The Project Gutenberg EBook of Galata, by Antnio Joaquim de Carvalho

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org


Title: Galata
       egloga

Author: Antnio Joaquim de Carvalho

Release Date: June 8, 2007 [EBook #21780]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK GALATA ***




Produced by Pedro Saborano. Para comentrios  transcrio
visite http://pt-scriba.blogspot.com/ (This book was
produced from scanned images of public domain material
from Google Book Search)









GALATA

EGLOGA.


PRIMEIRA, E SEGUNDA PARTE


POR

ANTONIO JOAQUIM DE CARVALHO.


LISBOA: M. DCCCI.

NA OFFIC. DE SIMO THADDEO FERREIRA.

_Com Licena da Meza do Dezembargo do Pao._





AO LEITOR.


Esta primeira Egloga, ha 16 annos impressa, agora fao-a reimprimir, para
tirar-lhe as lisongeiras Cartas, para emendar-lhe algumas passagens com
melhor escolha, para curar-lhe alguns vicios gerados por aquelles, que duas
vezes a reimprimro, a pezar do meu gosto, e para ligar ambas as Partes,
por que a primeira d a materia para a segunda.

Se me increparem, porque fao domavel o Gigante Polyfemo, contra a opinio
dos melhores Poetas, respondo: He verdade, que a Fabula nos mostra este
Cyclope hum monstro de crueldade, de extraordinarias foras, e destemido:
hum tragador de seis companheiros de Ulysses, e delle mesmo o seria, se
astucioso no lhe fugisse: hum soberbo em fim, que declamava, que nem ao
mesmo Jupiter temia; mas pergunto: Este Gigante era humano, ou no? Todos
me diro, que sim. Pois se era humano, era sugeito ao imperio da Razo, com
cujas armas o ataco, e o veno: e s seria inverosimil, se eu com a razo
accommettesse hum Tigre, hum Leo, huma Serpente. Se os mais no pizro
esta estrada, porque no quizero, pizo-a eu, porque quero, e por que
posso, sem atropelar a verosimilhana.

Se altero o caracter da Egloga; se me aparto da simplicidade pastoril; se
fao inflammar Polyfemo, e respirar vingana, he porque eu no pinto hum
daquelles Pastores do Seculo de oiro, em que reinava a mansido, e o socego
de espirito; pinto hum Cyclope, hum Pastor ferino, que abrazado no ciume, e
na ira, deo barbara morte ao mancebo cis, lanando-lhe em cima hum
penhasco: catstrofe, que eu no pinto, por no fazer huma Egloga com
espirito de Tragedia.

Eu tive a fortuna, de que alguns homens (discrtos homens!) dissessem, que
no era minha a minha Egloga Deploratoria intitulada JOSINO na chorada
morte do Principe o Senhor D. JOS. Eu serei feliz, se agora tiver a mesma
fortuna, porque se esses contrastes duvidarem de ser minha esta obra, boa
ser ella pela sua avaliao. Esses, que duvido, examinem, busquem,
descubro o legitimo Author, e o mostrem para gloria sua, e descredito meu.
Conhea o mundo o homem virtuoso, o homem raro, que se canou naquella
composio, para renunciar em mim a posse, o lucro, e o credito della. E se
eu a furtei, onde ests homem roubado, que no acodes ao teu cabedal,
sabendo, que em meu poder existe? Denunca-me; clama justia contra mim.
Ah! Ninguem falla? Ninguem me acusa? Pois acuso-me eu, mas he da temeridade
de emprehender a guerra sem ter armas: de querer lugar na Rpublica das
Letras sem ser Cidado de Athenas: de fazer Versos sem beber da Castlia,
sem soccorro das Musas, sem conhecer Apollo. Os Versos (toscos Versos) que
ha trinta annos escrevo, so os denunciantes, as testemunhas, e os Juizes
do meu crime. Acusem-me, como eu me acuso deste delicto; porm no de
roubador, officio imfame, que no cabe em almas honradas; mas se os
crticos me arguirem pelos pobres, insulsos Versos, devem igualmente
attender em minha defensa, que estes se no tem mel, tambem no tem veneno;
se no deleito, tambem no ferem. Isto supposto, fao-me Justia.




GALATA

EGLOGA.




PRIMEIRA PARTE.


INTERLOCUTORES.

POLYFEMO, E LAURINDO.


POLYFEMO.

Ah! Campos, campos meus! Vs, que algum dia
  Me servieis de amavel companhia:
Vs, que os ouvidos daveis ao meu canto,
  Prestaimos boje, para ouvir meu pranto;
Se bem, que assz me custa magoar-vos,
  Depois de com meu canto deleitar-vos;
Mas eu adoarei a vossa mgoa,
  Dando-vos de meus olhos rios de agua:
Com ella florecei para os viventes,
  E  custa do meu mal vivei contentes,
Que eu no vos lograrei, no; nem j gora
  A minha morte pde ter demora;
Os Ceos a mandem, que em tormentos fortes
  Huma morte he melhor, que muitas mortes.
Ah! Campos, se vs fosseis animados,
  E ponderasseis bem os meus cuidados,
De mim aprenderieis, que a ventura,
  Ao que nasceo feliz, he que procura:
E Aquelle, que nasceo j desgraado,
  Sempre lhe foge com semblante irado.
Mas quem he, que este monte vem subindo?
  Pelo trage he Pastor: sim, he Laurindo,
Que talvez magoado d'escutar-me,
  Quer meios procurar de consolar-me:
Em vo, em vo se cana, se o intenta;
  Que em vez de alivio dar-me, a dor me augmenta.
Agora mais me vejo impaciente,
  Que at me afflige a vista de hum vivente:
Mas elle vem, no posso resistir-lhe,
  J no posso esconder-me, nem fugir-lhe;
Se fujo desta parte, he ribanceira,
  Se daquella, me affogo na ribeira;
Pois nella acabarei, morrer no temo;
  De huma s morte acabe Polyfemo.


LAURINDO.

Detem-te, amigo, e espera, que fazias?
  A ti mesmo matar-te pertendias?
Seres comtigo mesmo mpio tyranno,
  Para hum damno evitar com maior damno!


POLYFEMO.

Deixa, deixa, que eu morra por piedade,
  Porque morrendo, evito a crueldade
Dos mpios Deoses: ah! Viver no quero,
  Pois vida to penosa no tolro:
Tu contars  falsa Galata,
  Que por ella me expuz  morte feia;
Porm no peito o corao me estalla,
  Vendo, que cis tyranno ha de logralla:
Mas logre-a, logre-a, embora, oh que tormento!
  Que eu s, por tal no ver, morrer intento.


LAURINDO.

Socega, amigo, queres dessa sorte
  Dar a vida, por quem te causa a morte?
Queres vingar-te della socegado?
  Desprezou-te, despreza-a: ests vingado.


POLYFEMO.

Desprezar Galata, e offendella
  Quando s morrer por ella!
Isso no, que depois de eu adoralla,
  Valor no tenho para maltratalla:
Ella pratique embora a crueldade,
  Que eu no devo imitar-lhe a impiedade.


LAURINDO.

Conheces, que te offende essa perjura,
  E inda morres por ella? Oh que loucura!


POLYFEMO.

Sim, amigo, traidora a considero;
  Mas quiz-lhe bem: querer-lhe mal no quero.
Eu no lhe amo o rigor, sim a belleza,
  Que he parto singular da natureza:
Tu, que a conheces, v, se razo tenho
  Para adoralla com to grande empenho:
O lindo rosto, aquelles olhos bellos,
  To matadores, que em chegando a vllos,
Parece, que do rosto lhe saltavo,
  E que para no vllos me cegavo.
As loiras tranas, bem como doiradas,
  Sobre seus alvos hombros espalhadas.
Se as costas me voltava por desprezo,
  Como que a ellas me levava prezo:
Nas lindas faces se me figuravo
  Duas papoilas, que entre a neve estavo.
A boca, que em conceitos sempre acerta,
  Parecia huma rosa meia aberta;
Mas quando grave, e graciosa ria,
  Oh quanto ento mais bella parecia!
Mostrando os claros dentes, que esmaltavo
  Seus beios, que de ncar se formavo;
E co'a fora do riso as faces bellas
  Duas covas fazio como estrellas.
As mos por engraadas, e pequenas
  Parecio formosas aucenas.
Mil vezes quiz beijar-lhas; porm ella,
  Que o damno prevenia na cautla,
Escondendo-as, de mim mais se affastava,
  Que at nisto ser casta bem mostrava.
Estas bellezas, esta honestidade
  Foro prizes da minha liberdade,
E quanto as lindas mos mais me negava,
  Tanto as doces prizes mais me apertava;
Mas n'huma ssta vi, que ella dormia
  Junto do pote, que na fonte enchia:
Vou-me p ante p, e hindo a beijar-lhas,
  Me arrependi, porque temi manchar-lhas.
Nem s para pegar-lhes valor tinha,
  Porque mo to grosseira, como a minha,
No devia tocar aquella neve,
  Que s com outra igual tocar-se deve;
Mas immovel fiquei, pois s gostava
  De ver a bella aco, em que ella estava.
O branco rosto sobre o curvo brao,
  Outra mo tambem curva no regao:
O corpo reclinado sobre a fonte,
  E a curta sombra, que lhe dava o monte,
S metade do rosto lhe cubria,
  Que muito mais formosa inda a fazia.
Eu, que s me detinha em admiralla,
  Sem que tivesse intento de acordalla;
Como de gosto estava arrebatado,
  Sem que eu sentisse, cahe me o cajado:
D-lhe nos ps: acorda ella assustada,
  V-me, levanta-se, e com voz irada
Me diz: "Vil, s comigo! Que fazias?
  "Dize: acaso offender-me pertendias?
"Se por gigante intentas de vencer-me,
  "Matar-me poders, mas no render-me:
"Que a minha honestidade he to constante,
  "Que no cede  violencia de hum gigante.
No, (eu lhe respondi) no te offendia:
  Nem de ti outra cousa pertendia,
Mais do que ao menos, pois te no lograva,
  Ver-te: e so com te ver me contentava.
Se nisto te offendi, ou me desculpa,
  Ou me castiga, se me achares culpa:
Que se eu da tua mo for castigado,
  Serei ditoso, se antes desgraado.
Mas dize-me, cruel, se me estimaste,
  Porque razo sem culpa me deixaste?
E se indigno me achavas para amante,
  Porque juraste de me ser constante?
Que resposta daria a fementida?
  "Vai-te louco, (me diz) que aborrecida
"At de ouvir-te estou, nem posso dar-te
  "Outra razo maior de desprezar-te,
"Seno, que as Leis de Amor j no tolero:
  "Amei-te, em quanto quiz, hoje no quero.
"Em fim, tu no s do meu agrado:
  "Basta: vai-te, que ests desenganado.
E com este rigor aquella mpia
  Foge: chamo-a, mais ella me fugia:
Eu vendo a ir to bella, quanto irada,
  Corpo gentil, cintura delicada,
Afflicto exclamo: Ah! Deshumana fra!
  Nunca te eu vra, ou nunca te perdra.


LAURINDO.

Ainda louvas a ingrata por formosa,
  Quando enorme se fez, sendo aleivosa?
Polyfemo, se queres ser discreto,
  No recordes a offensa, nem o affecto:
Que o affecto tambem o tempo o gasta,
  E a offensa he parto de huma louca, basta
Que  razo nunca os olhos tem abertos,
  E sem luz que far? Mil desacertos:
Por isso quelle, que extremoso a trata,
 A paga, que lhe d, he ser-lhe ingrata.
Bem como o bravo lobo carniceiro,
  Que v, que a innocencia de hum cordeiro
No pde entranhas ter para aggravallo,
  Por isso mesmo quer despedaallo;
Mas se este acha hum rafeiro, que o extingue,
  Tambem ella achar quem bem te vingue:
E no entanto o melhor he esquecella,
  E se possivel for, nunca mais vella.


POLYFEMO.

Tambem deixar de a ver he impossivel,
  Porque sem vella, a dor mais insoffrivel
Creio, que dentro n'alma padecesse,
  Como a flor, que sem Sol murcha, e no cresce.
Ah! Se eu agora a visse, e lhe fallasse,
  Talvez que a meus gemidos se abrandasse:
E pde ser, que a achasse arrependida
  De perder, quem por ella perde a vida.
Oh quo feliz seria a minha sorte,
  Se ella abrandasse aquelle genio forte!
Do desprezo, e d'affronta eu me esquecra,
  Se hum riso, se hum sinal de amor me dra.
Tudo, tudo por ella perderia:
  Sem gado, sem choupana ficaria:
Sujeitar-me-hia pelos seus amores
  A viver das esmolas dos Pastores:
Pois sem logralla, tudo me he penoso,
  E logrando-a, sou pobre; mas ditoso.


LAURINDO.

Se amas com tanto extremo a huma traidora,
  Que mais fizeras, se fiel te fra?


POLYFEMO.

Esta alma, que me anima, se pudesse,
  Creio, que em paga d'esse amor lha dsse,
Amando-te, era justo premialla;
  Mas desprezando-te, he loucura amalla:
Sim, que o homem no mostra ser discreto
  Amando a falsa, que tem outro objecto:
Pois daqui nasce a mancha da deshonra,
  E antes se perca a vida, do que a honra.
Que se havia dizer na nossa Alda,
  Se depois dessa ingrata Galata
Por outro te deixar, tu a buscasses,
  Esquecido d'affronta inda a estimasses?
E no tremias, no te envergonhavas
  De dizerem, que a honra desprezavas?
Ah! Querias do amor ser arrastado,
  Perdendo a fama, e credito de honrado?
Dize, responde, a falla no escondas;
  Mas ou me vence, ou nada me respondas.


POLYFEMO.

Nada responderei por defender-me,
  Pois por sbio chegaste a convencer-me:
Se a paixo me cubrio de escuridade,
  Tu me mostraste as luzes da verdade:
Agora j conheo, que essa mpia
  Mais fra, que o drago, que o monte cria,
Nem amor, nem piedade j merece,
  Pois por outro me deixa; e assim se esquece
Da f, que me jurou, e da lealdade,
  Com que sempre a tratei; que a falsidade
No podia caber n'hum peito amante,
  Que ainda offendido mostra ser constante.
Eu, que at s Pastoras, quando as via,
  Nem ainda, o Ceo vos guarde, lhes dizia:
E se acaso de longe as avistava,
  Por lhes fugir, a estrada rodeava.
Tudo isto por fineza quella infame,
  Que, s to feio nome, he bem lhe chame;
Porque a saber, que s outras eu fallava,
  No julgasse, que alguma me agradava;
Porm que premio vim a tirar disto?
  Sabes o que? Com todos ser malquisto:
Desprezarem-me todos, ver-me agora
  Aqui s, sem amigos, nem Pastora:
E a falsa, tanto extremo desprezando,
  Amar outro, e ficar de mim zombando!
E soffro tal injria sem vingar-me!
  Poderei socegar sem despicar-me!
No, no socegarei, que hum peito irado
  Socega s depois de estar vingado.
Sim, vou j despicar-me... Mas que intento!
  Que fao! Aonde vou! Que pensamento
He este, que me occorre! Oh quanto errado
  Gyra o discurso de paixo cercado!
Eu matar Galata! Oh que vileza!
  Naquella rara imagem da belleza
Descarregar o golpe penetrante!
  E havio ver meus olhos nesse istante
Aquelle brando peito traspassado!
  O rosto, bem qual Sol quando eclipsado!
E os olhos, que daquelle Sol so raios,
  Perdendo a luz na sombra dos desmaios!
Aquellas lindas faces to cradas
  Eu poderia vellas desmaiadas!
A boca rubicunda, e graciosa,
  Bem qual entre jasmins a linda rosa,
Eu teria valor, teria vida,
  Para vella sem graa amortecida!
E havio escutar-lhe os meus ouvidos
  O pranto, os ais, e os ultimos gemidos:
J com trmola voz, e a cada instante
  Vella convulsa, afflicta, e delirante,
Sem alento, sem cr desfalecida,
  Dando hum suspiro, e acabando a vida!
Oh Ceos! Que horror concebo em ponderallo!
  Eu tremo, glo-me, e de dor estallo:
Que corao to barbaro haveria,
  Que obrasse to enorme tyrannia?
Eu teria valor, se a offendesse,
  Para vella morrer, sem que eu moresse?
No, no teria tanta impiedade,
  Que vendo cahir morta hume Deidade,
No me sahisse deste insano peito?
  O duro corao de dor desfeito.
Nem mais contemplar quero tal desgraa,
  Que parece, que o Ceo j me ameaa,
Que a terra vejo abrir, que j comigo
  Se abate, e me confunde por castigo.
Ah! Minha Galata, vive embora,
  Bem que me sejas infiel, traidora:
Ainda te amo, se bem, que o no mereas;
  Eu padea, mas sem que tu padeas:
Vive feliz, e logra o teu amante:
  Oh justos Ceos, que dor to penetrante!
Mal posso respirar, que at o alento
  Me soffoca a violencia do tormento.
Vai-te, amigo, e me deixa s hum pouco,
  Que eu no estou em mim, eu estou louco:
Oh! Venha embora a morte rigorosa
  Acabar-me esta vida to penosa.


LAURINDO.

Deixa, amigo, esse louco desvario,
  Que o ser de homem deslustra, offende o brio:
E que o mundo dissesse pertendias,
  Que por huma mulher enlouquecias?


POLYFEMO.

Tambem dir, que no me altra a offensa,
  Pois tolro a inimiga na presena.


LAURINDO.

Perdoando-lhe tu por generoso,
  Que ha de o Mundo dizer? Que s virtuoso.
Mas se a fraca mulher mpio punias,
  S de cubarde o nome vil terias.


POLYFEMO.

Sim, perdoada est: eu lhe perdoo,
  Pois da sua fraqueza me condoo;
Tambem, porque talvez seja innocente,
  Se bem que a culpa a accuse delinquente;
Galata he honesta, he recatada:
  Pois quem duvida fosse requestada
D'aquelle cis traidor, e que a enganasse
  Com vs promessas, para que o amasse?


LAURINDO.

Pensas bem que a mulher de honesto estado,
  Se d seu corao, sempre he rogado;
Se bem que o rogo algumas no convence;
  Mas a feia ambio a muitas vence.


POLYFEMO.

Sim? Pois hoje vers, que a minha ira
  S contra aquelle infame se conspira:
Elle, por me arrancar de amor a palma,
  Me roubou a doce alma da minha alma,
Vista dos olhos meus, bem como estrella,
  Que luz me dava, para poder vlla.
Clara luz, doce vida, alma preciosa,
  Tudo perdi. Oh scena lastimosa!
Tudo o vil me roubou; porm protesto
  Fazer o seu castigo manifesto
Ao Ceo,  terra, a todos os viventes:
  Elle me offende, as culpas so patentes;
Pois o proprio delicto he, que o condemna,
  A que segundo a culpa, sinta a pena.


LAURINDO.

Queres que a morte de cis justifique
  Huma cga paixo, hum vil despique?


POLYFEMO.

Quero, porque da injria se no gave,
  Que o proprio sangue a sua culpa lave:
E se neste lugar j o apanhra,
  O corao do peito lhe arrancra.


LAURINDO.

Dize: se a Galata perdoaste,
  Depois que a culpa enorme lhe provaste,
O Pastor, que he talvez menos culpado,
  Porque no he, como ella, perdoado?


POLYFEMO.

Ella sim: me offendeo; mas obrigada,
  E merece perdo por violentada;
Mas elle no he digno de clemencia,
  Pois mais culpado est pela violencia.


LAURINDO.

Aqui no ha violencia, ha certa culpa,
  Que Amor condemna, e logo Amor desculpa,
Delicto immensas vezes praticado
  Por quem ama, e pertende ser amado.


POLYFEMO.

Assim se obra; mas sempre he falsidade,
  Quando offende as leis santas d'amizade.


LAURINDO.

He mo quebrar a Lei; mas que te espanta,
  Se ella te jurou f, e a f quebranta?
Polyfemo, discorre mais prudente;
  Vence-te a ti, se queres ser valente:
Eu teu amigo sou, eu sou mais velho,
  Tu, que s mais moo, toma o meu conselho
No falso Amor no faas confiana:
  Desterra a ira, foge da vingana,
Que esta inquieta, aquella te amofina:
  De qualquer dellas sempre vem ruina.
Males, que tu no queres supportallos,
  No deves para os outros desejallos,
Que s vezes so, qual pedra despedida,
  Que no mesmo que a deita, abre a ferida:
Queres a morte de cis? No ponderas,
  Que pde em ti cahir, se nelle a esperas?
Teme o Ceo vingador, teme-lhe a ira:
  O Ceo, que a vida d, s elle a tira:
S elle sobre as vidas tem dominio,
  E no deves oppr-te ao seu designio;
Nem ao menos vingar-te levemente
  Poders, sem que fiques delinquente.
Olha, que para Jupiter Supremo
  He menos, que hum mosquito, hum Polyfemo.
 voz s do seu raio penetrante
  Treme de susto a rocha mais constante.
Foge, foge de o veres irritado,
  E no faas, que a mo levante irado.
Ah! J, mudas de cr, tremes, e pensas?
  Pois a ti mesmo, espero, te convenas.


POLYFEMO.

Tremo de confuso, e de mim tremo;
  Os castigos do Ceo Respeito, e temo;
Mas o affecto, a paixo, a honra, a offensa
  No me deixo aco, em que eu me vena:
Vejo a justa razo, quero seguilla;
  Mas a paixo vem logo a destruilla:
Que este meu corao nunca descana
  De chamar-me ao caminho da vingana.


LAURINDO.

Qualquer paixo, qualquer impaciencia
  Se vence com discurso, e com prudencia.


POLYFEMO.

To desgraado sou, que neste empenho
  Nem j discurso, nem prudencia tenho:
Quem vio to enredado labyrintho
  Como este, que na ida, e n'alma sinto!
Deoses, se justos sois, ou dai-me a morte,
  Ou me livrai de confuso to forte;
Eu se vingar-me vou, me precipito;
  Porque aos Deoses offende o meu delicto:
Se assento em perdoar, no persevero,
  Porque em vendo o offensor, logo me altero;
Porm hum novo meio j me occorre:
  Melhor acerta, quem melhor discorre.
Eu no quero incitar ao Ceo clemente,
  Mas para no vingar-me do insolente,
Eu fugirei de o ver, que ao vllo, logo
  A cinza quente exhalaria fogo.
Deixarei estes monte, estes prados,
  Que a verdura me davo para os gados:
Irei viver nas mais occultas brenhas,
  Onde gente no veja, mas s penhas:
Da vingana, e d'affronta assim me privo,
  E ninguem sabe se sou morto ou vivo.


LAURINDO.

Resolves bem, amigo; sim, he justo
  Fugires do perigo a todo o custo;
Porque busca a desgraa todo aquelle,
  Que vendo o damno, no se aparta delle:
Perca-se a Patria, perca-se a fazenda,
  Perca-se tudo, e nunca o Ceo se offenda.
Tu sim perdes lavoiras, e o serrado;
  Mas o Ceo, que esses bens te havia dado,
Te dar novos campos mais extensos,
  Donde possas colher frutos immensos:
Quem perder pelo Ceo, fique esperando,
  Que em vez da perda, ficar lucrando:
Se a tua choa perdes, caro amigo,
  A minha he grande, vivirs comigo:
Para a tua lavoira dar-te-hei terra
  Da campina, que tenho, alm da serra;
Dar-te-hei duas palmeiras mui frondosas,
  Donde colhas as tmaras gostosas:
Dar-te-hei duas formosas aveleiras,
  Tortas sepas, viosas oliveiras:
E do mais fruto, que o Ceo der, pendente
  Repartiremos ambos irmmente.
Para o gado l tens viosa relva,
  L tens para o recreio a linda selva,
Onde achars hum bosque mui sombrio,
  De huma parte arvoredo, d'outra hum rio:
Alli se ouvem os pssaros cantando,
  Alli se escuta o rio murmurando,
Nelle ando de contnuo os pescadores,
  Nelle pesco tambem alguns Pastores
O saboroso peixe  longa cana,
  Ou com o iscado anzol, que mais o engana:
Em fim, he campo ameno, he deleitavel,
  Fructuosa a terra, o clima saudavel:
L vivirs, amigo, descanado,
  Sem ver a causa do mortal cuidado:
Pois naquella distancia por extensa
  No vs o offensor, nem vs a offensa.


POLYFEMO.

Discreto amigo, amigo verdadeiro,
  Tu fostes dos humanos o primeiro,
Que me soube vencer: eu que algum dia
  Nem a razo, nem Deoses conhecia,
Hoje a razo abrao, os Deoses temo;
  Tu me fizeste hum novo Polyfemo.


LAURINDO.

Convence-te a razo, porque s humano,
  Que a razo s no doma o bruto insano.


POLYFEMO.

Oh grande, oh raro exemplo d'amizade!
  Oh corao, gerado de piedade!
Despido d'ambio, e d'avareza,
  S inclinado  msera pobreza!
Deixa, que por mostrar-me agradecido,
  A teus honrados ps chegue abatido;
E esta boca, por quem sers louvado,
  Beije o cho duro, dos teus ps tocado.


LAURINDO.

Suspende, Polyfemo, eu no pertendo
  A tua gratido, antes me offendo,
De a meus ps te prostares abatido,
  Acatamento s ao Ceo devido.


POLYFEMO.

Oh quanto s digno de louvor completo,
  Por liberal, humilde, e por discreto!
Aprenda o avarento ambicioso
  A ser mais liberal, mais caridoso:
O que da santa, e msera pobreza
  Foge, como quem foge da vileza,
Veja, que o rico, o paderoso, o nobre
  Talvez, chegue a pedir esmola ao pobre:
Esse, que as minas abre, e colhe o ouro,
  Julgando a vida ter no seu thesouro,
Veja, que a vida, e ouro n'hum momento
  He como o fumo, que consome o vento:
Siga os teus passos o soberbo inchado,
  Que julga, que a ventura tem ao lado:
Olhe, que a seca o grosso rio esgota,
  E at com vento o cedro se derrota.
Longe, longe de ns,  vicio forte,
  Vicio mais feio, do que a feia morte.


LAURINDO.

No tero parte em ns vicios danados,
  Nem pizar a flor dos nossos prados;
Que esta l, que nos cobre, esta pobreza
  Contra o vicio nos serve de defeza.
Vamos gozar a santa paz ditosa,
  Vamos colher a fruta saborosa
Da minha bella Alda: vem, amigo,
  Que eu no me ausento, sem que vs comigo.


POLYFEMO.

Vamos; mas ah Laurindo, quem diria,
  Que por huma mulher, por'huma mpia
Eu havia deixar a minha Alda,
  E ir d'esmolas viver na terra alheia?
Oh triste Polyfemo! Oh desgraado!
  De ti deves queixar-te, e no do fado:
Em mil exemplos o perigo viste,
  Devias fugir delle, no fugiste?
Pois agora o teu erro irs pagando,
  E o damno sem remedio lamentando.
Tome exemplo de mim, o que ama cgo,
  Julgando ter no amor todo o socego,
Veja a minha desgraa, e tema o dano,
  Que sempre nasce deste amor profano:
No prenda a doce, amavel liberdade,
  J que o Ceo lhe quiz dar livre a vontade:
Fuja do amor, e guarde esta doutrina,
  Se quizer viver longe da ruina.
Mas ah! Nem j do amor quero lembrar-me,
  Que he facil outra vez precipitar-me.
Adeus,  campos meus, campos amados,
  Que me daveis o fruto, e pasto aos gados:
J no hei de ferir vossos ouvidos,
  Nem j respondereis aos meus gemidos.
Adeus,  rio meu, que me obrigavas,
  Quando ao meu gado tuas aguas davas;
Mas pago ficas, que essa grossa enchente
  A augmenta de meus olhos a corrente.
Adeos, plcida fonte, onde algum dia
  Se alegre rias, eu alegre ria;
No prazer te imitei; mas hoje afflicto
  S no pranto, que verto, he que te imito.
Lembra-te,  fonte, que a cruel Pastora,
  Essa, que sem razo me foi traidora,
Por ti jurou, que essa agua lhe faltasse,
  Se ella de amor a pura se manchasse:
Agora deves, pois faltou perjura,
  Por castigo negar-lhe essa agua pura:
Como ella contra si justia pede,
  Ou procure agua longe, ou morta  sede;
Mas ah! Que digo! He muita crueldade:
  No, no lhe negues agua por piedade,
Tem della compaixo, d-lhe desculpa,
  Basta s, que a castigue a propria culpa.
Adeos,  prado ameno, as flores bellas
  Eu te roubei para tecer capellas:
Perdoa-me, e talvez que inda melhores,
  Que  custa do meu mal ters mais flores:
E apague a minha culpa, que te aggrava
  Este pranto, que humilde os ps te lava.
Adeos, Pastores, doces companhias
  Dos meus passados, e felices dias;
Porm dias to breves, quanto he breve
  No Irverno a calma, no Vero a neve:
Se o meu canto aprendestes algum dia,
  No tempo da ventura, e d'alegria
Hoje do meu desgosto, e do meu damno
  Podeis lucrar mais util desengano,
Vendo, por breve ser minha ventura,
  Quanto a glotia do mundo pouco dura:
Que apenas nos faz ver hum falso gosto,
  Logo atrs delle vem maior desgosto.
Adeos,  Galata; mas que digo!
  Cuidei, que tinhas inda o nome antigo;
Mas no deves ter j nome de humana,
  Sendo Leo feroz, vibora insana:
Fica-te embora em paz, e s te peo
  De mim t'esqueas, que eu de ti m'esqueo:
Sim, farei, que no tornes a lembrar-me
  Para querer-te, nem para vingar-me:
E poderemos s ficar lembrados
  Do exemplo, com que fomos doutrinados:
Mas v, quanto differem as doutrinas,
  A que eu te dei, daquella, que me ensinas:
Eu te ensinei a ser fiel, constante,
  Tu me ensinaste a ser falso, inconstante;
Mas nunca me seguiste a lealdade,
  Nem eu soube seguir-te a falsidade;
Porm essa doutrina; inda que inutil,
  Estimo-a, porque em parte me foi util:
Se at aqui das Pastoras no fugia,
  Porque a sua traio no conhecia,
J della fugirei desenganado,
  Como quem foge do animal damnado.
Longe, longe de mim, mpias tyrannas,
  Ide viver com fras deshumanas:
Em fim, parto a morrer: Adeos, Pastora,
  Adeos, mpia: Adeos, falsa: Adeos, traidora.




SONETO.


Novo exemplo aqui tens, msero humano,
Que incensas os Altares da vaidade,
Aqui te mostro a estrada da verdade,
Por onde ao Templo vs do desengano:

De Polyfemo o lamentavel damno,
De Galata a horrenda falsidade
Te excitem a fugir da crueldade,
Que he premio certo desse amor tyranno!

Elle consome os bens, a honra offende,
O socego perturba, arrisca a vida,
E o corao mais livre assalta, e rende.

Ah! Destre essa mo fra, humicida,
Rompe os duros grilhes, com que te prende,
Quebra-lhe as setas, ficar vencida.




GALATA

EGLOGA.




SEGUNDA PARTE.

DO MESMO AUTHOR.


INTERLOCULORES.

GALATA, LAURINDO, E CIS.




GALATA.

EGLOGA.


A bella, incomparavel Galata,
  A Nynfa, tutelar, gloria d'Alda
O seu cis perdido busca afflicta:
  Corre, examina, geme, chora, e grita:
"cis! cis! Meu bem! Onde te escondes?
  "Eu rouca de chamar-te, e no respondes?
"Se nas margens do rio por ti clamo;
  "Mais foge o rio, quanto mais te chamo.
"Se  fonte vou teu nome repetindo,
  "Ella vai murmurando, e vai-se rindo.
"S este monte de me ouvir magoado,
  "Se eu te chamo, elle chama, e tu calado!
"Ah meu cis! meu bem, se inda tens vida,
  "Soccorre esta, que he tua, assz perdida.
"E se aos campos Elysios j partiste,
  "L vers breve a Galata triste.
"A ti me ha de ligar a morte crua;
  Pois tu s a minha alma: eu alma tua.


LAURINDO.

Que vozes, ternas vozes to sentidas
  Os montes ferem de afflico nascidas!


GALATA.

Ah Pastores, que, alegres, divertidos
  Cantais ao triste som dos meus gemidos!
Se este pranto vos move  caridade,
  Deparai-me o meu cis, por piedade.


LAURINDO.

A voz he de mulher. que ao longe grita.
  Quem pudra valer  triste afflicta!
Os duros cos, que este valle atro,
  Seno me engano, desta encosta so.
Eu vou por este pedregoso atalho
  Ver, se encontro, quem he, ver se lhe valho.


GALATA.

Ah! Ninguem j responde aos meus clamores?
  J no acho piedade nos Pastores?
Misera Galata! A que chegaste,
  Depois que amor no corao geraste!
Mas ah! Seno me engana a mata espessa,
  Hum homem para mim o passo apressa!
He Pastor: quem ser? No vejo tanto,
  Pois me escurece a vista o grosso pranto.
Ser o meu bom cis? Se elle fra,
  Huma nova alma eu concebra agora.
cis! cis! s tu? Responde, falla:
  Ou no he elle, ou no me estima, e cala:


LAURINDO.

He Pastora; e se no me engana a ida
  Pelo gentil semblante he Galata.


GALATA.

Ah! J vejo: j estou desenganada,
  Que o meu cis no he.  desgraada!


LAURINDO.

Galata, que tens? Tu, que algum dia
  Semeavas os campos de alegria,
Hoje com pranto, e vozes, que enternecem,
  Murchas as plantas, que ao teu riso crescem!


GALATA.

Feliz foi esse tempo; porm hoje
  De mim (qual rez ferida) o prazer foge.
Mas dize-me, Laurindo, acaso viste
  O meu cis, por quem suspiro triste?


LAURINDO.

Ha dias, que o no vi; mas que motivo
  Banha o teu lindo rosto em pranto activo?


GALATA.

Eu te mostro a origem, que ao mostralla,
  No triste peito o corao me estalla.
Ha tres dias... Oh dias de amargura,
  Mais negros para mim, que a noite escura!
Quando o Sol hia ver outro Orizonte,
  Deixando triste o rio, o valle, o monte,
Metto o fuso na rca, o gado chamo
  Para o pobre curral, vem ao reclamo:
Conto as cabeas, falta-me a Ovelhinha,
  Que eu estimava mais, que as mais, que eu tinha,
Por brincadora, esperta, e to malhada,
  Que parecia com pincel pintada.
Tinha-me tanto amor, que se eu gemia
  Ella ento nem brincava, nem comia.
Mas se me via alegre, ou se eu cantava,
  Ella ao meu lado de prazer saltava.
Eu afflicta a busquei t junto ao Tjo;
  Quando na margem o meu cis vejo.
Corre a ver-me, e no riso amor explica;
  Porm vendo-me afflicta, afflicto fica.
Pergunta-me a razo: conto o successo,
  E que procure a minha rez lhe pesso.
Elle me diz ento com vozes ternas,
  Vozes, que esta alma ha de guardar eternas:
"Ah! No chores, meu bem, minha alegria.
  "Em cujos olhos brilha a luz do dia!
"Se os encobres com pranto, e magoa enorme,
  "Queres, que o dia em noite se transforme?
"Fugio-te a tua Ovelha: eu ta procuro;
  "E por teus lindos olhos eu te juro,
"Que se ella viva est, e eu souber della,
  "Inda que arrisque a vida, hei de trazella;
"Mas se baldado for o meu empenho,
  "Das minhas escolhe huma, ou quantas tenho,
E com to terno amor me enchuga o rosto,
  Que me leva metade do desgosto.
Quiz partir, dava hum passo, ento parava,
  Como que em mim seu corao deixava:
Partio; e a cada passo.... ( que retiro!)
  Voltava para mim, dava hum suspiro;
Que o corao presago lhe dizia,
  Que era a ultima vez, em que me via.
E bem se verifica (oh Ceos! Conforto!)
  Que no me ha de ver mais, porque he j morto.


LAURINDO.

cis morto! Que dizes, Galata?
  Isso he certo, ou te engana a falsa ida?


GALATA.

Eu te exponho a razo, em que me fundo.
  Quem vio (oh Deoses) scena igual no Mundo
cis partio: passro-se dois dias,
  Dias de magoas, noites de agonias,
Em cada instante, que elle me tardava,
  Mil desgraas a ida me pintava.
Porm hoje no valle d'azinheira,
  Junto  ponte da plcida ribeira,
Debaixo de hum cipreste levantado,
  Cpia de mim, eu vigiava o gado;
Se bem que pouco vigiar podia,
  Quem de chorar j quasi nada via.
Canada de lutar com meu tormento,
  Meu unico, amargoso mantimento,
A affligida cabea ao tronco encosto,
  E sobre a curva mo inclino o rosto.
O somno, que ha dois dias meu no era,
  Veio piedoso, que antes no viera!
Pois me fez ver em sonho... Oh que desgraa!
  A causa desta dor, que me traspassa.
Eu vi... triste viso! Que alm da serra,
  Por hum dos regos da lavrada terra,
Hia o meu cis triste, suspirando
  Com prompta vista a minha rez buscando;
Outras vezes, olhando para a Alda,
  Clama saudoso: "Ah minha Galata!
Quando de entre hum pinhal... de o dizer, tremo:
  Sahe o barbaro, o manstro Polyfemo.
Toma-lhe o passo, e n'hum trilhado estreito
  Com dardo agudo lhe traspassa o peito:
Clamando: "Morre, vil, morre, inimigo,
  "Que inda mereces mais cruel castigo.
"Chama agora o teu bem, chama a fingida,
  "Grita por ella, que te torne a vida.
 violencia do golpe, o desgraado
  Solta do peito afflicto hum ai magoado
Trmulo, curvo, com a mo convulsa
  O peito aperta, donde o sangue pulsa:
Quer suster-se, no pde, a fora falta:
  A mo solta do peito, o sangue salta:
Vai vergando, e cahindo: hum tronco agarra:
  Este se quebra, o fraco p lhe esbarra;
E sobre hum mar de sangue da ferida
  Cahe exhalando a preciosa vida.
Com vista incerta, os olhos vidracentos,
  Trmula a voz, sem cr, j sem alentos,
Exclama, em fim, nas mos da morte feia:
  "Valei-me, Ceos, adeos  Galata.
E soltando hum suspiro, os olhos serra:
  Ferindo as plantas, magoando a terra.
Oh Deoses! Inda incerta esta desgraa;
  He qual farpo, que o peito me traspassa;
E se he certa, mandai, que a dura morte
  Sobre mim venha, e descarregue o corte:
Morreo cis por mim, por elle eu morra:
  Qual do seu, do meu peito o sangue corra:


LAURINDO.

Misera Galata enchuga o pranto,
  Que hum sonho falso no provoca a tanto.


GALATA.

Este sonho, a demora, e Polyfemo,
  Tudo me assusta, e a desgraa temo.


LAURINDO.

O sonho intimidar-me no devia
  Por ser falsa illuso da fantasia.
Do Pastor a demora, que te assusta,
  Tambem pde nascer de causa justa.
Se temes Polyfemo, o susto affasta:
  Comigo vive, eu nunca o deixo, e basta.
E desde que o domei por teu respeito,
  Tudo que eu mando, que elle faa, he feito.
Piza, piza, a teus ps essa agonia:
  Faze, que a fonte com teu riso ria.


GALATA.

Tu destres em parte o meu desgosto;
  Mas no consegues ver-me enchuto o rosto:
No: fazer que esta setta no me fira,
  S pde o meu Pastor. Ah! Quem o vra!
S pdem os seus olhos engraados
  Dar vista aos meus j cgos, e canados.
Mas temendo o rancor de Polyfemo,
  As proprias sombras dessas plantas temo.


LAURINDO.

Do triste Polyfemo o rancor deixa:
  Tu foste a causa, e s de ti te queixa.


GALATA.

A causa fui! Eu sou fra impestada,
  Que fizesse aquella alma invenenada?


LAURINDO.

A causa foste, sim, porque o amaste,
  E por cis, sem culpa, o desprezaste.


GALATA.

Pelos Deoses do Olympo Soberano
  Juro que nunca amei tal monstro insano.


LAURINDO.

Pois se he certo, que amor no lhe tiveste,
  Porque falsas promessas lhe fizeste?


GALATA.

Porque assim o meu cis defendia
  Da vingana, que o vil lhe promettia.


LAURINDO.

Ah! Pois quiz com violencia... ( que loucura!)
  Gerar amor, que nasce da ternura!


GALATA.

Sim, com rigor queria, que o amasse,
  E que o meu peito ao meu Pastor fechasse.
Clamando irado assim: "Cruel Pastora,
  "Tu desprezas soberba, a quem te adora?
"s toda do teu cis? Pois discorre,
  "Que ou tu has de ser minha, ou cis morre.
"Dize, resolve j, ou vou matallo;
  "E o corao aos olhos teus mostrallo.
Eu ante o monstro vil de crueldade,
  Que no cede  razo, nem  piedade,
Rogo-lhe compaixo: no se enternece:
  Choro humilde a seus ps: mais se embravece.
Eu delirava neste lance forte
  De dar ao triste a vida, ou dar-lhe a morte.
cis morrer por mim, sendo innocente!
  No, por livrallo fiz-me delinquente.
Com o tyranno usei de idas novas
  Para dar-lhe de amor fingidas provas;
Mas o meu firme peito era impossivel,
  Que abrisse a porta aquelle bruto horrivel.
Se nisto te aggravei, cis desculpa;
  Se eu delinquente fui, foi tua a culpa.


LAURINDO.

Nao chores, virtuosa Galata:
  De ti fazia mui diversa ida;
Bem que eu no sigo as linguas venenosas,
  Que as mulheres s trato de aleivosas:
Sei, que muitas o so, sim, no duvido,
  Pelos casos, que vejo, e tenho ouvido;
Mas contem-se as traies d'ellas, e d'elles,
  Se acharem nellas mil, ha dez mil nelles.
Tu, exemplar Pastora, mostrar queres,
  Que s a gloria, o modelo das mulheres:
Que os falsos homens pdes doutrinallos;
  E com teu mesmo exemplo envergonhallos.
Vai-te em paz, vai guardar teu manso gado:
  Do teu cis feliz d-me o cuidado,
Que eu hirei procurallo: em mim confia,
  Que hei de tornar-te a noite em claro dia.


GALATA.

Ah piedoso Laurindo! Se tal fazes,
  A hum corpo morto nova vida trazes.


CIS.

Que triste vejo a serra, o valle, o monte!
  O rio pasma, corre turva a fonte.
Sim, sem a minha amavel Galata
  A clara luz do Sol he triste, e feia.
Mas onde te acharei, gentil Pastora,
  Para clamar ento: j vejo a Aurora!
Aves, tornais o canto em agonia
  Porque vos falta a Mestra d'harmonia?
O Ceo com ella adoce o meu tormento,
  Tereis nova lio, e eu novo alento,
Mas ah! Que vejo! Que gentil Pastora?
  Parece Galata! Oh feliz hora!
No, no me enganes, lisongeira ida.
  N'altura... em trage... em gesto... he Galata,
Que est banhando em pranto o lindo rosto:
  Eu corro, eu vou tornar-lhe a magoa em gosto.


GALATA.

cis, se s vivo, sorte igual no tive.


CIS.

Inda o teu cis dos teus olhos vive.


GALATA.

Ah! Que vejo! cis! Ceos! Ser mentira?


CIS.

He verdade; o teu cis sou: respira.


GALATA.

Oh Providentes Ceos! Deoses Clementes,
  Que assim curais as chagas dos viventes.


CIS.

Tu choras! He de gosto, ou de agonia?


GALATA.

Chorei de magoa, agora de alegria.


CIS.

Tu choravas por mim! Mereo eu tanto?


GALATA.

V bem o estrago, que em mim fez o pranto.
  Estes olhos, que tu chamavas bellos,
Hoje magoados fugirs de vllos.


CIS.

Assim mesmo so dois lindos diamantes,
  Quie inda eclipsados, sempre so brilhantes.
Mas dize, Galata, que motivo
  Acendeo esse fogo, to activo?


GALATA.

A ausencia de tres dias (longos dias!)
  De lagrimas, de sustos, de agonias;
E mais que tudo hum sonho feio, horrivel,
  Que o no matar-me, no parece crivel:
Sonho cruel, que me pintou na ida
  A desgraa maior, scena mais feia:
Que o monstro Polyfemo te arrancra
  A amavel vida, que esta vida ampara.


CIS.

E credito lhe dste, sendo esperta?


GALATA.

Sim, que a m nova quasi sempre he certa.


LAURINDO.

Se eu no corro a tiralla da vareda,
  N'algum despenhadeiro achava a queda.


GALATA.

Laurindo nos meus males tomou parte,
  E at por compaixo quiz ir buscar-te.


CIS.

Bom amigo, e bom Mestre, as ss doutrinas
  Tu com virtuoso exemplo, nos ensinas:
Tu semeas os campos de equidade,
  Ns colhemos os fructos da piedade.


LAURINDO.

Huns para os outros sermos bons devemos:
  Todos somos irmos: de hum Pai nascemos:
Se hum errar, deve o outro encaminhallo:
  Se hum cahir, deve o outro levantallo.


GALATA.

Perdoa, que eu atalhe o teu conselho,
  Proprio de hum Sbio, Virtuoso, e velho.
Dize, meu cis, dize, por clemencia,
  Qual foi a causa de to longa ausencia?


CIS.

Foste tu: foi o amor, e foi o empenho
  De trazer-te a Ovelhinha, a qual j tenho.
Ao casal ta levei; mas sem achar-te;
  Pois vieste a buscar-me, eu vim buscar-te.


GALATA.

Achaste a minha Ovelha! Ah! Onde estava?
  Bem que eu por ti nem della, me lembrava.


CIS.

Visinhos campos, as distantes terras,
  Amenos valles, escabrosas serras,
Tudo corri: examinei choupanhas,
  Pobres Aldas, rusticas cabanas.
Perguntei aos campinos, Lavradores:
  Rebanhos espreitei: busco aos Pastores:
Todos dizem: "No vimos, no sabemos:
  "Nem leve rasto dessa Ovelha temos.
Eu de perd-la j desenganado,
  De magoa afflicto, de buscar canado,
Voltar queria a ver teu lindo rosto;
  Mas dava gosto a mim, e a ti desgosto:
Eu a dor da saudade em mim curava;
  Mas na m nova, nova dor te dava.
Nisto pensava triste, e vacilante,
  Quando escuto berrar pouco distante,
Parto, gyro, procuro, em vo procuro:
  Pois nada vejo: vejo hum bosque escuro,
Que o Sol formoso nunca vio por dentro:
  Corro, o bosque examino; e l no centro
Vejo hum pobre roupeiro esfrangalhado,
  Dormindo, e a Ovelhinha preza ao lado.
Eu, que a vejo, e conheo,  que alegria
  Em teu obsequio a minha alma enchia!
Com lentos passos vou muito manso andando,
  O sussurro das plantas receando,
Se bem que o vento amigo me valia;
  Pois nem das folhas o brincar se ouvia.
Chego ao ladro: observo, que em socego
  Dorme roncando: na Ovelhinha pego:
Sobre os hombros a ponho, e vim fugindo,
  Do furto alegre, de alegria rindo.
Trepando huma deserta ribanceira,
  Ouo hum grito, lho a traz, vejo  carreira
Seguindo-me a gritar o vil roupeiro:
  " ladro! Larga a Ovelha!  ratoneiro!
Eu, que vejo o meu credito infamado,
  Pro, e com ira mostro-lhe o cajado.
Prudente parto: segue-me as pizadas:
  Toro a vareda, corre-me s pedradas.
Dellas me affasto; e por final prejecto.
  Na leve funda grossa pedra metto.
Agito a funda: corro ento mais perto:
  Desparo a pedra, no vil peiro acrto.
Fica o ladro sem tino: quer suster-se:
  No pde: cahe: forceja para erguer-se:
Outra vez cahe de costas: vai rolando:
  Pga-se s pedras, mas em vo pegando,
Que as mesmas pedras, em que busca abrigo
  Rlo sobre elle por maior castigo;
E despenhado assim pela barreira
  Vai t parar na margem da ribeira.


GALATA.

Ah! Que dizes! Mataste o desgraado?


CIS.

  No ficou morto, no, mas maltratado,
Eu vi... com quanta dor o estive vendo!
  Cahio mortal; depois se ergueo gemendo.
Olhou-me ento com iras, e ameaos;
  E trmulo partio com lentos passos.


GALATA.

Tu, que es no corao manso cordeiro.
  Hoje tornado em lobo carniceiro!


CIS.

Eu cordeiro no sou; porm se o fra
  Tornar-me em lobo foi preciso agora.


LAURINDO.

Castiga-nos o Ceo, se nos vingamos;
  Mas tambem quer, que a vida defendamos.


CIS.

Se mais piedade do ladro eu tinha,
  Nem eu era j teu, nem tu j minha.


GALATA.

Se a amavel vida o mpio te roubava,
  N'huma s morte duas mortes dava.


CIS.

Esses extremos no meu peito os guardo
  Para atear de amor o fogo, em que ardo.
Vamos, vamos, formosa Galata,
  Alegrar com teu rosto a triste Alda:
A Alda, que por ti chorava agora,
  Qual bom Filho, que a Mi perdida chora.


GALATA.

Chora a Ptria, por mim? Quanta amizade
  Devo aos bons, que se nutrem da piedade!


LAURINDO.

s bella, e inda mais bella por virtuosa;
  Que a virtude inda a feia faz formosa.
Porm v, que a Virtude cultivada,
  Cresce, bem como a planta, que he regada;
Mas se falta a cultura, vai murchando;
  E qual planta sem agua vai secando.
Hide: a beno do Ceo sobre vs desa:
  Aos vossos olhos branda relva cresa;
E nella apascenteis grossas manadas
  De prenhes vaccas gordas, e malhadas.
Tantas as cabras, tantos os cordeiros,
  Que encho os valles, encho os oiteiros.
Hide, que he longe a Alda: hide, que he tarde:
  O Ceo vos abene, o Ceo vos guarde.
A beno gere em vs dois bons Esposos,
  Que fructos dm ao Ceo, fructos ditosos.


CIS.

Adeos, meu bom Pastor, meu caro amigo,
  Gloria dos campos, deste povo abrigo.


GALATA.

Essa beno do Ceo, que em ns desejas,
  Sobre tudo, que he teu, sobre ti vejas.
cis, vamos aqui pelo serrado,
  Que he mais perto, he mais doce, e he povoado.


CIS.

Vamos cortando por entre estas faias:
  D c a mo: salta o rego: olha, no caias.
Tu saltas mais, do que eu: s bem ligeira!


GALATA.

  Se eu quiser no me apanhas na carreira.
Que faro hoje ao ver-me de contentes
  As amigas, visinhos, e os parentes,
Que ao vrem-me vagar s sem conforto
  Julgar-me-ho morta, por julgar-te morto?


CIS.

Se o bem nos foge, ata-se o desgosto:
  Torna o bem, morre o mal, renasce o gosto.
Tu vers nas Pastoras desgrenhadas
  Olhos feridos, faces desmaiadas.
E ao ver-te, o riso, e pranto misturando,
  Humas s outras com prazer chamando:
Todas para te verem correm, voo:
  Vivas, applausos pelos ares so.
Huma te beija a face alva, e rosada,
  Que a faz com pranto seu rosa orvalhada.
Outra te enfeita as tranas graciosas
  De myrto, e cravo, de jasmins, e rosas.
Vers, que ao som das lyras vem cantar-te
  A magoa de perder-te, o bem de achar-te.
Vers, como os chorosos innocentes,
  Quando te virem, brincar contentes.
Vers a fonte, que turbada a vejo,
  Corre alegre a dar a nova ao Tjo.
Vers o Tjo, que sem ti bramia,
  Quo plcido vem ver-te  praia fria.
Vers o Melro, o Rouxinol suave
  Convertendo a tristeza em canto grave.
Vers saltando os tenros Cabritinhos
  Alegrarem os tristes Cordeirinhos,
Vers curvar-se o tronco a dar-te as frutas;
  Correr o rio, vir trazer-te as trutas.
Hoje fars feliz, fars contente
  A Alda, o rio, a fonte, o gado, a gente.


GALATA.

Feliz me fazes tu: viver me fazes:
  Aos meus bons dias novos dias trazes.


CIS.

Como posso eu fazer a alguem ditoso,
  Quando s por ser teu, sou venturoso?
Sem ti rustico sou, humilde, e pobre:
  Comtigo sbio sou, sou rico, e nobre.


GALATA.

Demos graas a Amor: Amor cantemos,
  Que assim nos tce a Santa paz, que temos.


CIS.

Sim, cantemos Amor: a voz levanta,
  A voz sonora, com que Amor encanta.


GALATA.

Amor me fez guerra:
Lutmos, venceo-me;
O peito rompeo-me
Para cis entrar.
  Taes laos, taes setas
  Devemos beijar.


CIS.

Amor nos tens olhos
Forjou doce flexa:
Ferio-me: esta brexa
Tu sabes curar.
  Taes laos, taes setas
  Devemos beijar.


GALATA.

Ao ver-me ferida,
Primeiro assustei-me,
Depois alegrei-me,
Amor fui cantar.
  Taes laos, taes setas
  Devemos beijar.


CIS.

Eu pude da seta
Salvar o meu peito;
No quiz: puz-me a geito,
Deixei-a entranhar.
  Taes laos, taes setas
  Devemos Beijar.


GALATA.

Depois de ferir-me
Mostrou-me as algmas;
E diz-me; "No temas
"Quando eu tas lanar.
  Taes laos, taes setas
  Devemos beijar.


CIS.

Ferir-me, prender-me
No era preciso,
Bastava hum teu riso:
Hum teu brando olhar.
  Taes laos, taes setas
  Devemos beijar.


GALATA.

Amor, abre as azas
Vem, prende estes braos,
Que os teus doces laos
No hei de quebrar.
  Taes laos, taes setas
  Devemos beijar.


CIS.

Sou prezo por gosto,
Por honra cativo:
Por prezo he que vivo,
Qual peixe no mar.
  Taes laos, taes setas
  Devemos beijar.


GALATA.

Amor, chama as Graas,
E o Santo Hymeneo!
Que venho do Ceo
Meu lao apertar.
  Taes laos, taes setas
  Devemos beijar.


CIS.

Tu chammas as Graas?
No clames por ellas;
Pois Graas mais bellas
Em ti venho achar.
  Taes laos, taes setas
  Devemos beijar.


GALATA.

Basta: canada vou: mais no cantemos:
  Logo melhor n'Alda cantaremos.


CIS.

Pois vai tu pela encosta desse monte,
  Que a lyra vou buscar: l saio  fonte.


GALATA.

No te demores l, minha alegria.


CIS.

J volto a ver-te, minha luz do dia.


GALATA.

Levas-me a vida, a jia mais perfeita.


CIS.

Em penhor dessa vida esta alma acceita.


GALATA.

Em penhor! Queres pois, que a restitua?


CIS.

No; se essa vida he minha, esta alma he tua.


FIM





End of the Project Gutenberg EBook of Galata, by Antnio Joaquim de Carvalho

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK GALATA ***

***** This file should be named 21780-8.txt or 21780-8.zip *****
This and all associated files of various formats will be found in:
        https://www.gutenberg.org/2/1/7/8/21780/

Produced by Pedro Saborano. Para comentrios  transcrio
visite http://pt-scriba.blogspot.com/ (This book was
produced from scanned images of public domain material
from Google Book Search)


Updated editions will replace the previous one--the old editions
will be renamed.

Creating the works from public domain print editions means that no
one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
(and you!) can copy and distribute it in the United States without
permission and without paying copyright royalties.  Special rules,
set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark.  Project
Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
charge for the eBooks, unless you receive specific permission.  If you
do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
rules is very easy.  You may use this eBook for nearly any purpose
such as creation of derivative works, reports, performances and
research.  They may be modified and printed and given away--you may do
practically ANYTHING with public domain eBooks.  Redistribution is
subject to the trademark license, especially commercial
redistribution.



*** START: FULL LICENSE ***

THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK

To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
distribution of electronic works, by using or distributing this work
(or any other work associated in any way with the phrase "Project
Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
Gutenberg-tm License (available with this file or online at
https://gutenberg.org/license).


Section 1.  General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
electronic works

1.A.  By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement.  If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
permission of the copyright holder found at the beginning of this work.

1.E.4.  Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5.  Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6.  You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
word processing or hypertext form.  However, if you provide access to or
distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
form.  Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8.  You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     https://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
