 
moroso, massudo, incapaz de sorrir, tem essa especie de magestade
official que faz lembrar ao mesmo tempo Guizot e um elephante.

E quando a gente o contempla no parlamento, grave, rispido, vestido de
negro--no o pde conceber nas attitudes triviaes da vida, fumando um
cigarro n'um soph, com uma perna por cima da outra, muito menos de
joelhos, com uma linda mo de mulher entre as suas, murmurando coisas
ternas e tontas...

E  isto que torna atroz e deliciosa a facecia... O discurso solemne
d'este solemne estadista estava, pois, paginado, pronto para passar s
machinas, quando aproveitando um momento em que a policia interior dos
escriptorios do _Times_ casualmente afrouxra de vigilancia, _alguem_,
um monstro, um scelerado, subtilmente, p ante p, foi ao discurso,
arrancou-lhe dez ou doze linhas, e substitue-as por outras, compostas de
ante-mo, perfida e habilmente compostas! E que linhas! meu Deus! como
posso eu, conservando-me casto, explical-as aos leitores da _Gazeta de
Noticias_?


Essas linhas intercaladas no severo discurso do severo ministro eram
(tremo de dizel-o) eram linhas eroticas! Era um grito convulsivo de
desordenada lubricidade; era o ruido d'uma besta agitada por todas as
furias de Venus; era como esse rouco e secco bramar dos veados, nos
bosques, sob a calma do estio; era a balbuciao ebria dos Faunos da
fabula, do deus Priappo, dos Satyros caprinos que vagueavam pelos
pendores sagrados do monte Olympo, ululando, trincando a brancura dos
lyrios, violando o corao das rosas, arremessando-se com pulos ferozes
de bodes ao entreverem, entre as ramagens dos olmos, as claras nymphas
das aguas... Era tudo isto, e era ainda mais.

E, para requinte de facecia, isto no destoava, no chocava, apparecendo
bruscamente e sem ligao, como um monturo immundo entre roseas flres
de rhetorica. No: tinha sido _encaixado_ com uma habilidade diabolica.
Sir William Harcourt estava accusando os conservadores de affectarem uma
patriotica melancolia em presena dos suppostos perigos, que sob o
regimen liberal correm os grandes principios da ordem monarchica, a
integridade mesma da Inglaterra. E aqui perguntava-lhes, naturalmente
n'um natural movimento de oratoria: Porque so esses gemidos? Porque 
essa exagerao de tristeza publica? Decerto a questo da Irlanda e a do
Egypto so graves: mas o governo de Sua Magestade sabe que as solues
proveitosas e gloriosas no tardaro... Ns estamos tranquillos. Eu, por
mim, sinto-me na disposio de quem, depois de cumprir um dever
official, tem para o recompensar o sorriso sereno e approvador da
consciencia, etc., etc.

E justamente aqui as linhas perversas entravam naturalmente traadas,
desenvolvendo mais esta affirmao de contentamento intimo, mostrando a
exuberancia de espirito d'um ministro galhofeiro, que, em presena do
glorioso estado da cousa publica, admitte que o regosijo da nao tome a
frma excentrica mas justificavel, de uma tremenda bambochata, de um
regabofe de estalar tudo... Sir William prosseguia (comprehendem bem que
eu dou s expresses aproximativas e atenuadas; traduzir  lettra o que
appareceu publicado no _Times_ seria arruinar para sempre os creditos da
_Gazeta de Noticias_) Sir William prosseguia: Eu, por mim, estou
contente. Acho-me at capaz de uma bella folia! Porque no nos daremos
com effeito a uma rica patuscada, com vinhaa e mulherinhas? Oh, as
mulherinhas! Senhoras que me escutaes, arremessae chapus e vestidos, e
toca a pandegar e a bater um rico batuque!... _Evoh!_ Viva o deboche!
Ol, _champanhe_! Abracemo-nos, deliremos!... Isto  s para dar ideia:
o que se lia no _Times_ tinha outra crueza d'expresso, outro arranque
d'orgia!...

Imaginem o effeito ao outro dia, quando milhares de numeros do _Times_,
contendo esta abominao, penetraram n'esses recatados interiores
inglezes, onde (segundo aqui dizem) habita o typo superior da familia
christ. O _Times_, o mais caro dos jornaes,  a folha querida da
aristocracia, da alta burguezia, da grande finana. No se comprehende
um _gentleman_ inglez, do padro classico, sem ter logo pela manh
percorrido conscienciosamente o seu _Times_:  como o corao mesmo da
Inglaterra, que elle sente um momento entre as mos e onde verifica cada
dia, com orgulho, um accrescimo de fora, uma pulsao maior de
vitalidade. Ordinariamente  ao almoo que se l o _Times_: e n'essa
manh, vendo-se na quarta pagina, em lettras grossas, O DISCURSO DE SIR
WILLIAM HARCOURT EM MANCHESTER, corria-se naturalmente a elle com
curiosidade, j pelo interesse nacional, j pela sympathia que inspira
Sir William, o seu nome historico, a solida pureza dos seus principios,
a sua alta posio...

Imaginem-se ento as scenas! Aqui  uma velha e devota duqueza, cheia de
enthusiasmo pelas questes sociaes, que se aconchega na sua rica
poltrona de tapearia, para melhor saborear a nobre oratoria de Sir
William--e que de repente estaca, encara o _Times_, limpa as lunetas,
imaginando ter lido mal, torna a percorrer o periodo, passa a mo
tremula pela face, procura anciosamente o seu frasco de saes, volta
ainda a verificar se a no enleia uma allucinao, e, arremessando emfim
para longe a gazeta immunda, sae da sala a passos offendidos, pensando
comsigo que so esses os resultado de um seculo de democracia, de
materialismo e de libertinagem!

Alm  um casal de noivos, que, aninhados no mesmo soph ao p do fogo,
com os braos entrelaados, precorrem o _Times_, menos para saber da
questo no Egypto, do que para ler o _compte-rendu_ de outros casamentos
elegantes ou as noticias de Paris, onde tencionam ir findar a sua lua de
mel; mas encontram o discurso de Sir William, do-lhe um olhar
distrahido, quando de repente lhes salta d'entre as linhas o jorro
immundo das apostrophes eroticas!

N'outra casa  uma fresca e loura creaturinha de desoito primaveras,
puro lyrio domestico, que faz a leitura do _Times_ a um velho tio
general, tolhido de gotta, reliquia veneranda das guerras peninsulares;
o velho escuta, pouco attento  politica do dia que detesta, mas muito
ao encanto d'aquella voz d'oiro ao seu lado; de repente, porm, o pobre
anjo gagueja, pra, faz-se da cr d'uma rosa, treme, a sua vergonha 
tal que lhe saltam as lagrimas dos olhos, e foge, deixando o immundo
_Times_ nas mos do general assombrado:--ou ento, caso peior, a doce
rapariga, na sua candura de flr d'estufa, no comprehende, imagina que
_aquillo  politica_, continua a ler com a sua voz d'oiro,--e o
veneravel tio ouve de repente sahir dos labios de boto de rosa, feitos
s para murmurar o que ha de mais casto na musica de Weber, um enxurro
torpe de babugens lubricas.

 medonho! E uma feio curiosa do incidente  que este negro attentado
s foi descoberto nos escriptorios do _Times_ s onze horas da manh:
isto , quando o jornal j estava distribuido em Londres, levado pelos
trens de madrugada para toda a provincia, e pela mala de Dover para toda
a Europa! A administrao do _Times_ telegraphou logo a todos os seus
agentes no mundo, para suspender a distribuio _e comprar por todo o
preo_ os torpes numeros j espalhados.

S estes telegrammas custaram perto de _dois contos de reis_. Mas o
melhor  que apenas se soube a historia da catastrophe, e que o _Times_
comprava por todo o preo o numero maldito--esse numero tornou-se logo
um valor, um papel de credito, base de especulao, com cotaes no
mercado, eguaes, se no superiores, aos fundos de muita nao
civilisada. Eu sei d'um restaurante que toma regularmente quatro numeros
do _Times_--e que vendeu os seus exemplares immundos a duas libras cada um.

Realizaram-se, porm, ganhos maiores. O _Times_ no regateia, paga. E
at hoje diz-se que em comprar essa fatal edio tem gasto j perto de
_quarenta contos_.

O autor da facecia ainda se no descobriu.  sem duvida, um monstro, e
seriamente merece a tremenda sentena com que decerto os tribunaes
inglezes o demoliriam, se elle apparecesse. Mas, por outro lado,
considerando que quarenta contos so apenas um somma minima para a
fortuna do _Times_, e que esta gazeta austera leva o seu pedantismo e a
sua empolada _pruderie_ a sustar, como obscena, a meno sequer dos
livros de Zola e de outros realistas,--eu no posso deixar de pensar,
com laivos de regosijo, que a Providencia tem armas obliquas e terriveis!

Nunca, decerto, desde a inveno da imprensa, aconteceu um jornal
publicar, na sua melhor pagina, em letras salientes, doze linhas
immundas de desbragada obscenidade; e ser o _Times_, o primeiro que o
fez, o _Times_, o mais pesado, mais moroso, mais solemne, mais
pedagogico, mais reverente de todos os jornaes que tm existido desde a
inveno da imprensa--, digam o que disserem, divertido.

E, terminando, peo s almas caritativas e justas uma ba risada  custa
do _Times_.




  INDICE

                                    Pag.
  Afghanistan e Irlanda.............   1
  cerca de livros..................  15
  O inverno em Londres..............  33
  O Natal...........................  45
  Litteratura de Natal..............  55
  Israelismo........................  63
  A Irlanda e a Liga Agraria........  77
  Lord Beaconsfield.................  95
  Os inglezes no Egypto............. 125
  O Brasil e Portugal............... 207
  A festa das creanas.............. 223
  Uma partida feita ao _Times_...... 231





End of Project Gutenberg's Cartas de Inglaterra, by Jos Maria Ea de Queirs

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work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
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approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
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Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
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